“Invictus”

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Se achei tolo o filme “Avatar” de James Cameron, atual recorde de bilheteria e sério candidato ao Oscar da Academia de Cinema, eu empolguei-me com o enredo de “Invictus”, a história de Nelson Mandela, o Ex-Presidente da África do Sul, contada emotivamente por Clint Eastwood.

 

Na minha leitura de “Avatar” ficou apenas uma cachoeira de efeitos especiais, alguns incabíveis e impensáveis à luz da ciência, mas que na tela impressiona o espectador pelo colorido e sonoridade, sem falar das maravilhas da terceira dimensão.

 

Mas que adianta tal beleza de exibição se a estória é boba, simplória até, cheia de lugares comuns e expectativas previsíveis, numa ficção edulcorada de coexistência pacífica entre seres intercambiáveis comercialmente, todos presos às suas idiossincrasias e ignorâncias?

 

Pareceu-me, e o externei no artigo homônimo neste espaço publicado, que se procurou reprovar os moldes como o homem branco colonizou a América, enlameando-se toda uma história de luta de bravos e pioneiros que ousaram vencer a natureza inóspita, o nativo predador, e todos os perigos inerentes à sobrevivência num cenário sempre hostil.

 

Não gostei do “Avatar” nem o assistiria de novo, mas estou em minoria. O noticiário fala que, igual ao chavão de Lula, “nunca houve na história de nosso país” uma venda maior de ingressos de cinema, e o Diretor Cameron está enchendo as burras de dólares, só aqui em terras brasílicas, perdendo apenas para os comentários do Bigbrother da alienante rede Globo.

 

Mas o filme “Invictus” de Clint Eastwood pode ser considerado formidável; tanto na temática quanto na representação magnífica de Morgan Freeman que dá um show frente a outros trabalhos seus anteriores como “Conduzindo miss Daisy” (1989), “Um sonho de liberdade” (1994), “Amistad” (1997), “O todo poderoso” (2002), “A soma de todos os medos” (2002), “Menina de ouro” (2004), “Antes de partir” (2007) e tantos outros representando ternura, amargura e incompreensão, em tortura, com bravura ou submissão, fazendo rir ou chorar, sempre com destaque e premiação.

 

Agora como Nelson Mandela, ele o faz bem melhor que o próprio Mandela, desta vez não encantando apenas a África do Sul, mas o mundo todo.

 

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E o filme de Eastwood conquista o espectador do princípio ao fim, sobretudo porque consegue incutir na audiência uma simplicidade pueril de uma partida de rúgbi para a queda real do apartheid, a intolerante política segregacionista vigente na República da África do Sul por quase todo o século que passou.

 

Para os que acompanham a história República Sul-Africana, sabe-se que Nelson Mandela foi o primeiro negro a assumir a sua presidência, como vencedor de eleições livres. Antes dele vigia um país comandado por uma minoria branca, oriunda da colonização britânica, flamenga, alemã e holandesa, “os bôers”, que haviam tentado a independência da nação numa guerra sangrenta contra o domínio inglês.

 

Sendo uma região muito rica em ouro e diamante, além de possuir recursos naturais, solo fértil e ampla costa marinha, esta parte mais meridional da África despertou a atenção de diversos povos, estrategicamente, sobretudo.

 

A princípio foram os portugueses, Diogo Cão e Bartolomeu Bueno, antes que Cabral e Caminha descobrissem o Brasil.

 

Depois foram os holandeses com a sua Companhia das Índias Orientais, fundando a cidade do Cabo em 1652.

 

Nesse tempo os batavos sofriam o insucesso da sua outra companhia, a das Índias Ocidentais, quando das incursões na Bahia (1624), e em Pernambuco (1630-1654) com Maurício de Nassau.

 

Se o povo de Nassau teve melhor sorte naquelas baixas latitudes africanas, a grã soberania da marinha britânica terminou lhe conquistando o território, fragmentando-o em várias administrações firmemente controladas.

 

Com a descoberta no final do século XIX de um veio diamantífero fantástico no Transvaal, rebenta uma longa guerra entre as chamadas repúblicas Bôeres de Natal, Transvaal e Orange, e com ela a derrota dos afrikaners, assim chamados habitantes de ascendência variada (holandesa, flamenga, alemã, e francesa).

 

Posteriormente a Inglaterra formaria sob o seu controle a União Sul Africana (1910), reunindo as províncias do Cabo, o Estado Livre de Orange, o Natal e o Transvaal, ou o território além do Rio Vaal.

 

A reunião desses estados como União Sul Africana com capital em Pretória constituirá a futura República Sul Africana (1960) que se caracterizou por um regime profundamente segregacionista.

 

Na verdade a independência como nação se fez por recusa às ações da Inglaterra contra esta segregação racial. A república é proclamada, a Rainha Elizabeth II perde o status de Chefe de Estado, substituída por um Presidente, e eis um regime sem nenhum caráter republicano, profundamente fraturado por enorme divergência racial: De um lado os Afrikaners, de outro os mal assimilados descendentes dos ingleses, todos ilhados por uma vasta maioria de negros, cerca de 2/3 da população.

 

Pelas políticas separatistas, tal vasta maioria negra só era proprietária de 7,5% da terra, os brancos detinham os 92,5% restantes, e os mestiços não tinham direito a nada.

 

Também eram proibidos os casamentos que gerassem mestiços e as relações sexuais inter-raciais eram punidas como crime. E até a frequência aos locais públicos como banheiros, restaurantes, templos ou estádios prescindia lugares distintos e separados

 

Afora isso existiam os chamados Bantustões ou Homelands, regiões habitadas por negros considerados desprovidos de qualquer cidadania Sul-Africana, isto é, havia negros bem mais degradados que outros.

 

É neste contexto que nasce Nelson Mandela. Ele será o grande líder do partido CNA, Congresso Nacional Africano, e se tornará o símbolo sobrevivente da luta antiapartheid.  

 

Na verdade a luta antiapartheid tomou força a partir da década de 1960, quando nos Estados Unidos da América políticas anti-segregacionista foram tomadas pelo governo Kennedy e seus seguidores.

 

Neste tempo o jovem Nelson Mandela foi considerado terrorista, comandante do braço armado do CNA, conhecido como “Lança da Nação”, sendo condenado e encarcerado por quase três décadas.

 

A princípio, em 1962, sua condenação fora por cinco anos, por uma viagem ao exterior não autorizada. Depois, em 1964, acusado de incursões terroristas, sofre uma nova condenação, desta vez a prisão perpétua, escapando da pena capital, ficando na prisão por vinte e seis anos, tempo em que se firmou como símbolo da resistência antiapartheid.

 

Após sucessivas restrições econômicas mundiais, o governo do Presidente Frederik de Klerk retira da ilegalidade o CNA e manda libertar Mandela.

 

O filme de Eastwood começa no dia 11 de fevereiro de 1990, dia da libertação de Nelson Mandela.

 

A cena inicial descreve a paisagem sintomática de apreensão do momento. Vê-se uma estrada empoeirada separando dois campos esportivos. De um lado instalações confortáveis mostram o treino da seleção sul-africana de rúgbi, composta exclusivamente de brancos de porte agigantado por bem nutridos. Do outro lado, um campo árido de várzea onde alguns negrinhos esqueléticos jogam uma pelada de futebol.

 

O rúgbi é o esporte preferido dos brancos, enquanto os negros, por explícita repulsa racista, preferem o futebol.

 

Os brancos bem nutridos desmerecem os negrinhos por desprezíveis: “O rúgbi é um esporte bárbaro, praticado por cavalheiros. O futebol é um jogo de cavalheiros, praticado por bárbaros”.

 

De repente, eis que surge um automóvel tosco e solitário. No seu interior viaja Nelson Mandela, recém liberto de um cativeiro de 26 anos. Os negrinhos abandonam o jogo e gritam em torcida fanática: Mandela! Mandela! Mandela! Os brancos interrogativos prenunciam uma tempestade preocupante que se ensaia.

 

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O filme de Clint Eastwood é baseado no livro “Conquistando o Inimigo” (Playing the Enemy) do escritor John Carlin, contando a vida de Nelson Mandela, seus anos de cárcere e suas artimanhas para conquistar seu principal “inimigo”, pacificando ódios e desejos de vingança, conquistando a confiança de oponentes e ampliando o universo de aliados para a sua multirracial república.

 

No filme o enfoque é concentrado no esporte como fator de união de um povo, um mote inocente, no contexto complexo da política local e internacional.

 

No contexto internacional as barreiras impostas à África do Sul pelos excessos de política segregacionista são removidas, entre elas o banimento das disputas mundiais de rúgbi, o esporte tradicional dos brancos sul-africanos.

 

E é dentro da perspectiva de sediar a copa do mundo de 1995 que o Presidente Mandela, empossado em 1994 concebe a idéia de “um povo, um time”, como fator de integração nacional.

 

Como fazer os de pele negra se apaixonarem pelo rúgbi, um esporte só jogado por brancos? Como fazê-lo se os negros preferiam torcer pelos adversários nos jogos internacionais, vaiando a própria pátria?

 

Como conter os adeptos da nova ordem que defendem uma mudança geral, com a alteração do nome do time, os “Springboks”, inclusive, com mudança das suas cores na camisa e na bandeira, verde e ouro, de tradição segregacionista?

 

Mandela Freeman sabiamente contorna tudo isso. O time permanece o mesmo sem mudança. É preciso que todos o amem. Que a seleção visite as favelas para ensinar o rúgbi aos meninos negros.

 

E a resposta é um canto de alegria e ternura entre os jogadores alvos e a meninada se abraçando e sorrindo.

 

O presidente não pensa mais em nada, só na copa a ser vencida, como um fato inédito, força propulsora de unidade da nação.

 

No filme, Mandela (Morgan Freeman) faz amizade com o capitão do time François Pienaar, interpretado por Matt Damon (o imorrível e invulnerável herói da trilogia Bourne), convencendo-o a lutar pela vitória impossível.

 

O rúgbi é um esporte terrível, violentíssimo. Seus atletas são gigantes pesadíssimos, verdadeiras fortalezas vivas. O próprio Pienaar tinha 1,91 de altura e pesava 108 kg, um físico incompatível com o de Damon que é menor e mais franzino, embora tenha vivido o indestrutível Bourne.

 

Mas o filme não é a narração de um jogo de rúgbi, muito menos a história de Nelson Mandela. Clint Eastwood nos conta uma estória sobre a possibilidade de convivência fraterna na diferença de raças e nas distorções sociais. Um convite à tolerância e à solidariedade entre os homens, temas que emocionam sobremodo qualquer platéia.

 

No enredo, há muitos momentos de destaque: A difícil convivência entre os guarda-costas multirraciais do Presidente Mandela, todos brutais e eficientes. O desprezo e o nojo dos brancos contra os negros. As intolerâncias e incompreensões de parte a outra. A temível dança maori da seleção da Nova Zelândia, enfim, toda alegria final de “uma pátria em chuteiras”, como diria o nosso Nelson Rodrigues. E até Nelson Mandela fardado como um reserva do time.

 

Como mote final é utilizado um poema escrito em 1875 pelo poeta William Ernest Henley (1849-1903), quando este aguardava num leito hospitalar a amputação de uma perna gangrenada por tuberculose.

 

Este poema recebeu o título de Invictus, do latim, jamais vencido, ou invicto, dado por Arthur Quiller-Couch em 1900 e fora o preferido por Mandela na prisão. No filme e no livro o poema serve de mote da vitória da seleção de rúgbi

 

Segue o seu texto em inglês, rimado e metrificado:

 

Invictus

 

Out of the night that covers me,

Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be

For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance

I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance

My head is bloody, but unbow”d.

Beyond this place of wrath and tears

Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years

Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,

How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:

I am the captain of my soul.

 

No filme, o poema parece surgir da lavra do próprio Mandela, ou melhor, de Morgan Freeman.

 

Ouso recriá-lo livremente.

 

Invictus

 

Na noite que me envolve

Nas trevas que me encerram

Eu louvo os deuses que me deram

Uma alma nobre, resoluta, indomável.

 

Prisioneiro de minha circunstância

Eu não gemi, não gritei, nem lastimei.

Sob os golpes e a dor do infortúnio

Meu espírito sangra, mas não dobra.

 

Neste lugar de opróbio e lágrima

Eu não vejo senão horror e sombra

Os anos em prenúncios sombrios

Não me farão submeter ao medo

 

Pouco importa na estreiteza do caminho

Que me castiguem o pergaminho e sua clava

Eu sou o mestre de meu destino.

Eu sou o capitão de minh’alma.

 

O filme Invictus é um espetáculo notável e imperdível. 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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