Profa. Dra. Andreza Maynard
Universidade Federal de Sergipe
Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Aracaju completou 171 anos. Ao lembrarmos da fundação da cidade e da transferência da capital, a associação imediata recai sobre os nomes de Sebastião José Basílio Pirro e Inácio Joaquim Barbosa. Os homens ocupam lugar central nas narrativas que contam a história da cidade. Certamente havia mulheres em Aracaju naquele 17 de março, mas, para a história oficial, elas permanecem invisíveis. Este breve texto é, ao mesmo tempo, uma homenagem à aniversariante e uma provocação.
A capital sergipana foi fundada em 1855. No entanto, durante o século XIX, poucas mulheres alcançaram projeção pública. As restrições sociais da época limitavam sua presença na vida política e intelectual. Já no século XX, a atuação feminina tornou-se decisiva, sobretudo na educação e na produção do conhecimento. Entre os nomes mais marcantes está Maria Thétis Nunes, referência incontornável da historiografia sergipana.
Na política, também houve avanços, ainda que mais lentos. Maria do Carmo Alves entrou para a história como a primeira mulher eleita senadora por Sergipe, destacando-se no cenário local e nacional. Contudo, apenas no século XXI Aracaju elegeu sua primeira prefeita, quando Emília Corrêa venceu o segundo turno das eleições de 2024. Tais exemplos evidenciam que se faz imprescindível ampliar a representatividade feminina, bem como reconhecer a presença das mulheres na história da vida pública municipal.
Estudos mais recentes sobre a história da educação sergipana, especialmente pesquisas desenvolvidas no âmbito da pós-graduação, mostram como professoras, educadoras e estudantes participaram ativamente da construção da vida cultural e intelectual da capital. Ainda assim, persistem lacunas quanto à participação feminina em diversos aspectos da vida social, cultural, política e econômica de Aracaju.
Pouco se sabe sobre as mulheres no mundo do trabalho (para além das instituições de ensino), no ambiente doméstico, nas relações afetivas e até mesmo em momentos decisivos da política. Tornar as mulheres visíveis na história é fundamental; mais do que isso, é necessário escrever a história a partir de suas perspectivas.
Em 1940, Walter Benjamin propôs a ideia de uma história “a contrapelo”. Aplicada à construção de uma história das mulheres, essa abordagem permite ler os eventos do ponto de vista dessas personagens excluídas, recuperando diários, cartas e narrativas não oficiais que revelem experiências silenciadas pela história patriarcal.
Talvez um dos desafios para os próximos aniversários da capital seja continuar ampliando o olhar sobre o passado. Compreender Aracaju em toda a sua complexidade também implica reconhecer as muitas mulheres que ajudaram, e continuam ajudando, a construir a história da cidade.