JORGE AMADO UM BAIANO UNIVERSAL

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Jorge Amado é o autor brasileiro mais traduzido. Ele circula em francês e lituano, em italiano e norueguês, em alemão e islandês, em grego e finlandês. Sua universalidade é um fato. E a sua brasilidade é poderosa. As raízes de Jorge Amado estão aqui, no Brasil, na Bahia. Nesta entrevista, concedida com exclusividade em agosto de 1993, Jorge Amado se mostra inteiramente na sua autenticidade vigorosa, com o mistério de um baiano romântico. No ano em que comemoramos o centenário de Jorge Amado retirei do baú as lembranças de um delicioso bate papo em sua casa na Bahia.

ANDRÉ PESTANA: Você publicou O País do Carnaval há sessenta anos. Como é que V. vê hoje essa estréia? E o prefácio de Augusto Frederico Schmidt?

JORGE AMADO: O País do Carnaval, escrito quando eu tinha 18 anos, publicado um ano depois, é o primeiro caderno de um aprendiz de romancista. É um livro influenciado pelos modismos da literatura européia da época. S6 é válido neste romance o que têm de brasileiro certas figuras e certas situações. Tudo mais é pastiche do que se fazia então na Europa (hoje, infelizmente vários escritores brasileiros, inclusive alguns saudados com entusiasmos pela crítica, são simples pastiches de escritores europeus atuais). Sinto-me satisfeito de constatar que em 1932, dois anos após ter escrito O País do Carnaval, escrevi Cacau, que é um livro cem por cento brasileiro. Sobre o prefácio de Schmidt: creio que Schmidt jamais se deu ao trabalho de ler O País do Carnaval, no que fez muito bem. O livro exprimia as tensões ideológicas, as lutas ideológicas entre a direita e a esquerda, as hesitações e perplexidades de um jovem.

ANDRÉ PESTANA: A 8 de julho de 1991, Você completou quarenta e seis anos de casado com Zélia. Que é Zélia para V? A mulher e a escritora.

JORGE AMADO: Zélia é tudo para mim. O sucesso, que ela tem obtido como escritora, me dá uma imensa alegria. Hoje, depois de quarenta e seis anos de vida em comum, ainda não enjoamos um do outro. Bem ao contrário. Considero-me um privilegiado por ser casado com Zélia. Unia presença compreensiva, estimulante, lúcida, equilibrada. E sobretudo um ser humano fraternal. Tanto literariamente como politicamente ou humanamente, sempre Zélia esteve comigo.

ANDRÉ PESTANA: Há trinta anos, V. tomou posse na Academia, sucedendo a Otávio Mangabeira, que "governou a Bahia com muita delicadeza", na cadeira que foi de Machado de Assis. Que representa a Academia em sua vida

JORGE AMADO: A Academia representa para mim a boa convivência com alguns grandes escritores e com eminentes homens de cultura. Você já pensou. A Academia foi fundada pelo Machado que escolheu para patrono José de Alencar. O sucessor de Machado foi o autor de Vindiciae, Lafaiete Rodrigues Pereira, que nesse livro de 1897 defendeu Machado de Assis contra Silvio Romero. Depois veio Alfredo Pujol, que também escreveu um livro sobre Machado de Assis. E cuja biblioteca excelente José Olympio comprou em 1931, para fundar a sua Editora. Sucedeu a Pujol um Otávio Mangabeira, que era ministro do Exterior de Washington Luís. Entrei em 1961, recebido pelo Raimundo Magalhães Júnior.

ANDRÉ PESTANA: O seu discurso de saudação a Adonias Filho, um discurso modelar como equilíbrio político, insiste na literatura grapiúna. Já V. publicou um livro com este título, O menino grapiúna. Que é ser grapiúna?

JORGE AMADO: Ser grapiúna significa ter herdado certas virtudes daqueles homens e mulheres que criaram uma civilização e uma cultura originais na região do cacau, no sul da Bahia. As principais virtudes dos grapiúnas foram a imaginação, a lealdade e a coragem. Eu me sinto muito preso a Ilhéus, São Jorge dos Ilhéus, minha obra sempre volta àquela região, com as suas florestas, as suas plantações de cacau. Os meus dois pólos são Ilhéus e a cidade da Bahia, o cais da Bahia, a cidade do Salvador, com os seus casarões, as suas praias, a sua gente humilde e verdadeira. O meu chão é a Bahia.

ANDRÉ PESTANA: O padre Luis Gonzaga Cabral, lendo a sua composição sobre o mar, aos onze anos, descobriu num relance o seu perfil de escritor. Como V. recorda hoje esse momento?

JORGE AMADO: Recordo a figura do Padre Cabral, que era português, com grata emoção. Mais do que ter anunciado escritor, ele me deu a ler As Viagens de Gúliver, dando-me para toda a vida o prazer da leitura. Era o colégio Padre Antônio Vieira, dos jesuítas da Bahia. Ele me revelou Frei Luís de Souza, Garrett, Herculano, Dickens, Walter Scott. Esse encontro com o Padre Cabral foi um momento importante da minha vida. Ele viera de Portugal por causa da república de Teófilo Braga. E ficou na Bahia.

ANDRÉ PESTANA: Depois da motivação telúrica, rica, da motivação baiana, da motivação política, V. descobriu a motivação pluridimensional. E nasceu Gabriela. Gabriela foi para você libertação?

JORGE AMADO: De certa maneira, sim. Eu antes tinha unia visão um tanto maniqueísta da vida, os bons de um lado e os maus de outro. Eram dois hemisférios, separados. Com a Gabriela eu me dou conta de que a vida é mais complexa, mais misturada. Mais profundo, mais humano. E me entreguei ao romance picaresco. O humano é que me interessa, acima de tudo, as pessoas como elas são, na sua realidade viva, instável, fluídica.Gabriela representa um ciclo novo na minha obra de romancista. E era uma volta a ilhéus, ao mundo grapiúna, a que me sinto tão preso, a civilização do cacau

ANDRÉ PESTANA: Fale-nos sobre o romance, que V. já nos prometeu, sobre choferes de caminhão.

JORGE AMADO: Esse projeto jamais se concretizou. Como muitos outros. A vida vai levando a gente. O honrem é surpreendido pelas circunstâncias, pelos fatos. E os dias nos mudam, nos arras. tam. Sempre sonhei com esse romance dos choferes de caminhão, que me parece tão importante no esforço de construção do Brasil moderno, o Brasil da era industrial. Choferes de caminhão e pais de santo sempre me atraíram. O mundo do candomblé está no meu romance O Sumiço da Santa, que também é muito baiano. Agora, tento escrever Bóris, o Vermelho, sobre as aventuras e desventuras de um moço, de um estudante. Escrevo também um livro de memórias, Navegação de Cabotagem, que espero terminar antes dos oitenta anos, em agosto de 1992.

ANDRÉ PESTANA: Há muitos anos, V. vive em Paris, Como V. se sente vivendo em Paris, V. que é sobretudo um baiano "sensual e romântico"?

JORGE AMADO: Eu vivo na Bahia, passo tempo em Paris. Sinto-me muito bem na Bahia e em Paris. São as cidades do meu amor. Paris representa para mim o mundo, o encontro com o mundo, as grandes editoras, as perspectivas da literatura internacional, as traduções, o vento da universalidade, os apelos de uma civilização que se perde no tempo, que vem da Grécia. Gilberto Amado é que dizia que uma rua de Paris é o rio que vem da Grécia. Em Paris eu me lembro do meu velho amigo Eremburg, com quem tanto conversei, ou de um poeta como Louis Aragon, casado com a extraordinária Elsa… Paris é tudo isso, a lembrança de Sartre e Simone de Beauvoir. Eu trouxe o Sartre e a Simone à Bahia, ao Brasil, em 1960. A Bahia, a residência na Bahia é fundamental. Porque ali estão as minhas raízes humanas. A brisa da Bahia, a viração é uma das coisas mais fantásticas do mundo. Aquele vento gostoso que vem do mar. A civilização baiana é dengosa, é feminina, é requintadíssima. O baiano é tão bem educado.

ANDRÉ PESTANA: V. se aproximou do povo, sentiu o povo. Não será esta a raiz da sua universalidade?

JORGE AMADO: Creio que um escritor, que deseje ser universal, necessita ser escritor do seu país e do seu povo. Busquei ser um escritor do povo baiano. Sou um autor muito ligado à vida popular, ao ritmo da civilização baiana, às alegrias e festas do povo, aos seus anseios e perplexidades, aos seus sofrimentos, às suas esperanças. Quis dar voz ao meu povo e quis falar ao povo, à gente mais simples do meu país. E creio que todos os meus romances, desde 1931, exprimem essa preocupação, esse desejo de estar em contato com o povo, essa necessidade de integração popular. Minha vida inteira foi sempre muito unida às lutas populares, aos problemas da minha região e aos problemas concretos do povo brasileiro. Acredito em nosso povo, em sua capacidade de organizar-se. Veja o carnaval. Que belo testemunho de organização, de vida, de solidariedade humana. Assim vejo o povo brasileiro, como um povo de altas qualidades. Há um humanismo brasileiro que nós temos de preservar, de promover, de defender.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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