Impeachment do Amor

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Quantas vezes você já amou? E amar de verdade? Na legitimidade dos sentimentos, estamos propícios a cometer o crime de amar inconsequentemente, porém, como tudo nesta vida tem um preço e ultimamente a inflação resolveu aparecer, amar vem ficando um tanto quanto perigoso. Nos últimos anos, o número de casamentos deu um boom, mas me pergunto, com o tanto que tenho visto de traição e sacanagem fora do casamento, até que ponto esse boom é verdadeiramente coerente?

Eles escolheram um ao outo (a sociedade pedira assim), contraram o melhor promoter de festas de casamentos, não gastaram menos de quatro milhões de reais. Havaianas personalizadas (para os convidados dançarem a noite inteira) ok; show de abertura com banda local e uma atração sertaneja dessas que tocam a cada minuto nas rádios populares ok; a compra da capa das principais colunas sociais ok; caixas e mais caixas de Veuve Clicquot ok; lembrancinhas personalizadas para os 40 padrinhos (20 de cada lado) ok; as flores foram trazidas do Japão (vieram em caminhões especiais) ok; etc e tal ok também. Só se esqueceram do mais barato: olhar um no olho do outro buscando a certeza dos sentimentos lá no fundo da alma. Assim, se deram mal. Dois meses depois se separaram (tempo insuficiente para desgastar as imagens de casal feliz impressas nas Havaianas).

Quem tem garantia nos dias de hoje? No colorido dos filtros do Instagram, olhamos o outro de forma distorcida, quase sempre mais colorido do que ele realmente é. Assim, talvez chegue uma hora em que é preciso dizer ao outro que ele não terá mais direito sobre o que andamos sentindo. Os que têm coragem para pedir um impeachment sobrevivem, arranhados, mas sobrevivem. O problema são os que acham que governando o sentimento que não existe mais (muitas vezes nunca existiu propriamente dito) conseguirão se manter intactos. Eis que surgem os chamados marajás do amor inexistente.

Quem nunca ficou numa relação por comodismo? Eu já fiz isso e durante um ano e meio, mesmo sabendo que a coisa não daria em nada, fiquei ali alimentando sensações momentâneas de prazer. Sabe a hora certa de pular de uma relação? Quando olhamos pro lado desejando ser o alguém de outra pessoa. Sentir tesão olhando alguém bonito é normal, mas quando esse tesão ultrapassa mais de cinco segundos, cuidado, você estará propício a se tornar um traidor em potencial.

E assim, fui me tornando um traidor. Sem coragem pra bater a real, fiquei ali pensando em como transar com outras pessoas sem ser descoberto. E como o Satanás ajuda nessas horas e põe em nossas mãos celulares, computadores e aplicativos, não demorou muito e eu já tinha elaborado uma maquete completa da traição. Ato consumado, volto pra casa aliviado, mas com uma pontinha de tristeza: “Ah deve ser normal se sentir um lixo depois de trair, mas passará depois que eu tomar banho”. Não passou!

“A culpa só para quem é fraco”. Conheço toneladas de pessoas que pensam assim. Do mesmo jeito que conheço pessoas que se culparam tanto que passaram a viver acorrentadas a esse sentimento triste de comiseração, onde a traição matou o traidor sem ferir o traído (que jamais saberá que foi traído). O ser humano é essa loucura mesmo, não adianta!

Quando disse pra mim mesmo que não amava mais, me libertei, senti um alívio danado. A minha liberdade só não foi maior que a da outra pessoa. Quando libertamos o outro do nosso amor egoísta, damos a oportunidade dessa pessoa crescer tanto quanto nós, pois tiramos nossos sentimentos dos pés dela, fazendo-a mais leve. Quando se é adulto e racional, isto é algo mais simples de ser aceito. É preciso maturidade para compreender que um amor deve ser impedido (qualquer uma das duas partes tem esse poder de impedimento) quando começar a dar sinais de desgastes.

Não escrevo pra ditar nada, cada um sabe de si, mas depois de 36 anos neste corpo já consigo saber se o meu próximo passo será certeiro ou não. Independente da idade, o que noto em muitas pessoas é uma falta de coragem para expor as feridas do tal amor. Numa sociedade que peca pelos abusos, pela inconstância e pelo sexo rápido, fica a cada dia mais complicado saber o que é amor e o que é uma agonia chamada carência. Acho que viver de verdade é estudar cada sentimento, sentado com um papel em branco e um lápis, pesando prós e contras da relação. Só se é feliz sendo verdadeiro, e você tem sido verdadeiro com você?

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