Jairo Fernandes da Silva Júnior
Mestre em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
Integrante do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov/CNPq)
The Odyssey, dirigido por Christopher Nolan, foi lançado em 2026 e carrega a chancela de filme do ano, na opinião dos críticos. A película remonta uma das histórias clássicas da mitologia grega atribuída ao escritor Homero. O alto investimento na produção é notável pelos atores que carregam os personagens, cenas para cinemas com alta qualidade de exibição, tomadas em alto mar e efeitos especiais que se aproximam da realidade.
Adaptar uma obra histórica é desafiador e foi preciso artifícios que promovessem aproximação com o espectador do cinema com a obra homérica. São séculos de versões, traduções, releituras, adaptações e reconstruções. Nolan demonstrou o que desejava transmitir desde a primeira tomada. Centralizar o famoso cavalo de Tróia, e seu significado, iria além do relato da saga de Odisseu de volta à Ítaca. São poucos os que nunca ouviram falar sobre o presente de grego.
A Odisseia, de Homero, escrita por volta do ano VIII ou VII a.C, faz parte do princípio filosófico do Ocidente. A narrativa carrega o debate sobre pertencer ao lugar que foi construído pela sua força e pelo poder de persuasão, através do dom, por habilidade e aptidão. É intencional e exposto nas entrelinhas, o debate sobre moralidade e desrespeito à hospitalidade dos deuses. Ulisses trai a confiança dos troianos, desrespeita o templo de Atenas e cega o Ciclope, o filho de Poseidon. Para Zeus, não restou outra ação a não ser a punição.
É exatamente neste ponto que Nolan demonstra o poder da sétima arte. O ofuscar da mitologia por meio dos efeitos especiais e de artimanhas da representação, convida o atento e curioso espectador a ler a obra original. Comparar parece ser necessário artifício para compreensão das intenções que estiveram pairando sobre à época em que Homero produziu os textos e os motivos que levaram o diretor britânico a transformar trama em filme.
O que Byung Chul Han chama de “A crise da narrativa”, entendemos como distanciamento das obras que questionam ou promovem acertos morais ao longo do tempo. Segundo o filósofo, a efemeridade do presente nos retira a atenção e o interesse pela leitura. A trajetória de Ulisses não se trata, apenas, de uma longa viagem, mas sim, da formação das bases da moralidade e da relação espiritual no Ocidente.
Por outro lado, segundo intelectuais que se dedicam aos estudos da relação História-cinema, produções fílmicas não têm obrigação com a realidade. Marc Ferro, por exemplo, afirma que o campo artístico delibera liberdade de representação que cabe a nós historiadores analisarmos se nos convém, ou não, para operação historiográfica e leitura do objeto.
Nosso foco neste texto não é trazer à luz os limites da representação no cinema, mas sim, provocar os leitores sobre a importância de ler os clássicos. Nos tange também provocar professores a conduzir novos leitores ao deleite de ler um texto clássico ao exibir o filme em sala de aula sob o pretexto de refletir, tal como outrora propôs Italo Calvino: por que ler os clássicos?
Há poucos dias assisti ao filme de Nolan. Ciente de que produções daquela magnitude tem função industrial, sobretudo para atender demandas do seu tempo, saí da sala de cinema para reencontrar o texto homérico. Nas páginas, o mesmo personagem Ulisses, estava presente, mas com outras demandas e com o mesmo dilema: a memória nos sustenta para que possamos sempre regressar para quem, de fato, somos. Para você, caro leitor, assim como Calvino, afirmo que é melhor ler clássico do que não ler.
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