Profª Drª Andreza Maynard
Universidade Federal de Sergipe
Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

Com o fim da Segunda Guerra, as atrocidades do maior conflito do século XX tornaram-se ainda mais conhecidas. A violência sexual contra mulheres foi generalizada, embora a projeção alcançada pelo Estupro de Nanquim tenha feito parecer que esse crime de guerra foi cometido apenas pelos países do Eixo. O livro de memórias Anônima: Uma Mulher em Berlim revela uma face da guerra que os países Aliados preferiram silenciar.
Publicado em 1954, nos Estados Unidos, o livro repercutiu e logo foi traduzindo para diversos idiomas. A narrativa cobre o período entre 20 de abril e 22 de junho de 1945, quando as tropas soviéticas chegaram a Berlim e iniciaram uma onda de estupros contra mulheres alemãs.
A princípio, a obra foi publicada anonimamente. A autora se descreve como uma “loira, de rosto pálido, sempre com o mesmo casaco de inverno”. Mais tarde se descobriu que havia sido escrita pela jornalista Marta Hillers. Além dos estupros cometidos repetidamente por diferentes soldados, ela relata ter sofrido com a fome e o medo. Quando seu namorado alemão retornou, ele desprezou seu sofrimento. Ela então acreditou que as alemãs eram vistas pelo mundo como “destroços de mulheres e lixo”.
Traduzido para o alemão em 1959, o livro recebeu duras críticas. Hillers foi acusada de manchar a honra das alemãs ao descrever o pragmatismo que a levou, assim como outras mulheres, a buscar a proteção de um oficial soviético. Ela viveu até 2001 e não autorizou novas publicações. A obra só foi relançada em 2003. Em 2008 recebeu uma adaptação para o cinema. O filme evidencia que personagem principal é uma jovem educada e nazista convicta, ao mesmo tempo em que é vítima dos russos.
Mais do que um relato sobre estupros, Anônima: Uma Mulher em Berlim, é um retrato da desumanização e do colapso moral provocados pela guerra. Hillers descreve o caos nos abrigos antiaéreos, o colapso da vida urbana, os soldados russos com os braços cobertos por relógios saqueados e o trabalho forçado para remover os escombros.
Exaltados como heróis por vencer a guerra e forçar a rendição nazista, os soviéticos também deixaram uma marca de violência que o tempo demorou a revelar. Estima-se que aproximadamente 100 mil mulheres tenham sofrido abusos sexuais somente Berlim.
O testemunho de Hillers, antes incômodo, serviu para que a Alemanha entrasse em contato com suas dores do passado. O livro se tornou um Best-seller e, assim como o filme, abordam um tema sobre o qual é difícil falar. A violência sexual continua sendo usada como arma de guerra, uma tragédia que ainda ecoa em conflitos contemporâneos.