Paula Tavares de Souza Santos
Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Bolsista do projeto “Transformações no cotidiano de Aracaju durante a Segunda Guerra Mundial” (PIBIC/CNPq)
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil foi importante mesmo antes de entrar belicamente no conflito e enviar tropas para a Europa. Diante das constantes ameaças vindas das potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), os Estados Unidos buscaram intensificar ainda mais suas relações econômicas, militares e culturais com os governos da América Latina. Assim, o nosso país passou a ser visto como um importante parceiro do hemisfério.
No embate geopolítico, o Brasil possuiu papel estratégico, tornando-se o maior fornecedor de borracha para a indústria militar dos Aliados, liderados pelos EUA. Entretanto, o processo fabril da borracha e principais locais de extração do látex estavam instalados na Amazônia. Seguindo as orientações do governo estadunidense, Vargas lançou a campanha “Soldados da Borracha” e nomeou o mês de junho para “recrutar” trabalhadores brasileiros a serem envolvidos no processo obtenção do insumo estratégico. Para Neill Lochery, autor do livro “Brasil: os frutos da guerra”, publicado pela editora Intrínseca em 2015, o objetivo dessa campanha era destacar a importância do comércio do produto para o esforço de guerra americano e ilustrar a estreita cooperação entre os dois governos.
Segundo o jornal Folha da Manhã em sua edição de 2 de junho de 1943: “Para esta vitória, que todos almejam com veemência, é necessário um pouco mais de esforço de nossa parte, que cada um se capacite de que deve fazê-lo por amor à nossa pátria e a suas sagradas instituições são vilmente ameaçadas pelo vandalismo eixista”. Empenhados no “Mês da Borracha”, os periódicos sergipanos mencionavam constantemente a noção de unidade nacional em prol do bem maior da pátria brasileira.
Pelo que as fontes indicam, Aracaju esteve alinhada com as exigências impostas pelo Estado Novo quanto à colaboração e apoio ao mês da borracha. Divulgação na imprensa, campanhas e festividades foram realizadas em prol da causa. Até mesmo o tradicional clube Associação Atlética ofereceu o “baile da borracha”, contando os “mais finos elementos da sociedade aracajuana”. Segundo o Correio de Aracaju no dia 2 de julho de 1943, a festa teria “distinção e alegria” e “muita borracha e muito alumínio”.
Após a realização das festividades em prol da borracha, o Folha da Manhã no dia 5 de julho de 1943, divulgou o gesto patriótico comovente de uma criança que doou o bico da sua mamadeira para a campanha da borracha: “Vou me desfazer uma relíquia familiar! (…) Levarei o bico de mamadira (sic), com que tantas vezes me acalentei, nas horas de chôro”. É válido destacar que nessa época o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) exercia forte pressão à imprensa buscando legitimar o governo varguista. Ainda que a criança citada na notícia tenha realizado o ato de doação genuinamente, é inegável como o jornal construiu uma narrativa patriótica, dramatizada, para a sensibilizar o povo sergipano em face ao engajamento na campanha.
Dessa forma, as fontes sugerem que o mês junho, instituído como o “mês da borracha”, foi amplamente utilizado como instrumento de mobilização a fim de engajar os cidadãos locais na missão de torná-los os novos “soldados da borracha” e assim atender às demandas do governo no esforço de guerra. Tamanho vigor, marcado por discursos e apelos patrióticos, revelam uma estratégia de mobilizar os corações e mentes dos sergipanos, um processo ambientado no front interno da II Guerra e que merece estudos mais aprofundados.