Luiz Eduardo Oliveira
Universidade Federal de Sergipe

Quando vejo hoje os anúncios de bandas cover ocupando pubs e bares de Aracaju, lembro com certa nostalgia dos shows de rock dos anos 1980. Naquele tempo, tocar não era apenas subir ao palco. Era organizar tudo. Do som ao cartaz. Do espaço ao público. Era uma tentativa insistente de levar a música independente, as composições próprias, a quem estivesse disposto a ouvir.
Desde 1984, isso já era evidente. O primeiro festival de rock realizado na quadra do Conjunto Inácio Barbosa reuniu Perigo de Vida e H2O. Houve algum apoio institucional, mas o peso maior foi o empenho das próprias bandas e de seus organizadores: Wellington Rezende (“Peruca”) e Antônio Carlos Tavares (“Repolho”). O rock autoral começava a se estruturar como prática coletiva.
Em 1985, a lógica se manteve. Mercinho, baixista do Perigo de Vida, junto a um coletivo do Sol Nascente (Raimundo, Dau, Fio), organizou o show Luz, Som e Rock and Roll no Centro Social do Conjunto Sol Nascente. Um evento independente, autoral, sustentado mais por vontade do que por recursos.
O auge desse espírito ocorreu em 1987, com o Encontro de Rock, iniciativa coletiva que reuniu bandas como Karne Krua, Crove Horrorshow, H2O, Passos Blues Band, Alice e Fome Africana, além de Joalbo, ex-vocalista da banda Bandauê. Os shows circularam por vários espaços da cidade: Escola Técnica Federal de Sergipe, Centro Social Urbano do DER, Auditório Lourival Batista e Centro Social do Conjunto Bugio.
Em 1988, o Encontro cresceu. Foi realizado na Associação Atlética, com organização de Vicente Coda (Fome Africana) e Mercinho (Crove Horrorshow). Participaram bandas como Filhos da Crise, e Lulu Viçosa, de Airton (Nem) e Anselmo Gordo, ambos estudantes da UFS. No mesmo ano, veio um marco decisivo: o Festival de Rock do Teatro Atheneu Sergipense, também organizado por Vicente Coda, Mercinho e apoio do jornalista Giovani Allievi.
Esse festival foi histórico. Pela primeira vez, cada banda gravou duas músicas demo. Trechos dessas gravações foram veiculados nas rádios FM locais. O rock autoral alcançava, enfim, uma visibilidade inédita em Aracaju. Participaram Filhos da Crise, Lulu Viçosa, Crove Horrorshow, Karne Krua e Fome Africana.
Nem tudo deu certo. Houve tentativas frustradas, como o festival planejado para a Atalaia Nova em 1987, que teria a banda Mundo Livre, de Recife. Houve também experiências paralelas, como o Rock in Bica, no Festival de Artes de São Cristóvão, que chegou a receber a banda Inocentes.
Foi um tempo em que fazer show era mais do que tocar. Era organizar, somar, insistir. Um empreendimento coletivo. Talvez por isso reste a pergunta: quando o rock deixa de ser coletivo, ele continua sendo independente?