Haja batata!

0

As recentes eleições mais uma vez encerraram uma etapa da vida democrática. Os vencedores estão refazendo suas promessas, agora assediados por eleitores e pelos eternos asteróides lhes sorrindo ao derredor.

 

-”A voz do povo é a voz de Deus!”! Fala assim espertamente o demagogo, sem temer os castigos do próprio Deus, tendo Seu nome citado em vão, para dizer que da urna virá agora toda esperança de felicidade e de fruição.

 

O que leva alguém a se refestelar como vitorioso numa eleição? Será um exercício do humanitismo, a filosofia de Quincas Borba, um dos melhores personagens de Machado de Assis?

 

Seremos, enquanto eleitores embasbacados, diante da festa dos eleitos, uma espécie de Rubião, por tolos e manipuláveis? Sim, porque Machado de Assis faz o contraponto entre Quincas Borba, o que deseja ser sábio, e se expressa como tal, e Rubião, o seu herdeiro e pupilo, que se julga bem mais sabido, mas que no fundo é um tolo, de lastro racional e rasteiro, facilmente enganado, igual a nós eleitores, em empolgação de final de eleição.

 

Por Quincas Borba, Machado de Assis nos diz a todos, como a Rubião descabeçado: – “Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência de outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra”.

 

E nós, enquanto outros Rubiões descabeçados, vibramos também com o caráter conservador e benéfico da guerra da eleição, cuja vitória vale tudo, inclusive o embuste, a enganação, a compra de voto, a dilaceração de todas as regras, contanto que as duas expansões, seja no azul-encarnado do guerreiro, da chegança ou do reisado, seja do pleito eleitoral, sobrepuje a outra expansão para a vaia da galera.

 

E a galeria fica feliz e ditosa. Sim, porque é da essência da galeria, nas gerais, nas arquibancadas, ou nas cadeiras numeradas, o aplaudir e o vaiar suas cores e seus gladiadores em todos os picadeiros da vida.

 

E é uma coisa muito complicada vencer no picadeiro das urnas, sobretudo porque envolve fatores vários de imagem e propaganda, em matéria de compra e venda de produto, um conjunto de ações, ditas marketeiras, só para usar uma palavra da moda, que já não é tão nova, tanto que já vai grafada com K, atendendo a degradação dos tempos que legaliza até a própria violentação do idioma.

 

Pois bem, como suscitadora da violação da vontade, uma campanha de eleição não pode prescindir do marketeiro, este especialista em despertar a avidez nos indefesos consumidores, suscitando-lhes a simpatia para um produto qualquer ou um “coisa – nenhuma”, desde que seja o seu produto.

 

Mas, se o marketeiro tem por função embelezar e tornar indispensável o consumo de seu produto, o marketeiro político é alguém que constrói destruindo o adversário, qualquer adversário, como se fora o pistoleiro intelectual de tempos mais ilustrados, o jagunço cangaceiro em tempos de coragens e bravatas sanguinolentas, tempos em que o virtual era só sonho e vontade.

 

Hoje, no império da ilusão, da marca e da enganação em luzes e cores, a violência se faz branda e despercebida, mas mais fulminante e destrutiva.

 

Mas, tudo isso é ciência, e a ciência é neutra. Neutros, porém, não são os resultados da ciência quando usada pelo homem, em seu desfocado humanitismo de Quincas Borba, para o sucesso das suas próprias grandezas e misérias.

 

Porque, triste do candidato que não tenha um destes novos cangaceiros em sua defesa e que não tenha muito dinheiro para remunerá-los a peso de ouro.

 

Por outro lado, só para lembrar de Nelson Rodrigues, “Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.” Assim, ninguém ganha a eleição sem gastar, e gastar bastante.

 

E os que se enojam com tudo isto pensam poder coibir os custos de campanha inventando impedimentos e proibições querendo nivelar na paulada os desiguais, fingindo que é possível coibir a cobiça do ouro, e dos tolos.

 

Assim, se empesteia a eleição, com dezenas de siglas e candidatos de si mesmos, tumultuando o debate, misturando o vulgo e o vago, como se fosse possível extrair no liquidificador da campanha política uma emulsão de cortiça, com aguarrás, com lastro equilibrado de chumbo em grão, e disso tudo sair um buquê de mangaba.

 

Como se fosse possível ainda, e por melhor e desejável, um candidato dissolver radicalmente o outro, e ainda desta maceração, fermentação e apodrecimento, permanecerem todas as essências e excelências, para o deleite circense do eleitor; como se este, o eleitor, fosse uma besta quadrada receptiva a todo tipo de alcalóide por tolice.

 

E o eleitor, que não é tolo nem uma besta quadrada, e que não foi vacinado contra canalhismos, passa a querer ganhar por um mau vício de folia, a mais valia de um trocado.

 

Sim, porque só quem não vende o seu voto, excluídas raras exceções dos que se ruborizam quando lhe falamos disso, só por preferirem outras misérias, são aqueles cujo voto nada vale; o meu, por exemplo, para suprema revolta: ninguém até hoje me propôs a compra de meu voto.

 

E olhe que eu não ficaria revoltado em entrar na fila desta orgia gratuita se fosse liberada tal fileira, afinal tenho recebido tanto pedido de voto de amigos, conhecidos e até desconhecidos, alguns até pedindo por ajuda, outros encenando até a mendicância em tempo eleitoral; o que não deixa de ser um apelo equivalente à comercialização do voto.

 

Neste campo, da compra de voto, eu tenho um amigo que afirma, não como regra ou teorema humanitista, mas como um princípio tautológico de um debochado e bem constatado lema que: “No fundo, no fundo, na alma íntima de cada um, todo eleitor gosta de vender o voto, até o exótico e o revoltado, o político é que não pode aceitar todo preço que lhe pedem”.

 

No canalhismo irônico deste meu amigo, isso é uma verdade que se teima em esconder com falsos brios de honestidade, igual à ironia Rodrigueana falando das intimidades nas alcovas, que “se todos delas soubessem, os homens não se beijariam, nem apertariam a mão, uns dos outros”.

 

Assim não há repulsa nem nojo, mesmo de qualquer flatulência ensejada por mal cheirosa. Porque se houvesse qualquer cheiro mal aspirado, a repulsa seria real, e constataríamos sem exceção, a derrota das campanhas, sobretudo as onerosas.

 

Mas, que adianta falar tudo isso agora, inclusive de fetiches e taras de alcovas? O resultado eleitoral apaga tudo, sobretudo a tara da compra e da venda de voto. A não ser que aconteçam alguns acidentes de percalços envolvendo recalcitrantes derrotados que não aceitam a surra sovada nas urnas e, por vingança, impunidade e esperteza, denunciem o escambo eleitoral em cestas básicas e dentaduras, como a imprensa está a falar, ensejando estimular notícias, para solapar a orgia popular, agora no tapetão e no judiciário.

 

Neste particular, o linguajar futebolístico é lapidar. O tribunal vira tapetão. E o tapetão sempre pode desfazer tudo, igual às comissões de verificações nos tempos das eleições em “bico de pena”. O que é uma pena, porque sempre se pode a tudo desvirtuar.

 

Em muitos desvirtuamentos à parte, creio, enquanto eleitor incomodado, mas não derrotado, que entre os fatores que destorcem o processo eleitoral estão a obrigatoriedade do voto, o excesso de siglas e partidos, e o que deles vem por decadência; o excedente de candidatos grotescos e histriônicos.

 

Creio inclusive, que até a compra de votos seria minorada se não houvesse a obrigatoriedade do voto e o voto de legenda. Melhor seria também, que fossem eleitos os mais votados e que a eleição do legislativo não fosse casada com a do executivo, sobretudo no plano federal, e que o mandato dos senadores não fosse tão longo. Mas, isso seria uma reforma jamais pensada pelos políticos, ameaçados na fruição de todos esses erros. Portanto, tudo ficará do mesmo modo, o que é melhor do que não ter eleições.

 

Aos que chegam laureados nas urnas, que sejam bem-vindos. Que a corda agora dada pelo povo não lhes sirva para a imobilidade, a inação, e até para a própria esganadura.

 

Quanto aos esganados no patíbulo eleitoral, abatidos e fulminados no sonho de uma re-eleição, fiquem as nossas saudades, sem muita lamentação, afinal toda mudança é sempre salutar e bem vinda. É um momento também de contemplar a fragilidade diante da perda dos anéis restando os dedos, e de repetir o poeta Fernando Pessoa, afinal “o que foi não é nada”, triste realidade da nossa passagem pela vida, onde o vôo do pássaro passa melhor porque não viola a trilha.

 

Quanto ao povo, apertado na cilha e preso à sua trilha, o povo, sem rejeitar a cilha, o cabresto e a rédea, mais uma vez estará sempre certo, sendo estribo e dando corda aos novos cavaleiros da História, para que a exerçam em grandeza ou mediocridade; tudo ao gosto, à vontade, à sorte e à ousadia de cada um.

 

Mas, sem sair da guerra e da eleição, e voltando a Machado de Assis que está a fazer cem anos de morto, retornemos ao humanitismo de Quincas Borba, como se este nos estivesse repetindo, enquanto a outros Rubiões descabeçados:

 

Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. AO VENCIDO, ÓDIO OU COMPAIXÃO; AO VENCEDOR, AS BATATAS.”.

 

Quanto a você eleitor, e a mim, em particular, haja batata para descascar!

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários