Jorge Leite: Um homem de muitas qualidades

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Em dezembro passado, por motivo de viagem, não pude comparecer ao lançamento do livro “Jorge Prado Leite – Um Homem Chamado Trabalho”, de autoria de seu sobrinho, o escritor Ricardo Leite.

 

Anteriormente Ricardo Leite biografara o seu avô, Julio César Leite, industrial e chefe político da União Republicana de Sergipe, partido fundado em 5 de março de 1933, com vigência até o golpe getulista do Estado Novo e posteriormente no Partido Republicano entre 1945 e 1966.

 

Julio Leite era conhecido como o “Chefe Invisível”, por sua eficiente liderança política no Partido Republicano, sempre conduzindo o seu grupo em alianças vitoriosas, pendendo pragmaticamente o fiel da balança, ora para o Partido Social Democrático (PSD) de José Rollemberg Leite e Francisco Leite Neto, ora para a União Democrática Nacional (UDN) de Leandro Maciel e Luiz Garcia, no período compreendido entre a redemocratização de 1945, até o golpe militar de 1964, uma liderança recompensada com dois mandatos de Senador da República (1950-1958 e 1962 – 1980) e que continuou em períodos diferentes da vida pública brasileira, seja no chamado Estado Populista, seja nos anos de chumbo do período autoritário militar.

 

Continuando a enaltecer os feitos de sua família, os Leite, agora o biografado de Ricardo é o seu tio, o Engenheiro e Jornalista Jorge Prado Leite, industrial realizador, um homem merecedor de todas as homenagens e louvações de Sergipe, de quem tenho especial apreço e admiração por ter partilhado alguns momentos de convívio fraterno e amigo.

 

Das origens de Jorge Leite, direi apenas, repetindo Ricardo, ser ele o primogênito de uma prole de onze filhos do Senador Julio César Leite com a sua esposa D. Carmem Prado Leite. Ela nascida da Cruz Prado, por ser filha do Coronel Gonçalo Rollemberg do Prado, o grande industrial Gonçalo da Usina Pedras em Maroim e sua esposa, Maria Rollemberg da Cruz Prado, conhecida como Dona Marieta, filha do médico baiano Tomaz Rodrigues da Cruz e sua esposa Clara Rollemberg, e neta de Maria de Faro Rollemberg, ou Maria do Engenho Topo, como ficara conhecida.

 

Desta prole de onze filhos do Senador Julio, conheço apenas o biografado, Jorge do Prado Leite, e seus irmãos Augusto e Fernando do Pardo Leite.

 

De Augusto a admiração se estende a sua esposa D. Baby, casal harmonioso de muito valor da nossa sociedade, ele desempenhando diversas funções administrativas no Estado, com brilho e eficiência sem alardes, e ela com participação significativa nos eventos sociais e filantrópicos da cidade; um belo casal, em gentilezas e cortesia.

 

De Fernando o meu conhecimento vem de seu primo Roberto do Prado Sobral, irmão de meu cunhado Jorge do Prado Sobral, e esposo de minha prima Maria de Lourdes Melo Sobral (Lourdinha), proprietários da Fazenda Buenos Ayres em Carmópolis, e que, no tempo da minha adolescência, possuíam uma casa magnífica de veraneio na praia de Pirambu, em Japaratuba.

Neste tempo, Roberto Sobral tinha sido Prefeito de Carmópolis e Fernando era um seu velho companheiro de antigos folguedos em Japaratuba, Pirambu, Marcação e Carmópolis que seria depois eleito Deputado Estadual e Presidente da Assembléia Legislativa, ocupando inclusive interinamente o Governo de Sergipe, por conta do golpe militar de 1964 e a conseqüente cassação do Governador Seixas Dória.

 

Estou a lembrar a própria campanha de Fernando a Deputado Estadual em 1962 porque durante o veraneio daquele ano, o seu primo Roberto Sobral instalara um serviço de alto-falantes em Pirambu, e eu ali estava ainda quase criança, bancando o discotecário e auxiliando o locutor Zito Mangueira, da Rádio Jornal, fazendo propaganda para Fernando num serviço de alto-falantes alimentado por um gerador elétrico porque Pirambu ainda não possuía energia elétrica. Fernando ficaria conhecido como “o brasa”, apelido que eu, enquanto aprendiz de locutor, repetia ao microfone, a mando de Roberto Sobral, lendo recados, passando mensagens, oferecendo músicas naquele veraneio em Pirambu.

 

Fernando seria depois Deputado Estadual e Presidente da Assembléia, tendo presidido as sessões de cassação dos mandatos de Seixas Dória em 4 de abril de 1964, por 23 votos sim, 8 contra e uma única ausência de Horácio Dantas de Góis, e posteriormente de seus colegas Deputados Cleto Maia (22 votos sim, 5 não, um nulo e um branco), Viana de Assis (19 votos sim, 8 não e 2 nulos), Nivaldo Santos (21 votos sim, 6 não e um branco) e Baltazar Santos (19 votos sim e oito não), em sessão transmitida pelo rádio em 14 de maio de 1964, assegurando voz e voto aos deputados cassados, tendo Fernando se esforçado para salvar os mandatos de seus colegas, sobretudo Viana de Assis, segundo relato de Ariosvaldo Figueiredo ás folhas 80 a 82, 98 e 99 de História Política de Sergipe – 5º Volume.

 

No livro “Jorge Prado Leite – Um Homem Chamado Trabalho”, Ricardo Leite, repete sua publicação anterior em fotos e fatos, acrescendo feitos, não só traçando o perfil do biografado, como também narrando estórias corriqueiras e interessantes da vida de sua família, inclusive descrevendo o testemunho dos três irmãos, Jorge, Augusto e Fernando, assistindo o “fatídico” jogo final da copa de 1950, quando o Brasil perdeu o jogo e a copa para o Uruguai. Os três irmãos ali estavam, viram a peleja, e ainda hoje choram de tristeza ao relembrar o desastre do gol de Gigghia, (descrição às páginas 98 a 102, com direito a foto), um privilégio de poucos sergipanos.

 

O livro esboça também um relato da história familiar, política e econômica de Sergipe, com destaque para as famílias Leite, Accioli, Rollemberg, Cruz, Prado, Mello, Sobral e tantas outras que se misturavam em muitos casamentos e parentescos, com consolidação de patrimônio de bens de raiz, em terras e gado, estabelecimentos comerciais e bancários, engenhos e indústrias. Tema que está a merecer um desenvolvimento maior, porquanto há assuntos ainda obscuros, sobretudo no que tange aos entreveros familiares, entre o Barão de Japaratuba, Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg e suas irmãs, frente a sua mãe Maria de Faro Rollemberg Mello que casara em segundas núpcias com o Barão de Maroim, João Gomes de Mello.

 

O Barão de Maroim, fora liderança sergipana mais destacada no tempo do império e teve significativa participação na mudança da Capital de São Cristóvão para Aracaju, tema abordado também no livro.

 

Temas que Ricardo Leite, em determinados momentos demonstra conhecer intimamente, listando fatos mais remotos como o denodado patriotismo de seu mais remoto antepassado, o Capitão-Mor José da Trindade Pimentel, e de seu filho José da Trindade Prado que em 1822 na Bahia, estava ajudando aos esforços da independência nacional, unindo-se às forças de Pedro Labatut e Thomas Cochrane para derrotar o exército português do General Madeira de Melo, sendo então como capitão, um dos heróis do Dois de Julho de 1823 e da Guerra da Independência da Bahia. E que posteriormente guerreou também, desta vez em 1828, ao lado do General Carlos Frederico Lecor na Campanha Cisplatina (páginas 75 e 76), deixando depois o exército no posto de Major, por se negar a participar da sublevação militar de 1831, que resultou na abdicação de D. Pedro I, quando resolve voltar a Sergipe e constituir o ramo familiar cuja história é narrada em pormenor.

 

Pesquisa que envolve o estudo da baronia sergipana, a citação de seus detentores, métodos, maneiras e escaramuças eleitorais para adquiri-la do Imperador Pedro II. Detalhes sobre a mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju.

 

E outras coisas, algumas anedóticas e bisonhas, mas que se fizeram quase-trágicas e suscitaram inimizades terríveis como o diálogo entre o Barão de Maroim, 1º Vice-Presidente da Província, gritando num navio barrado na boca da barra de Aracaju, e sendo ouvido, após muita reverberação e eco, no Palácio do Governo pelo Barão de Própria, o 3º Vice-Presidente, que ali exercia a Presidência, e ilhara por decreto a cidade, de modo a se manter soberano mediante um cinturão de assepsia que criara para enfrentar a epidemia de Cólera Morbus Asiático que grassava nos apecuns de Aracaju.

 

Diálogo que em verdade nenhum dos dois poderia ouvir tal a distância da garganta às oiças, nem por potentes alto-falantes, não existentes então, porque assim não o permite a Física, de ontem, de hoje e de sempre, embora a tísica de ontem e de sempre, sempre suscite nos ouvidos as picuinhas e os acréscimos dos fofoqueiros, tanto que o mútuo berro resultou na inimizade dos dois para sempre. Estória que achei muito interessante e que somada a tantas outras, tornam o livro bastante agradável de ler.

 

Há também um descortinar tradicional de liderança e disciplina fomentada a partir do berço, como por exemplo, o tradicional beija-mão dos dez irmãos ao primogênito Jorge, conduzido por Dona Carmem, a mãe dos onze, numa espécie de ritual de progenitura, ensejando uma liderança, uma hierarquia e um respeito, sói comuns às linhagens dinásticas e/ou as bênçãos, de pai para filho, contidas no Gênesis.

 

Uma bênção, diga-se de passagem, que centralizou em Jorge Leite este respeito e liderança, mantidos ao longo da existência de todos, afinal a sua maneira de agir, serena, segura, cuidadosa, eficiente e sábia o destacou não só no seio de seus iguais, os seus irmãos e familiares, como perante todos os seus circunstantes, superiores ou subordinados.

 

O livro de Ricardo Leite não pode ser acusado de louvação imerecida, afinal muita coisa notável há a destacar na vida do Dr. Jorge Leite, inclusive na juventude, como estudante da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, aluno de Lucas Nogueira Garcez, que viria depois a ser Governador de São Paulo e Ministro da República, um dos maiores cérebros desenvolvimentista do estado brasileiro daquele tempo pré-JK. Professor que ficaria seu amigo e admirador, e de quem aprendera para sempre que “para haver desenvolvimento era necessário energia”.

 

Neste tempo de uso restrito de energia vivia-se a agitação do pós-guerra, o retorno da democracia e os sonhos utópicos das paradisíacas democracias socialistas. Uma grande discussão entre o capital e o trabalho iria acontecer até vingar a morte das utopias. Isso tudo, porém, não empolgava Jorge. Preferia estar centrado com os pés bem firme no solo e visando sempre à frente de seu tempo. Torna-se um adepto do movimento Economia e Humanismo sendo um dos seguidores da “economia humana”, pregada pelo Padre Lebret, teoria que procurava compatibilizar no mundo de então o desenvolvimento econômico e a distribuição de seus benefícios, combatendo a desigualdade social, movimento que tinha o apoio do então Padre Helder Câmara.  

 

Estribado em Padre Lebret, resolve ingressar na política universitária. Elege-se Presidente do Grêmio Acadêmico da Escola Politécnica, derrotando inclusive o seu colega Paulo Salim Maluf, em um feito memorável, o tempo diria depois, porque Maluf seria posteriormente um político polêmico, mas destacado, a suscitar ódios e admirações, futuro governador e prefeito de São Paulo, e quase chegando à Presidência da República. Maluf que colhera sua primeira derrota, frente a Jorge Leite, um nordestino de Sergipe.

 

Uma vitória notável também, porque enquanto Presidente do Grêmio Jorge, então com 23 anos, promove os meios para projetar, arranjar recursos e construir a Casa do Politécnico, prédio de onze andares situado Bairro Bom Retiro em São Paulo, prédio destinado aos estudantes carentes e que ficou conhecido como Cadepô, sede de inúmeros debates acadêmicos entre os anos 50 a 80 e que depois foi desapropriado, abrigando atualmente o arquivo público de São Paulo.

 

Fatos relatados por Ricardo Leite e desconhecidos por todos nós de Sergipe, sobretudo porque é costumeiro lançar o apagador no feito realizado por outrem.

O Cadepô teve sua construção iniciada sob aos auspícios dos estudantes da Politécnica sob o comando de Jorge, como se pode observar nas fotos e documentos listados nas páginas 104 a 107, contendo não só a aprovação da Congregação da Faculdade, como o apoio financeiro da Companhia Belgo-Mineira, bem como a planta da obra, detalhes da construção, instantâneos da cerimônia do batimento da Primeira Pedra, com a presença do Cardeal D. Carmelo Mota. Fotos, em que o jovem acadêmico já se revelava não só um “agitador de idéias”, mas um realizador de sonhos, aparecendo sobriamente no retrato, numa pose comum em todas as suas fotografias exibidas no livro, que são muitas, e nas quais Jorge Leite aparece, jovem, homem maduro ou idoso, como se fora uma mera composição ou um quase cenário, passando quase esquecido, quando em verdade é o verdadeiro foco, razão e fulcro da realização comemorada. Ou seja, Jorge Leite preferia desde jovem trabalhar por detrás do cenário, nos bastidores do palco, compondo a peça e dirigindo os atores.

 

Um “agitador de idéias”, repito, me apoderando do epíteto lançado pelo Jornalista Célio Nunes ao lhe traçar o perfil, em “Um homem especial” (páginas 398 a 403), narrando-lhe a atuação como conselheiro do CONDESE, a suscitar respeito e admiração por sua fidalguia e competência, revelando-se um douto conhecedor dos temas econômicos, sobretudo como um especialista em assuntos de energia, “um técnico e ardoroso defensor das suas opiniões, exigente dos seus direitos, … provocando o silêncio da sala, porque dali somente saíam com precisão opiniões e contestações que, depois, até provocavam animadas discussões.”

 

Uma “comedida figura de fidalgo”, que tempos depois visitaria Célio Nunes na sede do sindicato dos jornalistas, trazendo o Diploma de Jornalismo para lhe requerer pessoalmente a inscrição de sua sindicalização. Certificado, que Jorge Leite, um quase sexagenário, obtivera em 1986 após cursar Jornalismo na UNIT, ao lado de colegas, todos jovens, como Marcos Cardoso, o hoje brilhante editor do Jornal da Cidade. Um diploma adquirido só para ter direito ao exercício pleno da profissão e poder dizer com mais razão, exemplo e autoridade o seu recado pela sua Rádio Esperança de Estância, sempre dedicado “à mocidade amiga”.

 

No livro “Jorge Leite: um homem chamado trabalho” há também vários depoimentos de autoridades, governadores, políticos, figuras importantes, seus parentes, admiradores e de amigos a preencher substantivamente o trabalho de Ricardo Leite.

 

Em “Um amigo notável” (páginas 395 a 397), por exemplo, o destacado e laureado homem do rádio sergipano, Jornalista Raymundo Luiz da Silva, uma das nossas unanimidades como cronista, comentarista dos esportes e voz sempre respeitada por coerência e franqueza, chega a desabrochar o próprio ser, dissertando sem arroubos de excessos, a sua admiração e amizade ao falar da figura do Jornalista e do Esportista Jorge Leite.

 

Sim, porque Jorge também fora um ardente esportista, sobretudo no tempo em que o time do Santa Cruz da cidade de Estância fora como o “bicho-papão”, o primeiro campeão profissional de futebol e pentacampeão de Sergipe.

 

E se foi perenizado o nome do Esporte Clube Santa Cruz, imortalizando os nomes de Tarati, João Cego, ABC e tantos outros, derrotando sucessivamente o meu Sergipe, deva-se sobretudo a Jorge Leite, o patrono do clube, o artífice esquecido e despercebido na coxia do espetáculo, providenciando tudo para a continuidade do show, seja no esporte, no Santa Cruz, seja na Rádio Esperança, ou no Centro Social Gonçalo Prado, promovendo a vinda de artistas como Luiz Gonzaga e muitos festivais de música.

 

E são muitos os depoimentos neste sentido com fotos de colaboradores e amigos.

 

Entre os depoimentos listados destaque-se o poema composto por Ivan Leite, seu filho primogênito, hoje Prefeito de Estância em segundo mandato, e o relato de sua nora Patrícia, esposa de Ivan. Há também o depoimento dos outros filhos, Marcelo e Adriana, dos netos Jorge e Yvettte Batalha Leite, filhos de Ivan e Patrícia, de Baby Leite, a cunhada perfeita, esposa do irmão Augusto Leite, de governadores e políticos, do primo Carlos Rodrigues Porto da Cruz que perquirindo a s luzes do além, vê em Jorge Leite a têmpera dos Rollemberg, enfrentando ”gregos e troianos, godos, visigodos e até ostrogodos”. E que eu para lhe aproveitar a luz, do mote, da rima e do verso, direi num outro rebote de reverso, tentando um arremate menos exótico e menos arcano, mas mais humano, por mais terreno e não gótico ou troiano, ser Jorge um homem centrado no solo e no firme prosseguir, sendo inimigo da arte do engodo e da fraude, e avesso à falta de denodo e às más ações no proceder.

 

Um homem corajoso, direi também, sem correr da luta, mesmo quando ameaçado e convidado a empreender desforço físico na refrega política contra Francisco de Araújo Macedo, o verboso líder político que gritava contra os Leite em praça pública: ”os operários de Estância passam pelo mesmo suplício que passavam os degredados da Gestapo, de Hitler e Mussolini, antes da guerra”, chamando Jorge de diabo e “o Hitler de Estância”.

 

Coragem também no enfrentar o imponderável, como a violência do aguaceiro de 1964, que lhe queria arrasar a Fábrica Santa Cruz, sua construção, tão bem erguida e edificada. Ele que domara as águas tranqüilas e pacíficas do rio Piauitinga, construindo uma represa para produzir energia elétrica, via agora o rio se alargar e extravasar terrivelmente em águas furiosas arrasando tudo. E ali estava Jorge comandando operários assustados, para salvar a fábrica deles todos, promovendo isolamentos e barragens e também dinamitando a cabeceira da ponte para franquear o escoamento das águas. Fato inusitado desde aquela época naquele rio, quase um riacho, que se fez enorme e destruidor, fato documentado por Ricardo Leite com fotos da época, só para confirmar o perigo daquela enchente e o âmago constitutivo da ousadia de seu tio.

 

Ousadia também de investir na eletricidade, criando a Sulgipe, fornecedora de energia elétrica no sul do estado e de dois municípios da Bahia, empresa fundada quando a energia de Paulo Afonso era ainda um sonho. Uma ousadia tornada ainda maior, porque nos descaminhos da política econômica deste país, quiseram-lhe desapropriar a empresa em encampação sumária por decreto. Um decreto que Jorge conseguiu reverter, viajando a Brasília, provando a viabilidade e a boa situação da sua empresa, vencendo os estatistas de todos os matizes, valendo-se então de sua velha amizade com o professor e amigo Lucas Nogueira Garcez. E assim, a Sulgipe foi a única empresa fornecedora de energia “encampada e desencampada” por decreto.

 

Mas, se a criação da Sulgipe fora um investimento rendoso, o Engenheiro Jorge Leite volta a surpreender críticos e admiradores, exibindo sua visão futurista em meio a tanta miopia, sendo o primeiro, e único até agora, a se preocupar com o meio ambiente e a ecologia; transforma sua fazenda Crasto numa reserva ecológica, última área preservada da mata atlântica, num tempo em que eram raros os que se preocupavam com a conservação da flora e da fauna,

Preservar o ambiente não é fácil. O bicho homem acha-se senhor da natureza e tudo desbarata, aumentando a entropia do universo. Os órgãos ambientais estatais, por sua vez, carentes de recursos e descrentes na própria ação, se perdem também na discussão política, apeando o desenvolvimento e sendo lento em muito da sua atuação. Assim, não se conhece no estado de Sergipe nenhum trabalho ecológico que se rivalize com o realizado por Jorge Leite na fazenda Crasto, combatendo o desmatamento e a caça de animais silvestres. Certa feita, conta Ricardo, contaram a Jorge Leite que alguém estava no mercado vendendo um tamanduá. A caça fora nas terras do Crasto, mas não adiantava discutir. Jorge vai ao mercado, compra o animal só para solta-lo de volta à mata.

 

A ação de Jorge Leite é louvada também por especialistas como a Doutora em Geografia e Consultora de Meio Ambiente, Líliam de Lins Wanderley, e a Professora Doutora Myrna Landim, do Departamento de Biologia da UFS, Coordenadora do Núcleo de Ecossistemas Costeiros (ECOS) que discorrem sob a Mata do Crasto e seu personagem especial (páginas 377 a 393). A Dra. Líliam inclusive, chega até a requerer dos homens públicos e de decisão, para que seja criada uma comenda, uma “Medalha de Mérito Ambiental Jorge Prado Leite”, ela que não conhece “nenhum outro sergipano que mereça tanto”.

 

Muitas coisas eu poderia dizer do Dr. Jorge. Palavras de louvação imerecida? Jamais! Palavras para agradar os seus familiares? Também não! Eles disso não precisam e também não é este o meu feitio. Mas, eu não posso deixar de admirar os homens nem rejeitar um grande tema.

 

Eu não poderia me eximir de dar o meu depoimento também, como liderado político por Jorge Leite, ele presidente do PDC estadual, e eu presidente do diretório municipal de Aracaju, num tempo em que eu tivera algum sonho político, levado pelo meu colega e amigo Carlos Henrique de Carvalho, quando pretendíamos formar uma chapa à Prefeitura de Aracaju.

 

O tempo confirmou que a política não era a nossa meta, de Carlos e minha. Restou, porém, uma convivência muito agradável com o Dr. Jorge Leite em reuniões produtivas no seu escritório, humilde e espartano situado na velha casa da Avenida Rio Branco 334, uma amizade que continuou como leitor e estimulador de meus escritos. Um homem reservado, extremamente gentil, um amigo muito bom.

 

Como eu disse no início, não pude comparecer ao lançamento do livro de Ricardo Leite por motivo de viagem. Recebi-o autografado, porque meu pai, Manoel Cabral Machado, um grande admirador do Dr. Jorge Leite para ali se dirigiu com suas limitações de saúde desejando homenagear o amigo.

 

Gostei do livro de Ricardo; uma leitura agradável e bastante interessante.

 

Como dito antes, poder-se-á acusa-lo de excedentes louvações. É ciúme norteado na mediocridade do que não se acha espelho, afinal há os que não crêem no homem de Carlyle. Alguns vêem nos homens só os seus vícios e deméritos, justamente o que se deve apagar e esquecer, para não os repetir nem imitar.

 

Hoje, 10 de janeiro de 2009, estou a terminar este artigo iniciado há algum tempo, voltando-me para meu pai, o meu primeiro leitor, e meu maior incentivador, ele que não leu ainda o livro de Ricardo só o sabendo pelos meus relatos, porque logo depois adoeceu, ocupando o leito da UTI do Hospital São Lucas há quase doze dias.

 

Dedico-o a meu pai, Cabral Machado, um homem de admiráveis virtudes, um caminhante ético, promulgando as excelências do culto à inteligência e ao estudo. Um homem que na vida não mediu esforços para ler e aprender, persistindo mesmo quando lhe faltara a luz nos olhos, para se fazer o melhor mestre de seus alunos, muitos alunos e alunas, vivendo no sucesso de cada um deles.

 

A meu pai que hoje está tão frágil no seu leito de hospital, dedico este artigo, que lhe seria bastante agradável, já que me incentivou a escrevê-lo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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