Isabela, o tarado austríaco e outras misérias.

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Um mês se passou e o único assunto do noticiário foi a queda da garota Isabela Nardone, precipitada do sexto andar de um edifício em São Paulo.

O que teria acontecido? Seria um acidente? Um assassinato? Espantam-se todos diante do cruento mistério que suscita interpretações, justificativas e condenações.

Após sucessivos erros e omissões no processo de investigação, vê-se que a polícia, muito afeita ao estardalhaço e ao escândalo, já ensejou conclusões insofismáveis em adição ao requisitado pela multidão enfurecida, que em maioria já pronunciou a culpabilidade de Alexandre Nardone, o pai, e Ana Carolina Jatobá, a madrasta, como assassinos da criança sorridente, despencada como trapo, rejeitado e jogado fora, da inocência e da vida.

 

Um laudo pericial nebuloso.

 

E o que seria um laudo inconteste, ao falar de vestígios de vômitos e de sangue não tão comprovados, irá inserir dúvidas, discrepâncias e divergências, quando o corpo de jurados estiver a dirimir por derradeiro, o final de todo o drama.

À polícia técnica restou um rastro de incompetência, confirmado por todo arsenal instrumental de análise e perícia, por um erro fundamental e rasteiro. Como não se pensar em logo isolar e lacrar a cena do crime ou do presumido acidente, para evitar que os vestígios fossem apagados e distorcidos? Como pensar que um laudo técnico feito apenas em vestígios e traços mascarados, possa ter um condão da absoluta credibilidade? Como achar que máquinas e equipamentos propagados como infalíveis, sejam realmente confiáveis? Como explicar as freqüentes deficiências de pessoal qualificado e técnico, repentinamente desaparecidas, contrastando com divergências de peritos, açodamento de respostas, sem discutir também, por absoluta comprovação de outros fatos já vistos, a respeito de manipulação de laudos, quando há muitos interesses em solucionar uma histeria coletiva?

 

DNAs manipulados.

 

Neste particular, pode-se inserir, por fumaça, nevoeiro ou bruma de mistério, aquilo que o nosso noticiário local, num dia passado e bem recente, denunciava a fraude de uma laboratorista que estaria a manipular exames de DNA de paternidade. Que terrível! A tecnologia, que deveria ser irrefutável, era distorcida pela desonestidade e descortesia com que um profissional especialista tratava toda a ciência.

Assim colocado, este desprezo com a ciência e com a busca da verdade, divergências se prestam a insinuar dúvidas, tudo embaralhar e confundir, impedindo o desvendar do crime, e suscitando sua própria impunidade.

 

Pais temíveis, desde a Bíblia.

 

Mas, ao se confirmar como verdadeiro o assassinato da pequena Isabela pelos seus pais, estaremos mais uma vez a contemplar uma realidade inumana da vida.

É verdade! Há pais que matam filhos, sim!

E esta coisa terrível é mais comum do que possa conceber a nossa vã filosofia.

A própria Bíblia conta fatos terríveis de Abraão enquanto pai, porque primeiro baniu a Ismael, um seu filho ainda menor deserto afora, para morrer de fome e de sede, e depois porque tentara matar o filho Isaac, sangrando-o na faca, como era comum na sua redondeza. Tudo isso, sem pena, sem dó e sem piedade, como se diz por aqui, embora muita gente ainda hoje o louve como homem de muita fé.

E eu que não tenho tanta fé, tenho também muito medo desses homens de muita fé e que afirmam papear com Deus, por um canal próprio e particular.

 

Deus saneou todo o mal.

 

Felizmente, porém, a estória teve um bom desfecho com o próprio Deus descendo dos céus por duas vezes para consertar os erros de Abraão.

Na primeira, saciou e salvou da morte a Ismael. Na segunda, passou um carão tão grande em Abraão, que Isaac foi logo substituído no holocausto por uma ovelha expiatória. E assim, lê-se também na Bíblia, que estes dois únicos filhos sobrevividos, contemplaram a face de seu pai terrível, que não se fizera um homicida, um infanticida e um filicida duplo, por absoluto desejo e vontade de Deus, que naquele tempo descera dos céus para lhe curar do erro que o tornaria um monstro, em sua insana fé, digna de todos os manicômios e presídios. 

Insano sempre presente e lastimável no proceder humano, uma vez que nas crenças primevas do ser, aqui nos nossos índios, ali nos povos de todas as raças, e acolá, no mais longe e mais distante, nos deuses e semideuses gregos, evidenciamos parricídios, infanticídios, filicídios e muitas taras, sempre iguais.

 

Os deuses do Olimpo tinham também suas misérias.

 

Igual ao pai de Zeus, que se chamava Cronos e se notabilizou porque castrara o próprio pai Urano, mas que adquiriu o péssimo costume de deglutir os próprios filhos recém-nascidos, por temê-los em sucessão. E Zeus só escapou vivo da garganta do pai, porque sua mãe Rea, cansada de ver o marido engravidar a si e a outras para depois devorar a própria prole, conseguiu engana-lo, iludindo-o com uma pedra envolvida em fraldas que foi engolida pelo glutão. Ora, esta estória helênica, mágica e primitiva, como sói real dos sonhos e desejos humanos, fez de Zeus o grande deus dos gregos. Para isso, primeiro o jovem Zeus conseguiu dar uma beberagem ao pai Cronos, que vomitou todos os filhos engolidos até então. Depois se aliou a estes irmãos regurgitados, derrotando o pai e o enclausurando eternamente.

 

Pais cruéis e pouco amorosos.

 

Vê-se, portanto, desde os primórdios aurorais do tempo, no mito e na realidade, que razões e interesses vários suscitarão os crimes e disputas para sempre, inclusive entre pais e filhos, aí inseridos amores e ciúmes, ódios terríveis em desfechos de maldade.

Sem falar também dos pais que se querem algozes dos filhos pela severidade na educação e do uso excessivo do espancamento como mecanismo de submissão e obediência. Neste particular lembro de um colega, que em criança chegara a apanhar de fios elétricos e ser acorrentado por castigo.

Felizmente, tais condutas hoje são apenadas nos códigos destinados à infância e à adolescência. Porque de um espancamento maior de um pai ou mãe enfurecidos, de um padrasto ou madrasta de pouco amor, ou de um parente próximo eivado de muito rancor, pode-se produzir a lesão mental e física irrecuperável, ou até a morte, como parece ter sido o caso do tresloucado assassinato da menina Isabela por seus pais.

 

O tarado da Áustria.

 

Mas, em soma a toda esta monstruosidade deletéria, chega-nos da Áustria este caso alarmante de incesto nada compatível com os enleios de Mozart, as suavidade de Schubert e os perfumosos volteios de Strauss.

Josef Fritzl, um tarado austríaco de 73 anos, manteve sua filha Elisabeth Fritzl enclausurada num porão sem janelas por 24 anos, estuprando-a e engravidando-a sucessivamente, para “afasta-la do perigo da drogas”.

Dito deste modo puro, simples e bem intencionado, esta droga de pai, parece estar a proteger sua prole, como assim deveria ter sido a sua missão. No entanto, o fato inusitado por espanto, deixa-nos a todos perdidos, quanto aos limites do humano proceder.

 

A vergonha de Édipo e a loucura das filhas de Lot.

 

Espantoso como o caso de Isabela, por miserável e monstruoso. Igual ao que se pode ver também em outros mitos e tragédias como as de Sófocles, em que Édipo sem o saber mata a Laio que é seu pai e a quem não conhecia, e engravida a Jocasta que é sua mãe, e lhe é também desconhecida, só para se cumprir as previsões dos deuses. E é um Édipo enfurecido que desvendando tudo, fura os próprios olhos para não mais contemplar a sua obra tão terrível executada. Diferente de Josef Fritzl que não se crê um pesadelo e se acha um excelente pai.

Pesadelo e tragédia como o das filhas de Lot, o único “justo” salvo de Sodoma e Gomorra, embebedando o próprio pai com uma beberagem afrodisíaca, para dele serem amantes, e dele conceberem a Moab e Bel-Ami, os ancestrais dos moabitas e dos amonitas.

Com efeito, se Édipo não se quisera manchado em crimes, também Lot não fora um bruto, um perdido, um tresloucado como o austríaco do noticiário.

 

O crime involuntário e o loucamente desejado.

 

Ora, se a insensatez de Édipo fora involuntária por não saber quem era seu pai e sua mãe, no caso de Lot, a loucura vinha das suas filhas, que em cio desvairado e irreprimível o queriam como um amante embrutecido a lhes descabaçar, descabeçadamente, para sempre.

As filhas de Lot lascivamente o transformaram no homem jegue que não reconhece filhas, mães ou irmãs, igual a um centauro grego, supremo desejo de ninfas e vestais.

 

E o mundo continua.

 

E assim eis o mundo a se repetir. Aqui, ali, acolá, nesta sociedade global de muitas misérias e sofrimentos.

Felizmente os parricídios, os infanticídios, os filicídios e os incestos são raros e enojam em demasia.

Resta-nos lamentar esta pequenez inerente ao próprio ser, e chorar com os que sofrem. Porque o ser humano não é posto no mundo para ser infeliz. E fazer a felicidade do outro deveria ser a única meta comum, e de todos sem exceção, sobretudo, de pais, de mães e de filhos.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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