E se a imagem estiver mentindo?

Profª. Drª. Andreza Maynard

Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

 

Em 2026, tornou-se cada vez mais comum recebermos no celular vídeos de pessoas que falam, gesticulam, olham para a câmera e nos contam histórias. Muitas dessas produções, como os encontros entre celebridades em suas versões atuais e mais jovens, nunca aconteceram. Esses arquivos alcançam milhões de pessoas que sabem estar diante de algo irreal. Mas o que acontece quando não sabemos que o vídeo mente?

No dia 4 de outubro, ocorrem as eleições no Brasil. E chegamos a um momento em que a inteligência artificial ocupa um lugar central na produção, manipulação e circulação de imagens, áudios e vídeos. Diante disso, a Justiça Eleitoral estabeleceu regras específicas, incluindo a obrigação de informar quando conteúdos de propaganda tiverem sido criados ou alterados por inteligência artificial, além de restrições à circulação de determinados conteúdos. Mas essa questão não começou com a inteligência artificial.

O cinema já nos ensinou, há mais de um século, que uma imagem pode parecer realidade sem ser. Em todo vídeo gravado existem escolhas. Além disso, toda montagem constrói uma narrativa. As imagens seduzem e convencem. Essa não é a primeira vez que vídeos são empregados como forma de propaganda em meio a disputas pelo poder. A história do século XX oferece um exemplo particularmente importante do uso de imagens com finalidade política.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas filmaram judeus em campos de concentração e utilizaram essas imagens para construir uma representação positiva desses locais. Os Aliados também filmaram os campos de concentração quando ocorreu a libertação, ao fim da guerra. As filmagens realizadas pelos Aliados e nazistas foram apresentadas no Tribunal de Nuremberg. Elas mostravam aquilo que se pretendia apresentar como “a verdade nua e crua”. Antes de julgar, era preciso qualificar os crimes. E as imagens foram utilizadas como evidências. Em 1945, as filmagens serviram como prova. O cenário atual é diferente.

Nunca produzimos tantas imagens. Nunca foi tão fácil compartilhá-las. E nunca foi tão simples fabricar uma cena que parece verdadeira. Nos pós-guerra, as imagens produzidas pelos nazistas e aquelas registradas pelos Aliados, embora construídas em contextos e com finalidades diferentes, contribuíram para documentar a existência dos campos de concentração, seu funcionamento e os crimes cometidos nesses locais. Em Nuremberg as filmagens não falaram sozinhas, elas foram contextualizadas e confrontadas com outras evidências. Hoje, diante de um vídeo, muitas vezes nos questionamos se aquilo de fato aconteceu.

Este texto, meu caro leitor, é um convite para que você assuma uma postura analítica diante dos vídeos que recebe em seu celular. Trata-se de um desafio para que você seja curioso, faça perguntas e avalie as imagens com o olhar de um perito. Questões simples podem ser úteis. Quem produziu o vídeo? Quando? Em que circunstâncias? Com qual finalidade? Existem outras evidências que confirmam aquilo que estou vendo? O historiador francês Marc Bloch nos ensinou que o presente e o passado precisam ser compreendidos em diálogo. Essa é uma lição importante da História para a era das imagens produzidas pela inteligência artificial.

No próximo domingo, milhões de brasileiros irão às urnas. E, a despeito dos esforços para conter as fake news, elas continuam circulando. Na era das imagens fabricadas por inteligência artificial, a democracia depende inclusive da nossa capacidade de distinguir o que parece verdadeiro daquilo que pode ser comprovado. O voto vai decidir sobre o futuro, mas antes precisamos ser capazes de reconhecer a realidade sobre a qual estamos decidindo.

 

 

Para saber mais:

BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, O ofício do historiador. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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