Osnar Gomes dos Santos
Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Professor da Rede Pública do Estado da Bahia
Se vivo, no dia 13 de março de 2026, o cineasta José Mojica Marins, criador do icônico personagem Zé do Caixão, completaria 90 anos de idade. Nascido numa sexta-feira 13, Mojica pode ser considerado o pai do cinema de terror nacional.
Lamentavelmente, muitos desconhecem que por trás do personagem Zé do Caixão, existia um cineasta talentoso, com a capacidade de gerar arrepios na ditadura militar brasileira.
Seu primeiro filme, A Sina do Aventureiro (1958), bebeu das fontes do faroeste ibero-italiano. Gradativamente, Mojica enveredou para o cinema de terror. No ano de 1964, dirigiu e atuou no clássico À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Foi neste longa que surgiu Zé do Caixão, o seu personagem mais conhecido.
Para driblar a falta de recursos, usou da criatividade. Entre efeitos práticos improvisados, o cineasta projetou nas telas uma atmosfera de tensão e medo. Não por acaso, foi chamado de gênio por Glauber Rocha. Este, costumeiramente, pedia a Mojica avaliações sobre os seus filmes.
Parte da crítica especializada notou referências à filosofia de Nietzsche no personagem Zé do Caixão. O curioso é que Mojica não tinha qualquer tipo de formação cinematográfica. Seu pai era gerente de um cinema, o que explica a sua aproximação – desde a mais tenra idade – com a sétima arte.
Porém, a “arapongagem” da ditadura militar foi implacável com o nosso aniversariante. Não deixa de ser tragicômico que o regime que torturava e desaparecia corpos no mundo real tenha considerado a filmografia de Mojica “imoral”, “violenta” e “contrária aos dogmas cristãos”.
Apesar de ser banido em vários estados, À Meia-Noite Levarei Sua Alma fez um sucesso estrondoso, levando Mojica a emplacar uma continuação para o longa. Eis que, no ano de 1967, foi lançado Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Mais um sucesso espetacular, que tornou o personagem Zé do Caixão uma espécie de símbolo da cultura popular brasileira.
Contudo, o filme sofreu diversos cortes. Até mesmo falas tiveram de ser substituídas por imposição da censura. Os censores exigiam que o personagem fosse “convertido” no desfecho da trama.
Na cena final, Zé do Caixão teria que admitir a existência de Deus para mitigar os efeitos da mensagem do filme, considerada pelos censores “herética” e parte de um “horror materialista” dirigido por um “satanista subversivo”.
O pior ainda estava por vir. O seu novo filme, O Ritual dos Sádicos (1971) – que três décadas depois se tornou um clássico cultuado no exterior -, foi interditado pela ditadura. Ou seja, o filme foi banido de todas as salas de cinema do país! O gesto autoritário arruinou a carreira de Mojica como cineasta.
Ainda que outros títulos de horror tenham sido trabalhados por ele na década de 1970, nunca conseguiu repetir os feitos de outrora. Além disso, para pagar as contas, Mojica precisou enveredar pelos tortuosos caminhos das pornochanchadas.
O prestígio como cineasta só foi recuperado na década de 1990, quando os seus filmes ganharam projeção internacional. O personagem Zé do Caixão foi aclamado no exterior. Por lá, recebeu a alcunha de “Coffin Joe”.
Atualmente, no Brasil, poucos conhecem o criador Mojica; apenas lembram da sua criatura Zé do Caixão. E muitos outros passaram a concebê-la como uma criatura meramente pitoresca – de unhas longas – perdida em programas burlescos de auditório.
É preciso que haja uma reparação destes personagens da cultura brasileira, tantas vezes incompreendidos. Que as vítimas da sanha autoritária sejam devidamente conhecidas pelas novas gerações, a fim de que o olhar crítico e a sensibilidade para a arte não sejam novamente obscurecidos pela indigência do autoritarismo que ainda teima em nos assombrar. Um viva a José Mojica Marins!