Leni Riefensthal em Hollywood

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Liliane Costa Andrade

Doutoranda em História Comparada (PPGH/UFRJ)

Orientador: Prof. Dr. Dilton Cândido Santos Maynard

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

E-mail: liliane@getempo.org

“Desculpa. Leni não!” Fonte: A Scena Muda. Rio de Janeiro, 04 de abril de 1939, p. 24.

 

Leni Riefensthal foi uma atriz, dançarina e diretora de cinema alemã, reconhecida pela sua atuação durante o Terceiro Reich (1933-1945). Querida por Adolf Hitler (líder do Partido Nazista), Leni empregou suas habilidades de cineasta na produção de filmes que faziam propaganda favorável ao nazismo. Dentre os seus principais trabalhos, estão Olympia (1938), inspirado nos Jogos Olímpicos de Verão de 1936, realizados em Berlim; e Triunfo da Vontade (1936), considerado um dos maiores filmes de propaganda já produzidos. Filmada durante o Rally de Nuremberg de 1934, um comício realizado pelo Partido, a película é composta por imagens que buscam evidenciar o poder do nazismo e a aclamação não apenas ao regime, como também ao seu líder.

Após o lançamento das suas principais produções, em 1939, Leni Riefensthal, por intermédio do Ministro de Propaganda do Terceiro Reich (Joseph Goebbels), realizou uma visita a Hollywood (Califórnia/Estados Unidos), que, à época, já figurava como a maior potência da indústria cinematográfica mundial. Pouco antes de Leni, um outro representante fascista havia viajado a Hollywood: Vittorio Mussolini, filho de Benito Mussolini (líder do fascismo na Itália). O objetivo do então orientador do cinema italiano era estudar a vida nos estúdios, a fim de aplicar seus aprendizados no desenvolvimento da produção fílmica do seu país.

A visita, planejada para durar seis meses, durou apenas três semanas. Isso porque houve uma forte reação por parte da imprensa e dos artistas hollywoodianos à presença de Vittorio. Segundo a revista A Scena Muda, astros e estrelas ameaçavam os estúdios de abandonar os trabalhos caso permitissem a visita do filho do Duce (Benito Mussolini). Pois bem, ao que tudo indica, o episódio vivenciado por Vitorio Mussolini não serviu de intimidação a Riefensthal. E, mais uma vez, uma representante do fascismo foi mal recebida em Hollywood. Também conforme A Scena Muda, jornais anunciavam que a embaixatriz do Reich encontraria todas as portas fechadas: “NÃO HA LOGAR PARA LENI RIEFENSTHAL, gritavam bem alto as manchettes dos diarios” [sic].

Igualmente, Leni, que buscava na viagem aprendizados referentes à produção cinematográfica, foi embora de Hollywood em decorrência da má recepção. Diante do episódio, foi realizado um manifesto assinado por 56 nomes envolvidos na indústria cinematográfica estadunidense, entre atores, atrizes, escritores e diretores. Nomeado Declaração da Independência o documento, que circulou pelos Estados Unidos, seria enviado em forma de petição ao Congresso Americano, pedindo a ruptura das relações econômicas com a Alemanha.

A iniciativa, que partiu de Hollywood, ficou conhecida como “Comitê dos 56” e contava com nomes como: Edward G. Robinson, Jack L. Warner, Don Ameche, Henry Fonda, John Ford, Joan Bennett e James Cagney. A essa altura, alguns estúdios também já se movimentavam contra o nazismo. A Warner Brothers iniciara as gravações de Confissões de um Espião Nazista (1939) e Charles Chaplin trabalhava na confecção de O Grande Ditador (1941), ambas produções de propaganda antinazista.

Em contrapartida, estúdios como a Metro-Goldwyn-Mayer ainda nutriam relações com a Alemanha; o processo de ruptura só ocorreu no início de 1940, quando a MGM começou as gravações do seu primeiro filme antinazista, Tempestades d’Alma, lançado em 14 de junho do mesmo ano.

O avanço II Guerra e a perda de mercado na Europa foram cruciais para essa mudança de postura da Metro, bem como de outros estúdios hollywoodianos, o que evidencia a influência dos interesses comerciais na conduta das produtoras. Por outro lado, os anos de 1939 a 1945 também foram marcados por um uso intenso do cinema enquanto ferramenta propagandística pelas potências envolvidas no conflito mundial. No caso da Alemanha, Leni Riefensthal deu continuidade ao seu trabalho em prol do Terceiro Reich.

 

O texto integra atividades do projeto “O Pearl Harbor brasileiro: o cotidiano de Sergipe na Segunda Guerra (1942-1945)”, apoiado pelo CNPq através do Edital Universal 2018.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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