Frei Miguel, um frade Santo.

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Se a missão do sacerdote é apascentar o rebanho, afastando perigos e desvios em busca do aprisco, Frei Miguel, o frade velhinho falecido em idade avançadíssima, 104 anos, partiu para a eternidade com o seu dever cumprido a suscitar seguidores.

O bom frei, um caminhante sem cansaço, virara paisagem carinhosa da cidade, por imutabilidade e constância. Parecia constituir cenário resistente e persistente na cidade veloz, desembestada por corridas que a vida provoca e sufoca.

O frade vencia anos, varara até o século, como se o passo mantido, cadenciado, firme e sem retorno fosse o segredo maior da vida por um plantio sereno, terreno e continuado, vencendo espaço e tempo como se fora uma invariância temporal, ou permanecendo tão intemporal quanto suprema constância, no seu labor pregador, em exemplo próprio de palavras frágeis.

Se o espírito é forte e a carne é fraca, o velho monge, em sua existência longa e admirável, se fizera bem maior domando as suas fraquezas e imperfeições, suas dúvidas e angústias, enquanto homem como nós. 

Poder-se-á dizer que Frei Miguel fora um Santo, imerso num tempo de muita carência de virtude, louvação de ilicitude, busca sequiosa de prazeres e até muitos gozos de desvios de quefazeres. Viveu e partiu recusando gozos e confortos, correnteza à qual foi resistente, enquanto rochedo firme de sua fé.

Poder-se-á dizer também que o seu desengajamento ideológico evitando uma inserção raivosa e ruidosa na denúncia e na pronúncia dos males e deleites consumistas, o tornara alguém indiferente às lutas hostis de classe, outra torrente tão inconsequente quão intolerante, por temática capciosa e gestação odienta e sediciosa.

Não sendo um líder radical, por anatemático censor ou orador feroz praguejador, o velho frade talvez decepcionasse com o seu traje eremita àqueles que fustigam por alienação, os de não seus engajamentos em deletérios pensamentos.

O monge, por certo desagradara alguns, ou não agradara a todos, só porque entrava em todos os lares, ricos ou pobres para abençoá-los, ou para lhes perdoar as faltas e erros, por conforto de sua absolvição.

Não viera ao mundo para ser o que o mundo desejava. Sua missão fora servir ao mundo com o seu jeito simples, manso, peregrino, enquanto emissor de palavras de esperança e de confiança em seu Deus, servidor, crucificado.

Ousara, portanto, resistir à inserção sôfrega nas lutas e conquistas, e à busca de bens vazios e ideais bravios.

Conseguira persistir sem desvios, na parcimônia e modéstia escolhidas, como missão peregrina.

Como romeiro batalhador de sua fé, seguira e prosseguira como exemplo secular e sacerdotal, varando até o século e as mudanças da moda, vencendo os gozos humanos, alienantes ou aleatórios, mantendo sempre o caminhar e o proceder, sem regressar, retroceder, tão imutável quão progressivo e continuado, tudo isso bem externado na velha barba que encaniçando, contemplava tudo, aconselhando todos, sem exceção, com o sorriso que só os simples possuem, e as palavras reconfortantes que só os sábios ditam, conclamando a sensibilidade do outro como meta, a tolerância com o pecador como prática, e o amor ao próximo como missão; enquanto irmão de todos, por pregação humana de seu Deus.

Em sua simplicidade e paradigma de fortaleza e resistência ao ordinário, Frei Miguel estivera sempre acima dos interesses políticos ideológicos, das vazias preocupações revolucionárias, tudo aquilo que sempre requer pregações ameaçadoras de castigos e danações eternas, a serviço de grupos e facções.

E por ser um homem voltado ao seu próximo, o passamento do secular Frade, enternece a alma sergipana, a terra escolhida para o seu sacerdócio; casando tantos, batizando muitos e abençoando todos.

Há um vazio diferente com a sua partida, como se algo bom, por coletivo e amplo, desparecesse e fizesse falta, pois que, sua passagem enternecia o nosso viver.

Não veremos mais o velho frade peregrino, caminhando por nossas ruas, restando-lhe só as pedras enquanto pegada transida e traçada, na lembrança por memória.

E, enquanto a recordação ainda é viva, lembremo-nos deste italiano que nos aportou e aqui ficou conosco por uma longa existência, nascido em Cingoli na Itália, em 30 de outubro de 1908, cujo nome era Serafim Césare, mas que abraçando o hábito monacal dos Filhos de São Francisco, adotara o nome de Frei Miguelângelo de Cíngole.

Mas que virara simplesmente Frei Miguel, figura mista de asceta peregrino ou penitente anacoreta, em que o monge não fazia o traje, por um sorrir terno, confiante, amoroso e acolhedor, que se esvai na lembrança das doces memorias.

Sentidos e pesarosos ficamos todos, com a alma menor, é verdade!

Poucos como ele, em autoridade e benevolência, sobretudo para a absolvição de nossos erros; daqueles que têm fé, dos que não a têm, e dos que a procuram, como eu.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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