Homem-Livro: a simplicidade que brilha

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Tive a honra de acompanhar Evando Santos, o “Homem-Livro”, durante a sua estada de duas semanas em Sergipe. Fiquei impressionado por constatar o verdadeiro caso de amor que ele tem para com a palavra escrita, para com a cultura, para com Sergipe e, sobretudo, para com Tobias Barreto.

Mais uma vez constatei a grande máxima que sempre gosto de apregoar: quando uma pessoa quer, faz; e, quando não quer, arranja uma desculpa. Evando faz. E, em fazendo o que gosta, faz a diferença.

A sua história, já muito conhecida, é de encantar a qualquer um que, como eu, gosta de ver sonhos se realizando. Evando não mede esforços nem consequências quando o assunto é a sua busca, é a divulgação, é a leitura, é o livro. Sua missão é disseminar a cultura, os grandes escritores e, principalmente, escritores sergipanos, como seus conterrâneos Tobias Barreto de Menezes, Manoel Bomfim, João Ribeiro, Silvio Romero…

Desenvolve com paixão, com o coração e com a alma, a missão que a si mesmo atribuiu de levar a leitura a todos os lugares. Ele afirma, com muita propriedade, que: sem o livro, sem a leitura e sem Jesus, não há salvação. E cita, em suas abordagens, uma estrofe de Tobias Barreto para justificar o que diz, faz e ama: “a vida é uma leitura: ler é lutar”. 

Ele luta mesmo e, para justificar, diz, usando a letra da música de Belchior: “… eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem amigos importantes, vindo do interior”, o que espelha muito bem sua realidade. De fato, como já esclarecido, não passa de um retirante que, analfabeto, construiu escolas; “analfagráfico” (não sabe escrever), escreveu páginas soberbas de uma história que ainda não terminou; sem teto próprio, construiu mansões; e, sem livros, semeou bibliotecas no Brasil e além fronteiras.

Um exemplo vivo. Um exemplo forte de determinação, dedicação, amor e realização. Não por acaso, ele impressiona por onde passa, quer seja num calçadão de uma movimentada via pública, numa escola, numa feira, ou na Academia Sergipana de Letras; dando entrevista num jornal ou respondendo imprecações do tipo “por que você usa este chapéu de palhaço?”ecaç uma movimentada via, ou numa Academia de Letras, numa escola ou numa feira, dando entrevista num jornal ou respondendo imp A esta ele ultrapassa com galhardia e conteúdo. Até mesmo quando o insultam, ele dá uma aula: “meu filho, eu uso este chapéu de palhaço para chegar mais perto de você e dizer-lhe uma coisa: “estude, pois sem o estudo você nunca será nada”.

Mas na verdade quem é este Mecenas? O que ele faz em sua vida? Onde mora? Como chegou a se tornar este exemplo vivo de determinação e boa vontade, tão importante para nós, brasilianos, que quase sempre vegetamos em busca da realização, de expectativas, quase sempre inalcançadas pelo simples fato de não assumirmos que somos nós mesmos que temos que fazer e não delegarmos, sempre aos outros, a sua efetivação?

Algumas dessas indagações já se encontram implicitamente respondidas. Outras, porém, merecem melhor esclarecimento, sobretudo, aquelas que envolvem as suas atitudes. Atitudes de homem que faz.

Como necessitamos conhecer melhor caracteres de homens como Evando!  Sobretudo para os jovens que estão começando na vida, pois são lições de muito valor para aqueles que de fato querem fazer algo maior. São lições que ultrapassam em muito à “vitimologia” daquelas que, infelizmente, as famílias, as escolas e a própria sociedade ensina todo dia.

Ele não culpa ninguém pela sua vida e sua situação de homem vindo de uma família de poucas posses. Ao contrário, elogia em muito esta situação. Diz que a sua mãe foi a maior mulher do mundo, pois conseguiu transmitir-lhe estes pendores pelo livro e pela cultura da leitura. Não o educou, no tempo próprio, por lhe faltar o essencial; a oportunidade e as condições. Porém sempre o estimulou a fazer, mesmo assim, tudo o que pudesse para aprender e ser. Ela foi e é o seu grande referencial. “Uma grande mulher”, mãe solteira que, cumprindo a diáspora do nordestino, retirou-se para o Rio de Janeiro com o filho de 15 anos em busca de dias melhores: esta história eu conheço muito bem, pois também fui retirante e sei como era.

Pois bem, estive com o “Homem-Livro”, em vários lugares: colégios, rádios, portais de internete, televisões, revistas e jornais. viajamos também a Itabaiana, Frei Paulo e visitamos, em Alagadiço, o Museu do Cangaço, uma grande iniciativa de Antônio Porfírio, valoroso e dedicado historiador sergipano, que já publicou livros e fundou, naquele povoado, um museu digno de ser mais visitado por todos, mormente por escolas, professores, historiadores, turistas e o povo em geral. É uma obra belíssima de iniciativa particular, sem nenhum apoio ou influência política, o que engrandece, ainda mais, a iniciativa pioneira deste amante da história de Sergipe.

Evando, como todos que formamos aquela comitiva de visita, composta ainda por Honorino Junior, da Revista Perfil; Jamysson, da Itnet, professor, escritor e membro do MAC., Gustavo Aragão, escritora Geane Aguiar, escritor, professor e cineasta Robério Santos, a acadêmica de Direito Alidiney Aguiar e eu ficamos muito felizes em constatar a existência daquele marco de preservação da história deste Estado.

Lamentamos, contudo, a falta de uma melhor valorização por parte de quem de direito. Conclamo, inclusive, os órgãos de imprensa que visitem e divulguem; aos alunos e professores que valorizem mais estes fiapos de história que tendem a se perder no tempo e, ironicamente, na falta de tempo e de atenção.

Evando voltou ao Rio de Janeiro onde continuará a tocar a sua Biblioteca Tobias Barreto que hoje conta com um acervo de 45 mil títulos, abrigados térreo de um prédio de três andares onde em breve será instalada, no segundo pavimento, a faculdade popular, Paulo Mercadante e Antonio Paim, em homenagem a estes dois filósofos tobiáticos, onde os alunos não desembolsarão um centavo com matrícula, mensalidade  nem livros. Imaginem o sonho deste herói. Convenhamos é um sonho que vai transformar vidas, famílias e a região.

Duvidam? Duvidem não, ele faz. Quem do nada construiu um prédio nas dimensões daquele, sem recurso nenhum. Tendo inclusive conseguido que o maior arquiteto do mundo, Oscar Niemayer, lhe fizesse o projeto arquitetônico, não deixa dúvida de que conseguirá professores que queiram contribuir nesta empreitada.

Ele veio aqui, trouxe muita coisa, mas, também levou. Foi convidado pelo presidente da Academia Sergipana de Letras, Dr. José Anderson Nascimento, para proferir uma palestra naquele Sodalício, oportunidade em que o Acadêmico e historiador, Luiz Antonio Barreto propôs que a Academia lhe outorgasse a Medalha Silvio Romero, o que foi de imediato aprovado pelos Acadêmicos presentes e, também, aproveitando a oportunidade, o Presidente, Dr. José Anderson Nascimento o premiou também, nomeando-o Acadêmico Correspondente no Rio de Janeiro.

Em junho, faltando tão somente confirmar o dia, haverá a posse e outorga definitiva da Medalha.

 

 


 

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