Homens cis não abortam

Nas últimas semanas notícias sobre aborto tomaram conta das manchetes nacionais e internacionais. Por aqui, tivemos o caso de uma criança de 11 anos de idade que sofreu estupro, engravidou e lutava na justiça pelo direito ao aborto seguro e previsto em lei, mas que foi novamente violentada pela própria justiça, através da juíza que tentou convencer a garota a seguir com uma gravidez de risco e fruto de extrema violência. Por lá, nos Estados Unidos, tivemos a notícia de que a Suprema Corte revogou a decisão que reconhecia o direito constitucional das mulheres ao aborto.

Nas redes sociais, muitas pessoas publicaram que se o homem cis pudesse abortar o aborto já seria legal e seguro, além disso, muitas publicações com a temática de que os homens cis já abortam, pois são mais 5,5 milhões de crianças sem o registro paterno no Brasil, além do abandono parental ao longo da vida. Vamos por partes. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Homens cis não abortam. Estou enfatizando o cis, pois existem homens trans que engravidam, portanto, estou falando dos homens cisgênero, aqueles que nasceram com o sexo biológico e se identificam com ele. Esses homens não abortam. Aborto é uma questão de saúde pública e que deveria ter os corpos particulares respeitados.

Já fui questionada por ser mãe e ser a favor do aborto. Mais uma vez, cada coisa em seu espaço. Ser a favor do aborto seguro não significa dizer que eu abortaria, significa dizer que o corpo da mulher não é um bem público, o corpo das pessoas que engravidam não deveria ser tutelado pelo Estado, as pessoas deveriam ter o direito de escolha do que fazer com seus corpos. Não vou entrar em méritos religiosos ou morais. E pelo que leio e acompanho, os abortos seguem acontecendo, de maneira segura para quem tem dinheiro para pagar, de maneira clandestina e perigosa para quem não tem. Por isso, homens cis não abortam, pois o aborto, nos moldes atuais é violento em diversos níveis e por ser julgado como cruel por toda a sociedade, inclusive a médica, que deveria ser ética e acolher quem precisa de atendimento, traz danos morais, psicológicos e muitas vezes físicos, irreversíveis a essas pessoas.

Homens cis abandonam crianças indesejadas por eles, homens cis abandonam crianças desejadas em algum momento, por motivos de divórcio, novos casamentos, carreira etc. Homens cis negligenciam crianças ao jogar toda a responsabilidade para as mães ou mulheres que cuidam e educam, achando que pagar uma pensão de 300 reais cuidará de tudo, pagará, inclusive, atenção e afeto. Homens cis pedem e até pagam para que as mulheres abortem, mas não fazem vasectomia, transam e insistem em transar sem camisinha. Homens cis forçam a barra, estupram, mas na frente dos amigos e família são os pró-vida. Por isso, caras e caros, vamos usar a expressão correta para nos referir a homens cis que não assumem responsabilidades por ESCOLHA, por livre e espontânea VONTADE e por seguirem reproduzindo um padrão machista e misógino que atrasa a vida de milhares de mulheres e as deles também.

Sugiro a leitura e pesquisa sobre o aborto seguro e saúde pública da pesquisadora e antropóloga Débora Diniz, covardemente ameaçada de morte pelo grupo “pró-vida”, exilada do Brasil, além de pesquisas e artigos disponíveis nas edições da Revista de Estudos Feministas, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Dialogar para além de dogmas e escolhas pessoais é preciso. A questão existe e deve ser tratada da maneira menos violenta possível. A saúde deve ser pública, os corpos não.

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