Onde o rock era fabricado

Luiz Eduardo Oliveira 

Universidade Federal de Sergipe (UFS) 

Centro de Criatividade de Aracaju. Reprodução: Infonet.

 

O rock não nasce pronto. Antes do palco, do cartaz e do aplauso, ele tem origem no ensaio. Nos anos 1980, em Sergipe, ensaiar era mais difícil do que tocar. Embora o ideal do mito do roqueiro de classe média ensaiando na garagem da casa dos pais por vezes se realizasse, essa não era a regra. Era mais um ideal importado do que uma realidade concreta. O rock autoral local foi construído, sobretudo, a partir da ocupação improvisada de espaços públicos e privados.

As bandas dependiam de salas emprestadas, porões cedidos, instituições abertas ao improviso. Ensaiar era negociar espaço, horário e convivência. Era também um gesto político: fazer barulho onde o silêncio era a regra.

Entre 1986 e 1987, um desses lugares foi o Centro de Criatividade, que passou a disponibilizar salas para ensaios de bandas de rock. Ali, guitarras, baixos e baterias dividiram espaço com outras linguagens artísticas. O Centro funcionou como laboratório sonoro de uma geração que ainda não tinha estúdios nem circuitos profissionais.

Outro espaço decisivo foi cedido pela Universidade Federal de Sergipe, que disponibilizou algumas salas e porões do Cultart para ensaios. Ambientes pensados para o estudo formal tornaram-se locais de experimentação musical. Era o som ocupando a arquitetura acadêmica, muitas vezes fora do horário regular, em acordos informais, quase sempre precários.

Houve também experiências autônomas, como o Barracão Cultural, no centro da cidade, criado por estudantes e veteranos ligados ao DCE. Ali se misturavam festas, teatro, saraus e shows. O Barracão era, ao mesmo tempo, espaço de encontro, de ensaio e de circulação do rock independente. Nomes como Ney, Alex, Jairo fazem parte dessa memória coletiva construída sem apoio institucional formal.

E havia os gestos individuais que sustentaram a cena. O saudoso professor Cícero Farias, docente de Química, cedia o porão de sua casa no bairro Getúlio Vargas para os ensaios das bandas. Um espaço doméstico transformado em fábrica de som. Sem edital, sem patrocínio. Apenas confiança e generosidade.

Ensaiar era insistir. Errar. Repetir. Construir identidade. O rock sergipano dos anos 80 foi fabricado nesses lugares provisórios, muitas vezes invisíveis, mas fundamentais. Sem eles, não haveria shows, fanzines ou memória.

Talvez por isso a pergunta permaneça: se o rock precisa de palco para existir, não será o ensaio — silencioso, escondido e coletivo — o seu verdadeiro ponto de origem?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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