O Quadragésimo Primeiro: um filme soviético na Aracaju de 1960

Joana Sousa de Macêdo

Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS)

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

Orientadora: Andreza Santos Cruz Maynard

 

Durante o começo da década de 1960, Aracaju contava com cinco cinemas, concentrados principalmente pelo centro. O Cine Aracaju na Rua Laranjeiras, o Cinema Palace na Rua João Pessoa e assim como ele, também nessa rua, o Cine Rio Branco e o Cine Vitória que ocupava o final da Rua Itabaianinha durante o período, próximo ao Cine Teatro Rex, na extensão da mesma rua. Todos com uma média de até 10 minutos de caminhada entre si, sendo tão próximos, é possível questionar: Como todos esses cinemas conseguiram atuar simultaneamente?

Diferente dos dias de hoje, os cinemas da época contavam com uma programação própria com um até dois filmes por dia em cada estabelecimento e uma das principais formas de checar a programação era através dos jornais. É por meio de jornais como o Gazeta de Sergipe que encontramos a notícia da exibição do filme “O Quadragésimo Primeiro”, película soviética passada no Cinema Rio Branco, no dia 30 de Janeiro de 1960. Naquele mesmo momento, o Cine Vitória trazia o suspense norte americano “Loucuras de Mimi”, o Cine Teatro Rex passava o “Prisioneiros de Ouro”, já os Cine Palace e Aracaju apresentavam, respectivamente, “Trapaça” uma película italiana e “Reduto dos Renegados” um filme britânico. Dentre diversas películas de diversas fontes, a do Rio Branco se destaca exatamente pela sua origem, um filme URSS chegava a Aracaju em meio à Guerra Fria, além de, como noticiado pelo jornal Folha Popular na edição do dia 17 de janeiro de 1960, ser o primeiro filme Russo a ser apresentado após a Segunda Guerra.

“O Quadragésimo Primeiro” retrata uma história de amor ímpar entre inimigos da Revolução Russa (1917). Um tenente do exército branco que é capturado por um pequeno grupo do exército vermelho, cujo entre seus integrantes uma mulher. Após a captura, as interações inicialmente hostis mudam de tom com a aproximação do casal e um naufrágio. O filme chega ao seu final com a morte do protagonista masculino pelas mãos da sua própria parceira, demarcando a escolha dela por se manter na revolução. A sua exibição em Aracaju foi alvo de comentários, nem sempre elogiosos. No dia 30 de janeiro de 1960, o jornal Gazeta de Sergipe se referiu à película como dotada de “(…) um mau gosto, (tão de presença em toda a arte soviética).”.

Considerando o contexto local, percebe-se algo destoante entre o desenvolvido pelo “american way to life” e o apresentado na película soviética. Enquanto se propagava a ideia de família cristã e, mesmo em meio aos periódicos locais – como o A Cruzada, que trazia em meio as suas páginas um guia de feminilidade – a ideia da mulher submissa, o filme traz à tona um ideal pouco abordado em Aracaju e até mesmo escandalizado para a época: o protagonismo e possibilidade de uma relação de igualdade entre gêneros.

 

Para saber mais:

MORIN, Edgar. Poeira das estrelas. Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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