Horrores – Araripe Coutinho

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HORRORES

 

Araripe Coutinho

 

 

A vida tem sido para mim tão fastiosa. Tão acidentalmente repetida, que penso, que fazer parte da civilização não tem, na verdade, nenhum tipo de regozijo. Tem sido tão estressante conviver comigo mesmo, com alguém, que até aquilo que julgava tão prazeroso – o sexo – não tem mais importância alguma. Descobri aos 40, que pagar é melhor que se envolver, se doar, se apaixonar. Essas palavras que aprendemos na adolescência a dizer. Paixão, amor, cumplicidade. No mundo homossexual ainda é mais difícil. Quando vejo estas passeatas gays nem acredito! Penso que os grandes assuntos como solidão, casamento entre parceiros, aposentadoria e direitos assegurados pela Constituição não são, no fundo, levados à baila, ficando um monte de barbies mostrando seus belos corpos, travestis pensando que estão num desfile, trios elétricos arrastando uma multidão, com mais heteros homofóbicos do que qualquer outra coisa. Tenho pensado muito na homofobia das pessoas. É incrível como ela é real. Tem pele, cor, olhos, respira, tem mãos. Eu tinha uma vizinha cujo filho me adorava. Mas nunca dormiria com ele. Porque além de ser mongol, cérebro zero era do tipo gostosão, musculoso e comedor de todas as mulheres. Eu odeio homens cheio de vantagens!Como se não bastasse, a mãe do mesmo gritava todo dia às 10 da noite. Entre! Tá na hora! Acho que ele nunca comeu ninguém, na verdade.

Mas o meu horror de estar no mundo passa muito pelo horror em como vejo tudo! Hoje não posso mais me dar o luxo de pagar michês – cansei de todos eles – apesar de achar muito mais cômodo. Como se fosse uma necessidade meramente fisiológica. O amor, aquele que nos ensinaram na infância, nunca o tive. Minha mãe, uma senhora Beleense, me abandonou com 3 anos num orfanato de Magé, interior do Rio. Mas isto a mim não mais interessa. O que sobrou de péssimo de tudo isso foi uma compaixão profunda por todos e pela humanidade. Tudo me horroriza, fico sem dormir, falando só horas, tomo banhos demorados demais e não tenho mais paciência para tv. Woody Allen, Almodóvar, Reinaldo Arenas, Stephan Zweig, Elizabeth Bishop,  Hilda Hilst e Emily Dickson, além, é claro, de todos os fantasmas que compõem a biblioteca do meu solitário quarto.

Descobri, já tarde, quando pensava, como em Maruim, uma cidade pequena, a 30 km de Aracaju, alguém tinha colocado dois adolescentes no porta-malas de um carro, jogado a bicicleta por cima e fuzilado, os dois, sem defesa alguma. Fui à casa deles e a mãe estava muda. Um vilarejo de casas bem pobre. A igreja ao longe, quieta.  E depois me assombro com um doente mental queimado e depois de oito dias, morto numa sala escura do Hospital João Alves. Uma mulher mostrada morta na capa de um jornal com as pernas abertas e adolescentes presos e apresentados como assassinos pela polícia e depois liberados, como inocentes. Quem pagará pela barbárie a estes dois presos, por que eram pretos e pobres, moravam num barraco… Um banquete de horrores. E aí fui descobrindo algumas coisas anotadas, e saltou da mesa um conto do Edgar Allan Poe. O Gato Preto. Onde ele diz: “devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior.

Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos

sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me

à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus

animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter.”  Podia ser que agora eu despertasse definitivamente que estava no lugar errado. Que as coisas são profundamente inesperadas e que o destino que ambicionamos traçar, não é assim. Passei a dormir 10 minutos depois do almoço. Não mais tomei tarja preta para suportar a vida. Basta ler os jornais. Ou não ler mais nada.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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