Fuxicologia, “Ciência” do Quanto Pior Melhor

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Sou, por natureza, um otimista, pois ainda quero ver o fim de certos costumes, de determinadas manias e práticas deletérias que tanto destroem, danificam e arruínam a convivência e os relacionamentos entre as pessoas.

Sei que é utopia, porém, escolhi ser quimérico e buscar na fantasia o real para sentir-me mais próximo do ideal e acabo concluindo que isto me tem feito muito bem, por isso prossigo.

Entre muitos outros, gostaria de ver banido do cotidiano das pessoas, por exemplo, um dos maiores males que acompanha a humanidade desde os seus primórdios e que muito estrago tem gerado por onde passa: refiro-me a “fuxicologia”.

A fuxicologia é uma “ciência” exercida, normalmente, por uma classe de “profissionais”, composta por perdedores, incompetentes, invejosos, bajuladores, preguiçosos que infernizam a vida do grupo com a potencialização de um defeito, com a super valorização de um deslize, com maximização de um erro ou equivoco e, sobretudo, com a maldade da invenção, do engodo e da mentira: imputam ao outro aquilo que não houve, inventando fatos, criando histórias, construindo causos.

Esses “profissionais” acreditam ser o fuxico a maneira mais inteligente de conseguir o que querem sem a contrapartida do esforço, da boa vontade, do trabalho, do estudo, do treinamento e da dedicação.

São pessoas que se satisfazem em derrubar quem está acima, por se acharem incapazes de subir até onde aquele chegou.

O seu sonho maior não é atingir o valor pago àquele “melhormente” remunerado é, antes de tudo, o prazer de ver aquele que ganha mais tendo os seus vencimentos rebaixados ao patamar do seu mísero salário. Quer dizer, preferem forçar a queda do outro ao seu nível de penúria e de incompetência à tarefa de subir até o nível que o outro se encontra. Essa classe é formada pelos que querem vencer sempre pela competição e nunca pela colaboração.

 

A “fuxicologia” vem atravessando os séculos, quebrando barreiras, montando e desmontando esquemas, construindo e destruindo impérios, governos, famílias e pessoas; tem servido para denunciar, criar escândalos, provocar guerras, transformar pessoas e infernizar vidas, grupos e sociedades.

Os teóricos da “fuxicologia” se sentem muito bem apoiados num dos piores (defeitos ou virtudes?), inerentes a natureza do ser humano que é a curiosidade. Pois, miseravelmente, por mais bem esclarecido que sejam as pessoas, é raro aquele que não gosta de uma futrica, de uma fofoca, de um mexerico, de um babado, – outras denominações usadas para designar o fuxico.

Há os que até afirmam não aceitar, de forma nenhuma, esta prática nos seus ambientes e nos seus relacionamentos, porém, é quase certo também, que no íntimo, quando se evidencia uma futrica, arregalam os olhos, para ver melhor, aguçam os ouvidos para melhor escutar e dispensam toda a atenção ao que está sendo fuxicado. É um mal cultural.

A minha proposta é a de que nos esforcemos para minimizar a sua propagação e, sobretudo, os seus efeitos. Esta preocupação que não é somente minha está pontuada na história da humanidade em todos os livros de sabedoria e nas convenções dos grandes pensadores.

Sócrates, por exemplo, filosofo grego, que viveu por volta do século quatro antes de Cristo, disse certa vez a um de seus discípulos que todo prosa veio trazer-lhe um fuxico:

O tal homem, acercou-se do filósofo e, ufano, disse:

– Quero contar-te uma coisa a respeito de um amigo teu!

 – Espera um momento, disse Sócrates: antes de contar-me, quero saber se fizeste passar essa informação pelas três peneiras.

 

 – Três peneiras? Que peneira? O que queres dizer com isso?

 

 – Vamos peneirar aquilo que queres me relatar de meu amigo. Devemos sempre usar as três peneiras. Se não as conheces, presta bem atenção: a primeira é a peneira da VERDADE. Tens certeza de que isso que queres dizer-me é verdade?

 

 – Bem, foi o que ouvi outros contarem. Não sei exatamente se é verdade.

 

 – A segunda peneira é a da BONDADE. Com certeza, deves ter passado a informação pela peneira da bondade. Ou não?

 

Envergonhado, o homem respondeu:

– Devo confessar que não.

 

– A terceira peneira é a da UTILIDADE. Pensaste bem se é útil o que vieste falar a respeito do meu amigo?

 

– Útil? Na verdade, não. É até de pouca relevância. É que…

 

– Então, interrompeu o Mestre, se o que queres contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que o guardes apenas para ti. Não há, como você mesmo disse, relevância e nem interesse em sua divulgação.

 

Estou usando esta técnica e, além dela, uso outras também, como por exemplo: a do “ouvido de mercador”,  a fofoca entra por um ouvido e sai pelo o outro sem passar pela língua, e, ao sair pelo outro ouvido, vai potencializado pelo silêncio que é a melhor resposta que pode ser dada para desestimular um fofoqueiro: silencio. Ele fica possesso, mas não pode fazer nada.

 

Outra técnica é a da valorização do fofocado e desvalorização da fofoca, ou seja a “técnica do desmancha prazer”, por exemplo: o fuxiqueiro chega todo feliz, pois vai detonar a última das ruindades:

– “tu sabe quem tá fazendo o que…?” 

– Não, quem é?

– Fulano…

E, todo feliz, botando fogo pelas ventas, debulha detalhes e mais detalhes…

Aí, no calor da sua alocução, quando está achando que realmente está abafando, recebe, em tom menor, um bem compassado e polido, contravapor.

– Tem certeza? Pois foi exatamente fulano quem mais…

Aí coloco algo – verdadeiro, não pode ser invenção – que evidencie virtudes do fofocado e desvalorizando os efeitos da futrica. Normalmente, neste momento, o encrenqueiro ressabiado, dá aquela encarda de quem não entendeu nada, se recolhe à insignificância de sua prosa e, se retira de fininho, ou muda de assunto.

 

Escrevo este artigo, com o intuito sincero – sem querer ser pretensioso – de diminuir os efeitos deste mal que tantos prejuízos traz para todos. Esperando também que cada um que porventura tenha a paciência de ler até o final esta matéria, mormente, pais, gestores, líderes e, até políticos, saibam daqui extrair algo que de alguma forma possa contribuir para melhoria dos seus relacionamentos.  

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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