Livre, leve e sozinha

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Por incrível que pareça, eu entendo uma amiga que só começou a viver após os pais morrerem. Sei que é louco isto, mas é a mais pura verdade (ou quase). A mãe morreu quando ela era criança, e, como a vida inteira foi filha única, recebeu do pai todo carinho, atenção, e principalmente, dinheiro. Só que um dia o pai morreu também (infelizmente), pra sorte dela!

Claro que na vida, se temos grandes conflitos com os nossos pais, a morte (deles) às vezes cairá bem, mas ninguém aqui é louco ao ponto de desejar que um pai ou uma mãe morra só pra se ter um pouco de paz. É preferível viver na guerra com eles vivos (pelo menos para algumas pessoas isto é verdade), porém, ninguém aqui também é tão santo para não admitir que algumas mortes, em alguns casos, traz um alívio danado, principalmente, se tiverem como resultado final uma deliciosa herança acompanhada de uma pensão farta. Assim foi o caso da minha amiga.

Passado o luto pela morte do pai idoso, ela resolveu morar uma temporada em São Paulo. Nada de programas culturais, conhecer a Gastronomia Paulista muito menos (ela estava uns sete quilos acima do ideal – mas nada que lhe trouxesse traumas). O deseja apenas um: curtir a vida – sexualmente falando.

Assim, ela começou a peregrinação pelas boites paulistas. Só as melhores. Entradas caríssimas, bebida idem. Conheceu o pó e ficou fascinada. Na adolescência tinha experimentado maconha, mas ficou lesada, meio-lá-meio-cá, faminta e enjoada. Abdicou da erva, preferindo inalar (claro que o corpo um dia mostraria as consequências). Conseguiu se aproximar de promoters da noite paulistana e participar das melhores baladas. Não era mais virgem, porém, com um pai hospitalizado não existia cabeça nenhuma para se pensar em sexo… por isso ela só aproveitou a vida quando se viu sozinha no mundo. O que pode ser triste ou não (depende do ângulo visto).

Com a falta de experiência no amor, não percebeu que os perigos da conquista amorosa estão em todos os cantos, principalmente, os escuros. Nos clubs de sexo experimentou ménages e afins, nas festas privês deu nomes falsos e mentia descaradamente sobre dados básicos de sua vida. Para a maioria era a filha de um “político bem importante de Brasília”. Claro que não precisava enganar ninguém, mas depois de tanta vida verdadeira se permitiu mentir um pouco. Ser leviana consigo mesma. E, na medida do possível, ser feliz.

No decorrer do primeiro mês se apaixonou. O escolhido: um gp carioca residente em São Paulo que cobrava cerca de R$ 300 por programa. Ela pagava sem reclamar, gostava de ter o poder de escolher o que desejasse fazer. Mas aí um dia o coração disparou mais alto e pediu um preço para o cara passar o final de semana… e após dois dias, se apaixonou. Perdeu grana, ok, perdeu, mas tinha esperança de ser amada por ele – o que não rolou, óbvio. O jovem era profissa e não se ligou na nova-libertina-nordestina.

Depois desse primeiro baque vieram mais três consecutivos, em pouco tempo. Ela não desistia de viver uma aventura atrás da outra e mandar para os amigos relatos de suas loucuras em busca de prazer. Cada semana um hotel diferente, compras banalizadas de grifes obsoletas e amores nulos. Uma hora ela iria cansar daquilo tudo, mas quando se lembrava do pai morrendo, dos dias no hospital e do farto depósito que caia mensalmente em sua conta, ela respirava fundo e comprava mais um Veuve Clicquot, edição luxo, para celebrar a vida.

Às vezes o que precisamos são momentos de extrema futilidade. Quando se perde a infância sem uma mãe presente ou a adolescência cuidando de um pai doente, o que se quer mesmo, na vida adulta, é o simples prazer de ser livre para escolher qualquer coisa, inclusive se achar apaixonada por uma ilusão. Quantas vezes investimos em algo sério, depositamos nosso tempo, dedicando cada pensamento em construir algo digno do socialmente almejado e anos depois descobrimos que nada era, de fato, real? Quantos namoros, noivados e casamentos acabam depois de tanto investimento? Então por que precisamos julgar alguém, que mesmo sem discernimento algum, resolveu viver e torrar uma boa grana sendo feliz?

Cada um sabe onde seu sapato aperta e o seu nível de carência afetiva pode não ser nada para outra pessoa. Carência não se mede. Tudo é relativo e depende do momento vivido. O certo é que se ganha mais experimentando viver do que imaginando como seria se…!

Se eu pudesse abraçar minha amiga agora, diria em seu ouvido, bem baixinho: aproveite, pois só temos uma única vida e podemos errar sim, porque é errando que construímos nossa história. Só pediria a ela que cuidasse mais da grana, pois no Brasil de hoje não podemos extrapolar nas contas, nem fazer planos longos. Não dá pra prever o dia financeiro de amanhã… mas de resto, que ela seja feliz quicando pelas noites festivas do mundo, se apaixonando muito e sofrendo apenas o essencial!

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