Jesus X Papai Noel?

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A proximidade do Natal é motivo para diversas manifestações, uns a favor da alegria, outros nem tanto. Alguns arranjam frustrações e insatisfações para combater o riso, porque o sorriso, longe de representar uma unanimidade por desejo, incomoda sobremodo a muita gente.

 

Alguns, por incômodo pouco crível, gostariam que melhor fosse dar ao espírito do Natal um holocausto quaresmal, sem presentes, excesso de sons dolentes numa ceia bem frugal; um Natal de jejuns e penitências, com os templos repletos ouvindo pastores combatendo as orgias do Demo, maldizendo o gozo e deblaterando contra o consumo.

 

Sim. Porque para muitos pregadores, o homem deve se abster da fortuna presente, por voraz e passageira, e perseguir por missão cumeeira e única, o sofrimento e a comiseração, para conquistar uma felicidade nada fugaz, nem tão longínqua, quanto mais real e verdadeira, esquecendo que tal promessa ressoa distante e frustrante, algo sobejamente difícil, e totalmente físsil, por pouco provável e irrealizável à lúcida razão.

 

Porque a razão não pode se basear em suposições e concepções, mesmo que venham de doutos ou iluminados. Os doutos e iluminados são perigosos, em demasia. Os doutos acreditam sobremodo no próprio eco. E o eco é ilusório.

 

Ele, o eco, enseja o medo, despertando insatisfações e frustrações nos ouvidos moucos dos homens roucos que o escutam e temem como a uma incógnita que questiona, ameaça e condena.

 

Já os iluminados, estes se consideram ungidos e jungidos para ditar comportamentos, refazer o mundo à sua forma e semelhança. E o mundo sempre resta pior quando sua passagem se faz sem ternura e boa vontade.

 

E Jesus veio para pregar aos homens de boa vontade. “Meu reino não è deste mundo”.

 

“Que os homens se amem uns aos outros”. Eis o novo Mandamento. Um Mandamento que nada nega a ninguém, nem lhe enseja pena ou prêmio, seja por cor, credo, penitência ou valor.

 

E os doutos e mal iluminados teimam em condenar e punir até mesmo uma ceia e um presente de Natal, ensejando o medo ditando-se como autoridade sem dúvidas ou erros, em sobeja excedência de certezas absolutas.

 

E os que exibem tais certezas absolutas são eminentemente perigosos, calamitosos, inclusive, porque não aclaram, nem acalmam os espíritos, mas impõem a dominação e a imposição tolhendo os anseios de luz e liberdade.

 

Que o diga a história humana em seus descaminhos, sempre abençoada pela intolerância aspergindo mais sofrimento e penitência, que indulgência e bom alento.

 

Mas o Natal é um tempo para falar da alegria do viver. Falar do nascimento de uma criança, igual a toda criança que renova e pereniza a sucessão da humanidade.

 

E um Deus-Homem, um Deus-Irmão, um Deus-Amigo renasce em esperança para aclarar caminhos.

 

Um Deus, que sofre e chora para respirar a herança mortal dos homens, todos os homens, dos saciados de tudo aos só bem providos do nada. Ambos possuindo tudo, afinal a vida é o nosso bem maior.

 

E este Deus que sofre, que chora e que ri, vem consertar também a didática Paterna, ainda bem mal digerida e pouco entendida pelos homens mal criados.

 

Entendimento mal aprendido por alguns homens, que por nascença ou privativa credença, crêem-se santificados e remidos perante os outros, sejam estes pagãos ou gentios, infiéis a merecer o cutelo, a fogueira e a chibata, por revéis, ou heréticos, expurgados e malditos em danações terrenas e eternas.

 

E é justamente este destrambelhamento de pregação raivosa que se incompatibiliza com o Menino frágil na manjedoura. Querem assassiná-lo no berço, desfocando-lhe a aura de cor e brilho, tornando-a uma haura de horror em estribilho, ressoando a velha intolerância, do humano desumano.

 

Porque os doutos e os pregadores têm a sua maneira exclusiva de humanizar o homem com suas certezas absolutas. E estes espíritos deletérios e maldosos, por farsa ou insanidade, não fertilizam a dúvida, esta sim a ensejar a humildade tão requerida nas festas de Natal.

 

Ela, a duvida, é que nos dá a certeza de que os homens são iguais. E frágeis. E imperfeitos.

 

E se não o são, porque alguns se julgam mais iguais, que seja desfeita a desfeita. Que os homens se aceitem uns aos outros, senão no amor, no querer bem, por impossível, que os homens se acolham em dignidade e tratamento.

 

Este deve ser o espírito do Natal; uma festa de louvação à vida.

 

E a vida é, sobremodo, alegria. Não é comiseração e sofrimento.

 

O sofrimento é a contingência do viver, e a comiseração deve ser banida pela solidariedade. Esta uma pregação da modernidade em demanda da boa convivência entre os homens; todos os homens.

 

Mas, se não há aceitação dessa premissa, por epicurista e permissiva por demais, em gastronomias de orgias e de consumos, lembremos que a festança de Natal em sua origem sempre fora um festejo de louvação à vida.

 

Uma festa de origem profana, inclusive. Uma louvação pagã dos hemisférios frios, para louvar a renovação da vida diante do solstício de inverno, este fenômeno carinhoso do Sol, que vai e volta, todos os anos sem exceção, com a sucessão das estações climáticas do plantio, do florescer e da colheita, movimento sem o qual não há vida, nem vida humana renovada.

 

Porque nós, antes de qualquer coisa, somos filhos da Terra e do Sol, e também da Lua, e as nossas insatisfações e imperfeições derivam da sua contemplação e dependência, que nos acena para a finitude de nossa vida e nosso tempo, diante da infinitude aparente do tempo do Sol e da Lua em seus movimentos intermináveis.

 

Somos tão filhos do Sol e da Terra que se nos faltassem seus raios fertilizando o solo, nada nos susteria, nem haveria a vida, como a conhecemos, ditada pelo ciclo do carbono, do oxigênio e da água.

 

Sem o Sol toda ciência e história humanas se desfariam, como poeira sem luz e sem brilho. Sobraria a escuridão das estrelas em noite eterna, uma completa estagnação, sem ventos, sem marés e sem sonhos.

 

E é este drama verdadeiro que os homens das latitudes frias contemplam com o Sol e solstício.

 

Porque nós, das latitudes equatoriais, temos os dias quase iguais. Equinócio ou solstícios passam-nos despercebidos.

 

Hoje por exemplo (23 de dezembro) é o nosso dia mais longo, com as horas ensolaradas superando ao máximo aquelas de pouca luz. Mas ninguém nota quase nada.

 

No inverno ou no verão os dias se nos apresentam quase iguais. E até os arquitetos, no afã de seus traçados, esquecem o Sol e a sua eclíptica, concebendo moradias terríveis, absolutamente ensolaradas no verão, porque teimam em aplicar os conceitos de estética em mera reflexão de simetria de espelho, sem lembrar que na planta e na prancheta as imagens podem parecer biunívocas e isomórficas, mas o são sem equívocos; anisomórficas.

 

Isto é: as edificações não se permitem superpor. Se tomarmos um apartamento voltado para o Sul na nossa cidade, o imóvel receberá insolação em demasia por todo dia no verão, razão a necessitar uma planificação diferente do seu irmão geminado, o apartamento do outro lado, o virado para o lado Norte, que só será ensolarado no inverno, um conforto maior para os dias frios.

 

Se for o caso de um conjunto de quatro apartamentos por andar, a insolação será pior se contemplar todo o poente. Mas como não há em muita arquitetura a preocupação com a praticidade submetendo a estética, há o apartamento do lado quente e o do lado frio, com preços distintos para superar o desvio e o desconforto.

 

Mas, voltando ao Natal e ao solstício de inverno, nas latitudes germânicas e nas nórdicas, sobretudo, o Sol parece querer desaparecer, “caindo para baixo” no firmamento, ensejando o medo e a escuridão de noites crescentes e dias encurtados; coisas do céu, do Sol e da curvatura terrena.

 

Há alguns lugares, como na Lapônia, por exemplo, em que nos invernos há completa ausência de luz e também não há noite no verão. A Lapônia está no extremo da Escandinávia, em demanda ao Pólo Norte.

 

Mas o mesmo pode se ver acima de Anchorage no Alaska, com os esquimós no Canadá ou na Groenlândia; ou invertidamente, aqui no Sul, abaixo de Puntarenas no Chile ou em Ushuaia na Argentina.

 

E nós que tememos qualquer apagão energético tornando mais escuras as nossas noites; o que diríamos se tudo isso estivesse acontecendo, em meio a um frio regelante, em plena escuridão invernal?

 

Daí a grande festa do solstício dezembral; o Sol que parecia estar a desaparecer, “caíra” ao máximo e começa a ressurgir. Eis que ele passa a se erguer renovado, aquecendo e fertilizando a terra e a vida, prometendo um ano repleno de benesses.

 

Pois bem, esta festa nórdica de “renascimento do Sol”, estendida a germânicos, helvéticos e gauleses foi encampada em nova pregação pela patrística que cristianizou aquela região.

 

Longe de demolir tal tradição, Jesus passa a ser um novo Sol desconhecido, destinado a fazer renascer a “verdadeira” vida nos homens.

 

E a palavra verdadeira tem que vir entre aspas porque estranhamente ainda, nem toda vida parece ser uma vida verdadeira.

 

E há os que propagam ser tal vida “verdadeira” incompatível com a nossa alegria do Natal. E até com Papai Noel, uma invenção de um bispo santo que assim se fantasiava em barbas de algodão e casaco encarnado só para dar presentes à criançada.

 

Mas, isto não é novidade. Há muita crítica ao velhinho que alegra a meninada, alguns o vendo em trejeitos de boiola, inclusive!.

 

– Papai Noel é um bicho feio! É esta a conclusão de meu neto, que aos dois anos de idade, está detestando uma arrumação luminosa com o velhinho barbudo. De nada adiantou dizermos que Papai Noel é bom e dá presente.

 

Mas há os que detestam Papai Noel por uma frustração qualquer, de pretérito ou de presente. Há os que odeiam dar presentes. Acham que o Natal deveria ser diferente; sem presentes.

 

Mas a troca de presentes é uma coisa tão alegre e tão agradável, que até por isso o nascimento do menino é o nosso maior presente. Um presente que não exclui os outros, no abraço e no afago do bem querer e do louvar o continuar a viver.

 

Porque o mundo do amanhã será sempre melhor do que o de hoje e o que passou, se não alimentarmos traumas de obscurantismos e prejulgamentos.

 

Porque a vida sempre será bela e sempre valerá a pena vive-la. E é gratificante poder sobreviver na vida dos outros se fazendo Papai Noel em doação e alegria, sempre louvando Jesus, o Deus-Menino para reacender a chama da esperança no coração dos homens.

 

Porque sem Jesus não haveria Santa Claus, nem Papai Noel.

 

Por que então coloca-los numa luta que os anula em intolerância jamais esboçada?

 

Não nos tirem a alegria desta festa, sobremodo humana, em pureza de canto e de mensagens, louvando a vida, acima de tudo.

 

Que a mesa seja farta em todos os lares! Que se coma bem e se ria bastante.

 

Que na impossibilidade de mesas fartas para todos, que não haja parcimônia de carinhos, nem ausências de abraços.

 

São estas coisas que embelecem e satisfazem a vida como dom de Deus, jamais as pregações que destacam a maldade da imperfeição humana.

 

Nasceu-nos um menino. Ele é tão pequenino e frágil e veio para amparar os que caem; os pecadores… Amparemo-lo em nossos trapos com afagos de carinho. É a vida que se renova na vida.

 

E a vida precisa ser bonita. Porque é da natureza e do colorido da vida que esta se faça bonita. E o resto é papo que desfigura o Natal, e a vida.

 

O Natal, a festa de Natal, os símbolos do Natal, do pinheiro a Santa Claus, passando pelos presentes e as bolas de luz e de cristal, tudo é criação humana. É apenas uma resposta do livre acolher humano, tentando animar a humanidade inteira a construir um mundo novo em que germine a verdadeira esperança dos homens de boa vontade.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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