Lampião vive

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Há exatos 71 anos morriam Lampião, Maria Bonita e a maior parte de seu grupo de cangaceiros. O bando foi fuzilado na Gruta de Angicos, município de Poço Redondo (SE). O aniversário de morte do “capitão” Virgulino será lembrado nesta terça-feira em vários pontos do Nordeste. Entrevistado em 1926 pelo médico Octaclílio Macedo, na cidade de Juazeiro do Norte (CE), Lampião respondeu da seguinte forma à pergunta se pretendia abandonar o cangaço: “Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este “negócio”, ainda não pensei em abandoná-lo”. Só saiu morto. Leia no rodapé da coluna a entrevista completa de Lampião.

 

Quebra de braço

 

Apesar das ameaças de corte do ponto e desconto nos salários, com repercussão na contagem de tempo para efeito de concessão de licença-prêmio, os servidores do Tribunal de Justiça de Sergipe prometem cruzar os braços hoje e amanhã. A greve, considerada ilegal por uma tutela antecipada, visa pressionar o Judiciário a implantar o Plano de Cargos e Salários e conceder um reajuste de 26%. Ontem, o presidente do Poder, desembargador Roberto Porto, distribuiu comunicado aos juízes de Direito informando que o expediente de hoje e amanhã será normal. Ele também alerta sobre as possíveis penalidades aos grevistas. Ao que tudo indica, o caldo vai azedar de vez entre as partes.

 

Cartões agiotas

 

Na contramão das recentes reduções da taxa Selic feitas pelo Banco Central, hoje em 8,75% ao ano, as operadoras de cartão de crédito aumentaram os juros cobrados dos clientes que financiam parte de suas faturas. Matéria do jornal Correio Braziliense informa que esses encargos tornam as dívidas praticamente impagáveis. À exceção de bancos estatais, que por determinação do governo reduziram um pouco seus índices – ainda na casa dos três dígitos –, quase todas as instituições reajustaram as taxas, que variam de 143,28% a 600,73% num período de 12 meses. Isso é agiotagem sô!

Assiduidade

 

Com o título acima, a coluna Periscópio, do Jornal da Cidade, publica hoje a seguinte nota: “O site Congresso em Foco divulgou ontem a lista de assiduidade dos senadores brasileiros nas sessões plenárias. Pela relação, de Sergipe o mais faltoso é o senador Almeida Lima (PMDB). Ele faltou a seis das 58 sessões realizadas. Já a senadora Maria do Carmo (DEM) faltou a três e o senador Antônio Carlos Valadares (PSB) não registrou falta”.

 

De volta ao rádio

 

O radialista Douglas Magalhães estará de volta ao rádio no próximo dia 1º . Vai trabalhar como correspondente em Aracaju da rádio Educadora, de Frei Paulo. “A idéia é produzir matérias diversas todos os dias, principalmente nas áreas política e policial”, diz o experiente comunicador. Boa sorte, amigo!

 

Pesquisa em Câncer

O Onco Hematos Centro de Pesquisa (OHC) em Câncer de Sergipe estará recebendo nesta terça-feira, representantes da Novatis. A visita visa dá andamento ao processo de qualificação do OHC. De acordo com Milena Pinheiro, coordenadora de pesquisa, os visitantes irão conhecer a Onco Hematos e a Onco Hematos Cirurgia, bem como o Centro de Pesquisa e suas equipes, visando verificar se os mesmos estão aptos para o desenvolvimento de pesquisas. A vantagem é que, com a instalação de um centro de pesquisa em Aracaju, os pacientes, especialmente os do SUS, receberão drogas mais avançadas e já existentes.

 

Jorge no Fórum

 

O convidado para a reunião almoço desta terça-feira do Fórum Empresarial de Sergipe é o secretário estadual da Administração, Jorge Alberto Teles Prado. O evento está marcado para as 12h30 no Hotel Aquários, Orla de Atalaia, e consiste em excelente oportunidade para o grupo trocar idéia com o secretário e se informar sobre a administração pública no Estado. Jorge Alberto vai falar sobre ‘As Ações da Secretaria de Estado da Administração’.  

 

Mais baratos

Os preços dos carros novos e usados registraram reduções significativas no primeiro
semestre do ano, segundo indicou o IPCA-15 divulgado pelo IBGE. Em contrapartida, a
manutenção do carro está pesando mais no bolso do consumidor. Nos seis primeiros meses do ano, os carros novos tiveram uma redução média de 9,47% nos preços, enquanto nos usados, a queda chega a 11,64%. Já o conserto do carro, registrou um
encarecimento de 6,96%. Considerando apenas o mês de junho, comprar um carro zero
quilômetro ficou 0,14% mais barato, e um usado, 2,84%. Já o conserto do automóvel ficou 0,84% mais caro.

 

Dinheiro na mão

O perfil de aquisição das motocicletas parece estar mudando. Isso porque o pagamento à
vista para compra desse veículo aumentou 9,07% na comparação entre os primeiros 15 dias de julho e o mesmo período de junho deste ano, segundo dados da Fenabrave.
Já a opção pelo leasing teve o comportamento oposto, com uma queda significativa de
20,52% no mesmo período. Por sua vez, os financiamentos convencionais, ou por alienação fiduciária apresentaram leve crescimento de 1,17% na primeira quinzena deste mês.

 

Multas pesadas

 

Piadinha infame que corre na Internet: Os pilotos brasileiros Felipe Massa e Rubens Barrichello vão receber pesadas multas e ainda perder sete pontos nas carteiras de habilitação. O primeiro por dirigir em alta velocidade e o outro por má conservação do carro. Pode, uma coisa dessa?

 

Entrevista com Lampião

 

O site Lampião, mantido pela jornalista Vera Ferreira, neta do “capitão” Virgulino e Maria Bonita, traz uma entrevista concedida pelo Rei do Cangaço ao médico Octaclílio Macedo. O encontro entre os dois aconteceu no dia 6 de março de 1926, quando Lampião visitou Juazeiro do Norte (CE) a convite do padre Cícero Romão para integrar o Batalhão Patriótico no combate à Coluna Prestes.

Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista com o Rei do Cangaço:

 

OCTACLÍLIO MACEDO – Que idade tem?
VIRGULINO FERREIRA -Vinte e sete anos.

OM – Há quanto tempo está nesta vida?
VF – Há nove anos, desde 1917, quando me ajuntei ao grupo do Senhor Pereira.

OM – Não pretende abandonar a profissão?

VF – Se o senhor estiver em um negócio, e for se dando bem com ele, pensará porventura em abandoná-lo? Pois é exatamente o meu caso. Porque vou me dando bem com este “negócio”, ainda não pensei em abandoná-lo.

OM – Em todo o caso, espera passar a vida toda neste “negócio”?
VF – Não sei… talvez… Preciso, porém, “trabalhar” ainda uns três anos. Tenho alguns “amigos” que quero visitá-los, o que ainda não fiz, esperando uma oportunidade.

OM – E depois, que profissão adotará?
VF – Talvez a de negociante.

OM – Não se comove a extorquir dinheiro e a “variar” propriedades alheias?
VF – Oh! Mas eu nunca fiz isto. Quando preciso de algum dinheiro, mando pedir “amigavelmente” a alguns camaradas.

OM – No caso de insucesso com a polícia, quem o substituirá como chefe do bando?
VF – Meu irmão Antônio Ferreira ou Sabino Gomes…

OM – Os jornais disseram, ultimamente, que o tenente Optato, da polícia pernambucana, tinha entrado em luta com o grupo, correndo a notícia oficial da morte de Lampião.
VF – É, o tenente é um “corredor”, ele nunca fez a diligência de se encontrar “com nós”; nós é que lhe matemos alguns soldados mais afoitos.

OM – E o coronel João Nunes, comandante geral da polícia de Pernambuco, que também já esteve no seu encalço?
VF – Ah, este é um “velho frouxo”, pior do que os outros…

 

Neste momento chegou ao sótão uma “romeira” velha, conduzindo um presente para Lampião. Era um pequeno “registro” e um crucifixo de latão ordinário. “Velinha”, apresentando as imagens: “Stá aqui, seu coroné Lampião, que eu truve para vomecê”.
– Este santo livra a gente de balas? Só me serve si for santo milagroso.
Depois, respeitosamente, beijou o crucifixo e guardou-o no bolso. Em seguida tirou da carteira um nota de 10$000 e gorgetou a romeira.

OMQue importância já distribuiu com o povo do Juazeiro?
VF – Mais de um conto de réis.

Lampião começou por identificar-se:

– Chamo-me Virgulino Ferreira da Silva e pertenço à humilde família Ferreira do Riacho de São Domingos, município de Vila Bela. Meu pai, por ser constantemente perseguido pela família Nogueira e em especial por Zé Saturnino, nossos vizinhos, resolveu retirar-se para o município de Águas Brancas, no estado de Alagoas. Nem por isso cessou a perseguição.

– Em Águas Brancas, foi meu pai, José Ferreira, barbaramente assassinado pelos Nogueira e Saturnino, no ano de 1917.

– Não confiando na ação da justiça pública, por que os assassinos contavam com a escandalosa proteção dos grandes, resolvi fazer justiça por minha conta própria, isto é, vingar a morte do meu progenitor. Não perdi tempo e resolutamente arrumei-me e enfrentei a luta. Não escolhi gente das famílias inimigas para matar, e efetivamente consegui dizimá-las consideravelmente.

Sobre os grupos a que pertenceu:

– Já pertenci ao grupo de Sinhô Pereira, a quem acompanhei durante dois anos. Muito me afeiçoei a este meu chefe, porque é um leal e valente batalhador, tanto que se ele ainda voltasse ao cangaço iria ser seu soldado.

Sobre suas andanças e seus perseguidores:


– Tenho percorrido os sertões de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, e uma pequena parte do Ceará. Com as polícias desses estados tenho entrado em vários combates. A de Pernambuco é disciplinada e valente, e muito cuidado me tem dado. A da Paraíba, porém, é uma polícia covarde e insolente. Atualmente existe um contingente da força pernambucana de Nazaré que está praticando as maiores violências, muito se parecendo com a força paraibana.

Referindo-se a seus coiteiros, Lampião esclareceu:

– Não tenho tido propriamente protetores. A família Pereira, de Pajeú, é que tem me protegido, mais ou menos. Todavia, conto por toda parte com bons amigos, que me facilitam tudo e me consideram eficazmente quando me acho muito perseguido pelos governos.

Se não tivesse de procurar meios para a manutenção dos meus companheiros, poderia ficar oculto indefinidamente, sem nunca ser descoberto pelas forças que me perseguem.

De todos meus protetores, só um traiu-me miseravelmente. Foi o coronel José Pereira Lima, chefe político de Princesa. É um homem perverso, falso e desonesto, a quem durante anos servi, prestando os mais vantajosos favores de nossa profissão.

A respeito de como mantém o grupo:


– Consigo meios para manter meu grupo pedindo recursos aos ricos e tomando à força aos usuários que miseravelmente se negam de prestar-me auxílio.

Se estava rico?


– Tudo quanto tenho adquirido na minha vida de bandoleiro mal tem chegado para as vultuosas despesas do meu pessoal – aquisição de armas, convindo notar que muito tenho gasto, também, com a distribuição de esmolas aos necessitados.

 

A respeito do número de seus combates e de suas vítimas disse:

– Não posso dizer ao certo o número de combates em que já estive envolvido. Calculo, porém, que já tomei parte em mais de duzentos. Também não posso informar com segurança o número de vítimas que tombaram sob a pontaria adestrada e certeira de meu rifle. Entretanto, lembro-me perfeitamente que, além dos civis, já matei três oficiais de polícia, sendo um de Pernambuco e dois da Paraíba. Sargentos, cabos e soldados, é impossível guardar na memória o número dos que foram levados para o outro mundo.

 

Sobre as perseguições e fugas deixou claro:

– Tenho conseguido escapar à tremenda perseguição que me movem os governos, brigando como louco e correndo rápido como vento quando vejo que não posso resistir ao ataque. Além disso, sou muito vigilante, e confio sempre desconfiando, de modo que dificilmente me pegarão de corpo aberto.

 

– Ainda é de notar que tenho bons amigos por toda parte, e estou sempre avisado do movimento das forças.

 

– Tenho também excelente serviço de espionagem, dispendioso, mas utilíssimo. Seu comportamento mereceu alguns comentários bastante francos:

 

– Tenho cometido violências e depredações vingando-me dos que me perseguem e em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias, por mais humildes que sejam, e quando sucede algum do meu grupo desrespeitar uma mulher, castigo severamente.

 

Perguntado se deseja deixar essa vida:

 

– Até agora não desejei, abandonar a vida das armas, com a qual já me acostumei e sinto-me bem. Mesmo que assim não sucedesse, não poderia deixá-la, porque os inimigos não se esquecem de mim, e por isso eu não posso e nem devo deixá-los tranqüilos. Poderia retirar-me para um lugar longínquo, mas julgo que seria uma covardia, e não quero nunca passar por um covarde.


Sobre a classe da sua simpatia:


– Gosto geralmente de todas as classes. Aprecio de preferência as classes conservadoras – agricultores, fazendeiros, comerciantes, etc., por serem os homens do trabalho. Tenho veneração e respeito pelos padres, porque sou católico. Sou amigo dos telegrafistas, porque alguns já me salvaram de grandes perigos. Acato os juízes, porque são homens da lei e não atiram em ninguém.

 

– Só uma classe eu detesto: é a dos soldados, que são meus constantes perseguidores. Reconheço que muitas vezes eles me perseguem porque são sujeitos, e é justamente por isso que ainda poupo alguns quando os encontro fora da luta.

 

Perguntado sobre o cangaceiro mais valente do nordeste:

– A meu ver o cangaceiro mais valente do nordeste foi Sinhô Pereira. Depois dele, Luiz Padre. Penso que Antonio Silvino foi um covarde, porque se entregou às forças do governo em consequência de um pequeno ferimento. Já recebi ferimentos gravíssimos e nem por isso me entreguei à prisão.

 

Questionado sobre ferimentos em combate, contou:

– Já recebi quatro ferimentos graves. Dentre estes, um na cabeça, do qual só por um milagre escapei. Os meus companheiros também, vários têm sido feridos. Possuímos, porém, no grupo, pessoas habilitadas para tratar dos ferimentos, de modo que sempre somos convenientemente tratados. Por isso, como o senhor vê, estou forte e perfeitamente sadio, sofrendo, raramente, ligeiros ataques reumáticos.

 

Sobre ter numeroso grupo:

– Desejava andar sempre acompanhado de numeroso grupo. Se não o organizo conforme o meu desejo é porque me faltam recursos materiais para a compra de armamentos e para a manutenção do grupo – roupa, alimentação, etc. Estes que me acompanham é de quarenta e nove homens, todos bem armados e municiados, e muito me custa sustentá-los como sustento. O meu grupo nunca foi muito reduzido, tem variado sempre de quinze a cinquenta homens.

 

Sobre padre CíceroRomão Batista, Lampião foi bem específico:

– Sempre respeitei e continuo a respeitar o estado do Ceará, porque aqui não tenho inimigos, nunca me fizeram mal, e, além disso, é o estado do padre Cícero. Como deve saber, tenho a maior veneração por esse santo sacerdote, porque é o protetor dos humildes e infelizes, e, sobretudo, porque há muitos anos protege minhas irmãs, que moram nesta cidade. Tem sido para elas um verdadeiro pai. Convém dizer que eu ainda não conhecia pessoalmente o padre Cícero, pois esta é a primeira vez que venho a Juazeiro.

 

Em relação ao combate aos revoltosos:

– Tive um combate com os revoltosos da coluna Prestes, entre São Miguel e Alto de Areias. Informado de que eles passavam por ali, e sendo eu um legalista, fui atacá-los, havendo forte tiroteio. Depois de grande luta, e estando com apenas dezoito companheiros, vi-me forçado a recuar, deixando diversos inimigos feridos.

 

A respeito de sua ida ao Ceará:

– Vim agora ao Cariri porque desejo prestar meus serviços ao governo da nação. Tenho o intuito de incorporar-me às forças patrióticas do Juazeiro, e com elas oferecer combate aos rebeldes. Tenho observando que, geralmente, as forças legalistas não têm planos estratégicos, e daí os insucessos dos seus combates, que de nada tem valido. Creio que se aceitassem meus serviços e seguissem meus planos, muito poderíamos fazer.

 

Sobre o futuro Lampião mostrou-se incerto, apesar de ter planos:

– Estou me dando bem no cangaço, e não pretendo abandoná-lo. Não sei se vou passar a vida toda nele. Preciso trabalhar ainda uns três anos. Tenho de visitar alguns amigos, o que não fiz por falta de oportunidade. Depois, talvez me torne um comerciante.

Aqui termina a entrevista concedida por Lampião em Juazeiro.

Na despedida Lampião nos acompanhou até a porta. Pediu nosso cartão de visita e acrescentou:

VF – Espero contar com os “votos” dos senhores em todo tempo!
OM – Que dúvida… respondemos.

 

Como sabemos, Lampião, o “Rei do Cangaço”, não viveu o suficiente para ver todos seus planos concretizados.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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