João

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– E João, quedê?

– No rio, banhando…

Ele sempre tava no rio, sempre escondido da labuta, da vida de verdade. Mas esse era otro tempo, memória é lama no fundo do poço, grudenta, difícil de alcançar e de se livrar dela. Agora nem adianta mais buscar João em lugar nenhum que ele não tá. É só eu e o trabalho todo, a roça toda, o mundo todo e eu. O rio agora tá lá sozinho, as rede aqui juntando poeira e mofo que ninguém usa mais. Antes ia eu e João pescar, dia inteiro de canoa no rio e só o vento fazendo barulho por ali. Nós dois calado, mas não era por desentendimento, era porque nem precisava falar as coisa, só olhava de ressaibo e ele já entendia que era hora de puxar rede, jogar rede,  remar pra lá, pra cá.

Madalena em casa esperando, sentada na porta, almofada de bilro entre as perna, bordando a vida toda, as toalha, as peça de renda pra vender pra madame, bordando um fio branquinho que ela mesma tecia, uns dedos rápido mexendo nos badulaquezinho que segura a linha. Pra lá e pra cá, cada desenho mais confuso que outro, mas não é confuso ruim não, é confuso bom, vistoso. É umas coisa que eu lembro e outras que eu deslembro. João ainda menino brincando na poeira do terreiro de casa, Madalena na porta reparando ele e eu… Eu não sei onde era que eu tava, tava vendo eles dois, vendo a casa, o terreiro todo. Capaz que eu tava no curral, tangendo boi, tirando bosta pra fazer adubo.

O dia que levamo João pra benzer, Madalena assustada que o menino tinha passado já de sete anos, quase chegando nos oito e ainda não ido de volta na parteira que segurou ele pra receber a bênção. Diz que a pessoa pode até morrer, estuporar duma hora pra otra, se não receber a bênção no tempo certo, e tem que ser da parteira mesma, a que segurou o menino, não pode ser uma qualquer benzedeira, não.

– Cê num acha que a gente devia de ir na feira pra comprar umas coisa pra janta de quando ele chegar?

– Pois, bestage… João tem essas liotria não, come do que sempre comeu aqui em casa.

– Mas é que agora capaz dele tá mudado, né, não?!

– Mas a gente não tá.

A casa, a casa mesma tava um pouco mudada, pra dizer o certo. Os caibro eu troquei depois que deu aquela ventania que arribou umas telha e desmantelou tudo. João nem sei por onde andava esse dia. Já tava era longe, vivendo otras coisa que ele talvez nem lembre mais. Como vou eu lá dizer a ele que dia foi esse? O dia do vento que arribou as telha. Madalena entende se eu disser assim, mas ele não. Ele já não entende mais os dia da gente aqui. O dia que a porca maior pariu, o dia da trovoada, o dia que comade Zefinha de Mané Pedro morreu, o dia da chuva grande que virou rio as roça, tinha peixe passando aqui na porta de casa levado pelo aguaceiro. Mas ele não conhece nenhum desses dias.

Madalena parece que nem reparou nisso, passou foi ano fazendo uma toalha desse tamanhão que ela já estendeu lá na mesa da sala. Eu mesmo que fiz, madeira da boa, derrubei na mata mais uns cabra que trabalham na roça ali vizinha, chamei eles e Madalena fez o almoço e a gente bebeu um barrilzinho de cachaça. João meninote, os olho abodegado encima de mim enquanto eu media e serrava e alisava a madeira. Ficou forte, bonita, lisinha, aguenta muita vida ainda essa mesa.

– Se você fizer cuscuz com ovo, Madalena, e leite de nossas vaca… Aposto que tem é ano que ele não come isso, deve de sentir falta dessas comida nossa.

– E será? Penso que ele já se acostumou foi com outras coisa por lá. Mas todo penso é torto, né?!

– Lá isso é…

Minhas conversa com Madalena sempre foram arrevesada assim, mas a gente sempre se entende, às vezes nem fala, só aponta, vê com os olho, topa nas coisa e vai se entendendo sem dizer ou dizendo as palavra de nosso entender. Mas quando é de tratar de João, aí parece que a gente desentende, parece que fica faltando. Não se basta só de olhar, de apontar, de sentar na porta pra bordar, tanger os bois, enchiqueirar os bicho, fazer um chá de milome, pra falar dele precisa de muita coisa que eu não sei como é, como diz, na onde é que guarda depois que usa. João das vezes escapa pelos dedos da gente que nem fosse água e eu fico só reparando sem saber como fazer, porque, no fim e ao final, ele é nosso filho. Mesmo assim tão longe, tão estudado, tão cheio dos palavreado que cabe nos livro. Parece que eu me esqueço dele, das feição e da voz, é porque eu não sei falar as palavra que ele usa.

– Madalena, repare, mia fia, a gente é só isso mesmo. Um dia ele se acostuma…

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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