Ailton Silva dos Santos
Mestre em História (PROHIS/UFS)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
A obra de Andrei Tarkovski (1932 – 1986) transcende o tempo, mesmo que muitos possam considerar que seus filmes sejam arrastados ou monótonos, pois, seguem o ritmo da vida. Nesse sentido, o objetivo que será discutido aqui é de que o tempo dá cor a uma obra, imprimindo-lhe marcas estilísticas e influindo vestígios de teorias e reflexões, nascendo em resposta a consciência inerente a vida e que cada indivíduo terá a sua procura do tempo e no tempo. Para isso, iremos dialogar com a vida e obra deste autor.
Durante sua carreira o diretor associou intrinsecamente a imagem em movimento com a vivência, o cotidiano e a poesia dos dias comuns, e afirmou que o cinema havia tomado um caminho errado ao renunciar a busca de significado na existência em favor da afirmação de valores individuais atrelados a um ideal econômico simplista. Sobretudo o ocidental à proporção que valorizava a forma poética que alguns cineastas orientais produziam e como exemplo chegou a citar o japonês Kenji Mizoguchi (1898-1956).
Tarkovski manifestou ao longo da vida muitos dos seus anseios e pensamentos, mas não de forma explicita, embora tenham sido públicas as manifestações, o fez através de filmes. Contudo, já passado dos cinquenta anos de idade, compilou alguns textos e artigos, rabiscados e escritos ao decorrer dos dias, em um livro onde a manifestação de suas ideias foi, de certa forma, organizada ao menos para a melhor compreensão de outrem.
Os livros tem a capacidade de carregar os pensamentos de um indivíduo, da sociedade e/ou momento histórico, talvez nascido em um tempo ou, como nesse caso, em um mundo muito diferente do que temos hoje. Eles são o receptáculo não só de ideias, mas do espírito tempo (ou zeitgeist) que, por sua vez, é manifestado por indivíduos.
O diretor, que nasceu e cresceu na União Soviética e lá produziu a maior parte de sua obra, morreu exilado na Itália. Expressou muito de si, do período que viveu e seu próprio povo. Entrementes, podemos vivenciar flashs de sua trajetória, ou blocos de sua experiência, através das películas ou memorias que esculpiu no filme O Espelho (1975).
Diferente do cinema ocidental, ou da produção de viés propagandista também executada durante o comunismo soviético, Tarkovski dissertou que o trabalho de dirigir um filme se assemelha ao de um escultor que, guiado pela visão futura de sua arte, remove as imperfeições do mármore e traz a luz um aspecto velado da natureza. Por sua vez, o cineasta não modela o texto ou as imagens, durante a execução do roteiro ou decupagem do produto, ele esculpe o próprio tempo. Pois, o cinema tem também a capacidade de capturar o tempo em sua forma de evento real, sendo antes de tudo uma crônica ou o registro de acontecimentos factuais ou imaginados através da materialidade; sendo essa a sua essência.
As considerações acima remontam de certa forma ao oficio do historiador, que tem na experiencia do homem através do tempo, suas conjunturas e rupturas que conformam a sociedade, sua matéria de estudo. Farejar carne humana, como disse Marc Bloch (1886 – 1944), está no cerne do metier que era bem quisto pelo cineasta que, por sua vez, denotava que o cinema deveria reconstruir e recriar a vida no seu próprio tempo e fluxo causal.
Ora, é importante fazer um paralelo com o tempo presente que, muito diferente dos anos das décadas 1960 – 1980 quando Tarkovski escreveu e produziu, tomou uma velocidade tamanha que podemos ter superado a das máquinas, que ditou nossa vida e ritmo de trabalho por anos, ao passo que podemos crer não estarmos mais no ritmo do mundo digital ou até dos algoritmos, mas da Inteligência Artificial.
Assim sendo, o ritmo atualmente imposto aos indivíduos é incapaz de recriar a vida, como outrora acreditou o cineasta russo, e a ilusão dos storys e vídeos verticais são fantasmas empobrecidos do que um dia fora a narrativa coesa da ventura, com início, meio e fim; ciclos de existências interconectadas através do riso, do choro, entre quedas e conquistas. Nesse ponto, não consigo deixar de pensar em como se manifestaria o diretor defronte a filmes roteirizados e com imagens criadas generativamente com nenhuma, ou quase nenhuma, interação humana.
Portanto, sentir o ritmo de uma cena no cinema, creio que ainda mais no teatro, é o mesmo que percebemos com a literatura. Quando lemos uma palavra, especificamente posta, uma oração exata, aquela que parece ter sido escrita para nós ou sobre nós em algum momento e nos toma de tal forma que experimentamos como que se o espírito do autor, por vezes de outra era, veio nos esbofetear através das páginas ou ainda cingir-nos entre os braços, quem sabe simplesmente apertar nossas mãos.
Por esse motivo, termino o texto evidenciando o quanto é relevante refletir sobre obras que se propunham ou propõem a esculpir o tempo. Pensar sobre diretores e construções, tais como os dramas e ficções cientificas de Tarkovski que, embora desprezasse o gênero, concebeu Solaris (1972) e Stalker (1979).
Não falar dos filmes propriamente ditos, pois podemos esbarrar no gosto pessoal, onde alguns irão concordar com tais visões de mundo e muitos outros não, por questão de característica pessoal ou ideologia manifesta; nem pretendo que concordem com esse texto.
Mas, digo obra enquanto a passagem no tempo e a marca que o diretor deixou na caminhada para o futuro. Nos ensinando que o cinema, assim como a vida, pode ser concebido de forma poética.
Para saber mais:
TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo, Luís Carlos Borges. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2023.