Diego Leonardo Santana Silva
Atualmente realiza pós-doutorado na Universidade de Pernambuco com estágio na Universidade de Vigo, na Espanha
Doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Bolsista para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional de Pernambuco (PDCTR/FACEPE/CNPq)
A vitória do partido político alemão de extrema-direita AfD (Alternative für Deutschland/Alternativa para a Alemanha) nas eleições locais da Saxônia-Anhalt, um dos 16 estados que compõe a República Federal da Alemanha, causou um verdadeiro terremoto político internacional. Foi a primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial que um partido de extrema-direita conseguiu êxito eleitoral em uma eleição no país que já foi governado por Adolf Hitler.
O triunfo eleitoral não significa necessariamente que a AfD irá governar a Saxônia-Anhalt. Mesmo conseguindo por volta de 44% dos votos e, com isso, ser o partido com mais assentos no parlamento local, a AfD precisará se aliar a algum dos outros partidos para conseguir maioria e, pela primeira vez, governar uma região alemã. A ascensão da AfD acontece em meio a um cenário político de crescimento e consolidação da extrema-direita internacional. Porém, o fato deste fenômeno ocorrer na Alemanha traz consigo uma importante reflexão que diz respeito à relação da Alemanha com a memória histórica do nazismo.
Ao ser governada pela extrema-direita entre 1933 e 1945, a Alemanha viu o regime liderado por Adolf Hitler levar o país à Segunda Guerra Mundial. Os alemães viveram em um dos regimes políticos de maior repressão no século XX. Tudo isso resultou em uma das maiores tragédias da história, o holocausto. Por essa razão, a ascensão da extrema-direita em um país marcado pela memória histórica do nazismo chama atenção sobre os perigos e as ameaças que a extrema-direita ofereça às democracias. Porém, é dentro da democracia que partidos como a AfD estão conseguindo triunfar.
Quais serão os próximos passos?
Os próximos passos dependerão não apenas da capacidade da AfD de construir alianças políticas, mas também da reação das instituições democráticas alemãs e da própria sociedade civil diante desse avanço. O caso evidencia que a memória histórica, por mais consolidada que pareça, não é suficiente por si só para impedir o retorno de discursos autoritários, xenófobos e antidemocráticos. Ela precisa ser constantemente disputada, ensinada e atualizada no debate público. Assim, a ascensão da extrema-direita na Alemanha não deve ser entendida como uma simples repetição do passado, mas como um alerta sobre as fragilidades do presente. Revisitar a memória do nazismo, nesse contexto, significa reconhecer que a democracia não está garantida de forma definitiva: ela exige vigilância permanente, compromisso institucional e uma cultura política capaz de enfrentar, sem relativizações, as ameaças que surgem dentro do próprio jogo democrático.
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