Maria Luiza Pérola Dantas Barros
Doutoranda em História Comparada (PPGHC/UFRJ)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
E-mail: perola@getempo.org
Com o golpe militar de 31 de março de 1964, o Brasil entraria no período conhecido como Ditadura Civil-Militar, marcado por episódios de intensa brutalidade e diversas formas de repressão que durariam até 1985. É importante enfatizar que tal período não foi aceito de forma passiva, mas viu despontar diversas formas de resistência, entre elas a cultural.
A censura se fazia presente. Entre 1969 e 1975, auge da repressão, ela atingiu ambientes intelectuais com o fechamento de jornais, revistas, aumento da vigilância sobre universidades, censura de espetáculos e peças teatrais, cassações de professores e funcionários públicos e perseguições à políticos e estudantes (Lahuerta, 2001, p. 58). Havia o medo e a angústia, mas também esperança e determinação para a luta, buscando alternativas para se driblar essa mesma censura e questionar o governo.
No âmbito cultural, muitos seriam os exemplos de resistências, como o caso dos professores e pesquisadores, afastados de seus empregos na USP, por aposentadoria forçada ou pelo exílio, que fundaram o CEBRASP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) para continuarem as suas pesquisas, em meio às incertezas profissionais e políticas, pensando o Brasil, a natureza do regime militar e o autoritarismo.
A literatura também se fez presente nessa resistência, a exemplo do que o escritor exilado Ferreira Gullar fazia em seu poema intitulado Agosto de 1964, denunciando as mentiras do regime, a coerção policial, a violência, o autoritarismo e a tortura. Outros como o jornalista José Louzeiro, se valendo da relação entre literatura e jornalismo, apresentou aspectos da realidade brasileira ignorados ou mascarados pela mídia da época, a partir do livro-reportagem Aracelli, meu amor: um anjo à espera da justiça dos homens (1976), em que, ao abordar o assassinato real de uma menina de 9 anos, denunciava uma rede de exploração sexual no país que tinha a ditadura por aliada, já que ocorria em sua vigência.
Ainda no que se refere à circulação de ideias, não podemos esquecer da imprensa, alternativa, pejorativamente chamada de imprensa nanica, por terem menos profissionais trabalhando, mas que engajava artistas, intelectuais, jornalistas e estudantes, a partir de seu baixo orçamento e de sua capacidade agitadora. Como exemplo podemos citar a Revista Flor do Mal, um periódico de colagens e poesias, mas que fazia circular notícias que os grandes veículos de informação buscavam abafar em virtude da censura. Essa imprensa alternativa era lugar útil para militâncias seguirem lutando pelos seus direitos, como o movimento negro (em revistas como Negô, de Salvador, e Afro-Latino-America, de São Paulo), que denunciavam o racismo, ao tempo que eram acusadas de criar um problema que não existia.
E assim, nesse contexto de repressão que se vivenciava na ditadura, cada um se valia do que tinha em mãos, do que sabia fazer, para se somar à essa resistência, como o caso de Zuzu Angel em seus desfiles de protesto, materializando a ideia de moda como um produto cultural que diz muito de sua época, e como uma arma de combate.
Também a fotografia foi usada como arma de protesto, a exemplo das imagens feitas pelo fotógrafo Evandro Teixeira, que acabavam passando pelos censores, em virtude desses não terem uma leitura visual apurada, e fazendo circular as denúncias das arbitrariedades e injustiças do governo, como na fotografia do estudante morto em protesto em 1968.
Assim, vemos como antes de ser algo único, a resistência à ditadura se conferiu em algo plural, a partir das diversas experiências em relação ao regime, não estando fechada à um grupo, classe social, gênero ou região, por exemplo. Uma resistência armada, mas, acima de tudo, uma resistência cultural, no âmbito do cotidiano, a partir de pesquisas, da literatura, dos jornais, revistas, ou mesmo fotografias que circulavam com críticas àquele momento, mostrando como o simples ato de pensar contra o regime já era uma atividade subversiva, fazendo daqueles tempos de angústias também tempos de resistências.
Para saber mais:
CALEGARI, Lizandro Carlos. Cinema e resistência: a ditadura militar brasileira em Zuzu Angel, de Sergio Rezende. Margens – Revista Interdisciplinar, vol.9, n.133, dez.2015, p. 114-129.
CAMARGO, Maria Lucia de Barros. Resistência e crítica: revistas culturais brasileiras nos tempos da ditadura. Revista Iberoamericana, vol LXX, n 208/209, jul-dez 2004, p.891-913.
CARDOSO, Marcus Vinícius dos Santos. Era barulho o silêncio: poesia, vácuo de censura e resistência à ditadura militar brasileira. Anais do VI EPEGH/USP, 2021, p.32-40.
JULIO, Giovanna Jesus Gonçalves. Resistência poética frente à ditadura militar brasileira em poemas de Francisco Alvim e Ferreira Gullar. (Monografia) Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, 2022.
LAHUERTA, Milton. Intelectuais e resistência democrática: vida acadêmica, marxismo e política no Brasil. Cad. AEL, vol.8, n 14/15, 2001, p.58-94.
MAUAD, Ana Maria; LISSOVSKY, Maurpicio. As mil e uma mortes de um estudante: foto-ícones e história fotográfica. Estudos Históricos, v. 34, n. 72, 2021, p.4-29.
PINTO, Anderson Roberto Corrêa, FERREIRA JUNIOR, José. O romance-reportagem de José Louzeiro no cenário de resistência à ditadura militar. Intercom, 2015, p.1-15.
TORRES, Maria Fernanda; BUZALAF, Márcia Neme. A estética moderna no fotojornalismo brasileiro: uma análise do trabalho do fotógrafo Evandro Teixeira no período da ditadura civil-militar. 41º Intercom, Joinville, 2018, p. 1-15.