Governo, médicos e o vazio

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É preciso que o debate acalorado, as paixões desenfreadas, o sentimento generalizado de revolta, não superem um mínimo de racionalidade. É até natural que todos esses sentimentos se exacerbem diante dos últimos agravos sofridos pela classe médica em função das recentes decisões, arbitrárias, inconseqüentes e inócuas, anunciadas pelo governo federal, notadamente com a emissão da Medida Provisória 621 – “Programa Mais Médicos” e com o veto parcial à Lei do Ato Médico. Não vou perder tempo comentando equívocos, desacertos e suas motivações. Já são do conhecimento de todos.

Nesse episódio, no entanto, pouco ou quase nada, tenho observado sobre o que pensa a população e que consequências  tais medidas poderão trazer para a vida das pessoas. É como se existisse um vazio, um lado procurando respostas para a inquietação das ruas, desgastado, sem rumo, sem governo; o outro, perplexo, atônito, desalentado, quase nocauteado.

E no meio dessa luta desproporcional, percebo de fato o  vazio,  como se as árvores estivessem nos impedindo de ver o bosque. Mas ele está lá, imponente, soberano, completo.

Os doentes, pacientes, desassistidos, abandonados, são eles a essência da nossa profissão. O médico tem algo de explorador, que penetrando nas florestas, esforça-se para que “as árvores não lhe impeçam de ver o bosque”. Aprendemos, na nossa formação, a procurar algo ao mesmo tempo simples e complexo, o homem e, no caso, o homem que está doente.  Aprendemos a dar o diagnóstico da doença, instituir  o tratamento adequado e seu prognóstico. Essa é a essência da nossa profissão. Sem isso, não é Medicina. Obrigar estudantes ainda imaturos, inexperientes, a cuidar de comunidades carentes, em lugares remotos e sem estrutura de suporte, não é Medicina. Importar médicos estrangeiros sem avaliar seus conhecimentos para atender comunidades carentes, em lugares remotos e sem estrutura de suporte, não é Medicina.

No meio de toda essa confusão criada pelo governo, deparo-me com uma cena emblemática: o nascimento, na maternidade Nossa Senhora de Lourdes, de trigêmeos  saudáveis, bonitos, hígidos, cuja foto foi publicada  com orgulho, nessa semana pelas redes sociais, pelo médico que os trouxe ao mundo, ainda na sala de parto. O depoimento dele, a sua satisfação em ver o final feliz, fruto do trabalho que veio do estudo e do conhecimento, mesmo com todas as deficiências diuturnamente denunciadas naquela unidade hospitalar, foi emocionante demais. Isso sim é Medicina!

Precisamos  pois conduzir a questão na perspectiva do paciente, para que as discussões e os conflitos não os façam esquecê-lo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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