Mudanças climáticas em tempos sombrios

Dr. Roger D. Colacios

Professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Foto de Cristina Mittermeier em uma expedição da Sealegacy. Fonte: https://www.nationalgeographicbrasil.com/2018/08/urso-polar-faminto-esqueletico-artico-video-fotografia

 

            Este título pode parecer redundante, pois as mudanças climáticas são por si mesmas sinônimos de tempos sombrios. Mas, me refiro aqui simplesmente que além das ações que buscam impedir as alterações no clima, temos que enfrentar um momento histórico onde a negação desse fenômeno é também um sintoma do obscurecimento da atualidade. Ou seja, além do combate pelo equilíbrio climático lutamos contra um clima político que nos leva ao cinismo em relação aos perigos para o futuro da própria humanidade.

Devemos entender, de antemão, que mudanças climáticas é um enunciado científico presente na literatura desde aproximadamente 1950, mas de forma contundente, somente a partir de meados dos anos 1970 que os cientistas se debruçaram sobre o assunto e com maior profundidade. Foram vários os fenômenos climáticos estudados, todos relacionados a modificações na estrutura do clima terrestre na contemporaneidade. Hipóteses que variavam desde a metanização da atmosfera, até o inverno nuclear foram aventadas, mas a principal temática de estudos, e que se revelou verdadeira, foi o aquecimento global.

Diante desse cenário, o que acontece na atualidade é que os cientistas já detêm consenso em torno da veracidade dos enunciados das mudanças climáticas e das suas causas, todas de origem humana. Os cientistas sabem identificar o problema no clima contemporâneo e que a ação da humanidade, na forma de produção capitalista, é a causa principal dessa situação. No entanto, no mundo político a conservação das incertezas a respeito desse cenário científico mantem inoperante qualquer tentativa de reverter esse quadro, ao contrário, o que temos visto é um retrocesso neste sentido, com decisões tomadas por governos de países centrais com intuito de se retirarem dos acordos ou então revisar as metas. Claro que temos esforços políticos opostos a isto, que tentam  fazer avançar os tratados climáticos e assim valer os objetivos de redução dos gases causadores do efeito estufa. Estas vozes, que apesar de serem ressonantes mundo afora, acabam ecoando no vazio quando disputam espaço nas reuniões internacionais ou sob a pressão do poder econômico em geral.

É inegável que esta movimentação política cambaleante influência na opinião pública sobre as mudanças climáticas. A fraca sustentação dos tratados e acordos, todos firmados de 1997 para cá, e seus péssimos resultados práticos, mostram que sem uma pressão direta das sociedades o fenômeno climático vai continuar se propagando. Prova disso é que não falamos tanto, ou ouvimos falar, de medidas eficazes de combate ao aumento da temperatura global, mas em seu lugar estamos sendo levados a discutir resiliência ou então adaptação ao clima. Ambos os termos significam formas de aceitação das mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, uma maneira de negação política da possibilidade de reversão ou contenção dos seus efeitos para o mundo natural e as sociedades humanas. A própria ONU tem apostado alto nas medidas de resiliência, e também governos de vários países apresentando políticas públicas neste sentido. Ao que parece o futuro político do clima está selado.

Esta conjuntura de indecisão e adaptação fica mais densa a partir de outros aspectos da atualidade. A imensa carga imagética que o mundo contemporâneo produz acaba tornando a imagem um dos principais meios de comunicação, de troca de informações, de letramento e de exposição cultural. Neste sentido, as imagens relacionadas as mudanças climáticas têm variadas origens e intencionalidades. Destacamos três tipos. Imagens como produtos científicos: fotografias de satélites, tabelas e gráficos com as altas das temperaturas por períodos, até infográficos sobre os ciclos do carbono ou dos limites planetários. Imagens como produtos sociais/políticos como fotografias de protestos, montagens artísticas, de não-humanos mortos pela seca, fome ou calor extremo, até os memes, as charges, cartoons, documentários etc. Ou, e que nos chama mais atenção, as imagens como produtos culturais, tais como filmes, animes, mangás, livros (capas), canecas, bottoms, lenços, camisetas, bonés e mais uma infinidade de itens da cultura pop que carregam símbolos ligados as mudanças climáticas.

Enquanto as imagens do tipo científico ou social/político do fenômeno climático buscam a conscientização, a ação organizada, a demanda por políticas eficientes, aquelas típicas de produtos culturais reforçam a perspectiva da resiliência ao futuro planetário. Isso ocorre pois a massificação do enunciado científico das mudanças climáticas, sem levar em consideração a discussão crítica do problema, permite a sua naturalização no cotidiano. É um processo simples, quanto mais se fala de algo, sem compromisso com o debate, mais esse algo se torna banal. A maioria dos livros e filmes sobre o tema, por exemplo, discutem marginalmente as causas das alterações climáticas, como pano de fundo ou mesmo como uma situação que não tem mais volta, apenas resta aos humanos e não-humanos se resignarem e consequentemente adaptarem a nova condição climática global.

Quanto mais intricados são os movimentos do cipoal da política internacional para as mudanças climáticas, mais difícil fica para que soluções eficazes sejam colocadas em prática. Este fenômeno, e a crise social e econômica que já está provocando, talvez seja o principal desafio que a humanidade enfrentou até agora, e estamos falhando miseravelmente nisso.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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