Caroline Moema Dantas Santos
Mestra em História Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/ UFRJ)
Integrante do Grupo de Estudo do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
E-mail: moema@getempo.org

Um dos primeiros pontos para compreender a escrita de Graciliano Ramos é perceber o quanto suas obras apresentam a regionalidade do Nordeste brasileiro, e assim podemos afirmar que sua escrita contribui para a construção da literatura regionalista do Brasil, mesmo que esta expresse diferentes vertentes de interpretações. As obras de Graciliano Ramos foram produzidas durante a segunda fase do Modernismo, o que é importante para entender que se trata de uma literatura que reconstitui as questões políticas e sociais em formato de prosa. É interessante ressaltar que nessa fase, as obras não só de Graciliano Ramos, mas de outros romancistas brasileiros também são utilizadas para descobrir e pensar uma região.
É característica dos romances regionalistas o resgate das narrativas populares, a memória das narrativas do homem moderno, pois eles tinham como proposta garantir o não esquecimento do espaço regional, sua paisagem, tipos humanos relações sociais, símbolos e imagens que pontilham o território marcado pelo poder. Isso é notável em obras de Graciliano Ramos, como “Vidas Secas”, “São Bernardo” e “Angústia”. Verdadeiros ícones da carreira do autor, essas obras abordam com certa frequência temas como seca e latifúndio monocultor, que geralmente estão relacionados ao Nordeste brasileiro de 1930.
Marilene Felinto diz que ao analisar a escrita de Graciliano Ramos, é possível observar que cada livro escrito por este autor é diferente um do outro, porém cada um é parte de uma unidade. Ainda segundo Marilene, outro fator marcante na escrita de Graciliano é a brevidade dos períodos que busca o necessário e evidencia o desencanto e o humor cortante do autor, que vai do tosco ao elementar, como verificamos na obra “Vidas Secas”.
Para além das características pessoais de Graciliano, suas personagens narram uma história que traduz a miséria e a marginalização a que estava relegado o povo da região que ficou conhecida como Nordeste durante o primeiro período republicano no Brasil.
A escrita de Graciliano Ramos é enxuta, sem muitos adjetivos ou qualquer palavra que alongue demais suas descrições e narrações. As personagens são figuras marcantes do contexto social brasileiro da década de 1930, o que vem evidenciar mais uma vez o perfil da escrita desse autor, baseada na construção de uma cultura regional.
Tendo em vista a presença do regionalismo nas obras de Graciliano Ramos, podemos compreendê-lo como um elemento característico da nacionalidade brasileira, desde seus primórdios. As regiões, no Brasil, definiram-se, então, por histórias diferentes com heróis e tradições convergentes. As obras de Graciliano apresentam sua ‘mundivivência’, ou seja, Graciliano escrevia sobre aquilo que vivia e como entendia o mundo ao seu redor.
Podemos mesmo vislumbrar um caráter autobiográfico na sua obra, apesar dessa visão parecer restrita e limitada à subjetividade, o que reduz o mundo à dimensão particular do autor. Contudo quando a obra é desvendada pelo leitor, a subjetividade transforma-se em expectativa porque além do uso de suas experiências, Graciliano Ramos também enriquece sua literatura com fatos históricos que possibilitam ao leitor novas perspectivas.
Graciliano Ramos foi um autor consagrado nacionalmente por seus estudos regionalistas e por sua contribuição à produção literária, que apresenta diversos elementos da cultura regional nordestina, nos seus aspectos políticos, econômicos e sociais. Ele aborda também as expressões linguísticas que efetivamente representam a realidade nordestina, ou seja, a sua própria experiência de vida. De forma consciente, o autor mostra a força fundadora da linguagem, de sua capacidade de instauração de uma nova forma de ver e dizer a sociedade e o espaço regional.
Para saber mais:
ABEL, Carlos Alberto dos Santos. Graciliano Ramos: cidadão e artista. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.
ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. A invenção do nordeste: e outras artes. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2006.
FELINTO, Marilene. Graciliano Ramos: outros heróis. São Paul: Editora Brasiliense, 1983.