Afrotopia em Wilton Santos, Mali e Anderson Hot Black

Jairton Peterson Rodrigues dos Santos

Mestre em Ensino de História (UFS)

 

Imagens retiradas: Wilton Santos: Wilton Santos. [Fotografia ator e bailarino]. Instagram, outubro de 2024. Disponível em: https://www.instagram.com/p/Cq_Sd0xOph9/ Acesso em: 31 jan. 2025. Mali: Roberto Fotografia e Mali na Voz. Instagram, Novembro de 2024. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C0fMcRzuwKK/?img_index=1. Acesso em: 31 jan. 2025. Anderson Hot Black: SERGIPETUR. [Fotografia de paisagem turística de Sergipe]. Instagram, 27 jan. 2024. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C9qI-XmS89OzIjrAXzHTJnWPpNcCrEtjyFRjrQ0/. Acesso em: 31 jan. 2025.

O Brasil foi o país que mais escravizou seres humanos vindos da África. Estima-se que, entre os séculos XVI e XIX, aproximadamente 4,8 milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil, o que representa cerca de 40% do total de africanos escravizados que foram transportados para as Américas. Nosso país também foi o último das Américas a acabar com a escravidão. Isso ocorreu apenas em 1888.

O fato de o Brasil ter sido o último país das Américas a abolir a escravidão reflete a forte dependência econômica do país em relação ao trabalho escravizado especialmente nas plantations de café e açúcar. A abolição, no entanto, não foi acompanhada por políticas eficazes para integrar os ex-escravizados à sociedade, o que contribuiu para a perpetuação de desigualdades sociais e raciais que persistem até hoje.

Esse fenômeno de exploração de um território e dos seres humanos que nele habitam sobre o outro, chamamos de colonialismo. Esse tipo de dominação desumanizou seres humanos e espoliou dos territórios africanos boa parte de seus recursos naturais. O colonizador observa seu colonizado como produto, como ser abjeto, retira dele sua subjetividade, cria narrativas históricas de dominação que potencializam as metrópoles e, em contraposição, diminui os colonos.

Mesmo após a abolição da escravidão no Brasil, homens e mulheres negras continuaram sendo desumanizados, em um processo contínuo de colonização de seus corpos e de suas subjetividades. Percebemos isso em diversas situações, como no Código Penal de 1890, que criminalizou a vagabundagem e que, em 1941, foi posto na Lei de Contravenção Penal a partir do Decreto 3.688. Atualmente essa lei raramente é aplicada, mas ainda está em vigor e era frequentemente usada para prender pessoas negras que não tinham emprego formal. Registros históricos exibem que apesar da laicidade constitucional brasileira ocorrer desde 1891, templos de candomblé eram vilipendiados pelos poderes estatais até a década de 1960. Até a década de 1930, negros foram socialmente impedidos de jogar futebol, e havia clubes sociais que não permitiam sua entrada. Em livros didáticos e dentro da educação formal, pouco se debatia sobre a participação negra na edificação histórica e científica do nosso país.

Essas exclusões e silenciamentos criaram em nossa sociedade uma consciência alienada, uma visão distorcida sobre a população negra e sua participação histórica da nação, observando-a como inferior, desprovida de poder e marginalizada – uma visão colonialista acerca dos africanos e de seus descendentes.

A Afrotopia é uma “renarração” dos africanos e seus descendentes a partir de discursos de independência, autonomia e autorrespeito. É um conceito desenvolvido pelo economista e escritor senegalês Felwine Sarr, apresentado por seu livro “Afrotopia” (2016). A ideia central é repensar o futuro da África e dos afrodescendentes a partir de suas próprias referências culturais, históricas e sociais, em vez de seguir modelos externos impostos pela colonização ou pela globalização.

Sarr propõe que os africanos e suas gerações pelo mundo se libertam de visões estereotipadas (como a de um continente apenas pobre ou em crise) e construam um caminho próprio, baseado em suas riquezas e potencialidades. A Afrotopia não é uma utopia, mas um projeto realista que valoriza a diversidade africana, suas tradições e sua capacidade de inovação. O conceito enfatiza a necessidade dos negros se apropriarem de suas narrativas e criarem um futuro que respeite suas identidades e aspirações.

A música, as artes, a linguagem, a religião e a escrita são caminhos de novas narrativas sobre o povo negro no mundo. Elas servem para exibir que os afrodescendentes são maiores que os estereótipos, o tráfico e a colonização. A educação e o capital humano são centrais para a divulgação desse ideal.

Abdias Nascimento, Beatriz Nascimento, Pedrinho dos Santos, Maria Neli dos Santos, Racionais MC´s, Emicida, Facção Central, o Teatro Experimental Negro, Valdice Teles, Zezé Perrela, Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Wilson Tibério, Emanuel Zamor, Mercedes Baptista, Carlos Acosta, Zozimo Bulbul e tantas e tantos outros auxiliaram na criação de narrativas de empoderamento da população negra. Em Sergipe, destacamos três artistas que criam referências de empoderamento e reflexão sobre a comunidade negra: Wilton Santos, Mali e Anderson Hot Black.

Wilton Santos é poeta, dançarino, sacerdote de matriz angolana, agitador cultural e ator. Mali é rapper, compositora, poeta, produtora cultural, arteeducadora e ativista social. Anderson Hot Black é apresentador, poeta, agitador cultural e rapper. Todos eles observam a arte como forma de resistência e transformação social criando narrativas de empoderamento a população negra.

Wilton Santos em seus livros “Herdeiro de Zumbi”, “Porto do Cais” e “Canjerê Poético” narra, em forma de poesias, sobre a força da identidade negra, sua ancestralidade, suas lutas por reconhecimento e liberdade. Em suas performances artísticas, ele apresenta entidades tanto da religiosidade de matriz angolana, quanto ketu e iorubá, desmistificando a visão pejorativa sobre esses encantados. Sua dança afro-brasileira é a expressão corporal da liberdade.

Mali, em suas letras e interpretações, expressa o empoderamento da mulher negra, a valorização de sua estética, de suas raízes e enfrentamentos. Letras como “Afro Sempre Power”, “Anomalia”, “Ouroboros”, “Folha em Branco” abordam a luta pelo direito negro à cidade, seus anseios, a crença na vitória e o uso das artes e intelectualidade para se chegar aonde almeja.

Anderson Hot Black é um rapper engajado e fomentou um dos maiores programas televisivos produzidos no Estado de Sergipe, o “Estação Periferia”, que foi a primeira atração sergipana a integrar uma grade de programação em rede nacional. A periferia negra sergipana se via como fonte de produção cultural, de poder, com narrativas de construções coletivas, com suas organizações expressando, não as dores, mas suas lutas e vitórias.

Três artistas sergipanos fomentaram uma nova maneira de se perceber negros, a partir de construções históricas de força, empoderamento e organização coletiva, uma edificação afrotópica que coloca homens e mulheres negras como sujeitos de suas próprias histórias, não como vítimas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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