LUCIANO BARRETO SETENTÃO

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Encontrei Pascoalzinho Nabuco na padaria onde compro pão todas as tardes e falávamos dos seus pais que eu havia encontrado nos 70 anos de Luciano Barreto. Ele me disse que se Luciano Barreto Jr. fosse vivo seria um festão. Um festão, foi sim. Mas fiquei pensando na frase dele. E lembrei que realmente seria uma festa para o pai, um setentão com cara de 50. A verdade é que  Luciano Barreto está muito bem. Deve ser fruto das maçãs que ele come todos os dias, pois dizem que a maçã é um santo remédio para a longevidade. O que me intriga neste 70 anos de Luciano Barreto não é o sucesso empresarial e o poder econômico que ele detém; o que me chama mesmo a atenção é a forma como ele conduz a sua vida de maneira aparentemente simples. Soube que ao viajar para cidades que ele não conhece as estradas, costuma alugar um carro e dirigir, ele mesmo, conhecendo e desbravando mundos novos. Eu sempre acreditei que viajar é perder-se, é sair sem rumo, sem destino, em busca do tempo perdido, lembrando Marcel Proust. Luciano Barreto sempre foi este desbravador, ainda que uma dor latente daquele que a canção diz que “naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”, se faça presente todos os dias. Nunca vi Luciano chorando. Olhos, às vezes, na retina, em lágrimas, mas nada de choro compulsivo, humano. O seu choro me parece sempre ser para dentro. Aos setenta ele parece já ter caminhado a metade da estrada. Lembra a epígrafe do livro biográfico sobre Clarice de Abraham Abulafia em 1290, que me deixa  muito à vontade para citar. “Limpa tuas vestes e, se possível, que todas as peças de roupa sejam brancas, pois isso ajuda a conduzir o coração ao temor de Deus e ao amor a Deus. Se é noite, acende muitas luzes, até que tudo fique claro. Toma então em tuas mãos, a pena, a tinta e uma mesa e que estás destinado a servir a Deus na alegria do coração. Agora começa a combinar umas poucas ou muitas letras, a permutá-las e combiná-las até que teu coração se aqueça. Então atenta para os movimentos delas e para o que podes extrair delas ao movê-las. E quanto sentires que teu coração já está aquecido e quando vires que pelas combinações de letras podes apreender novas coisas que por ti próprio ou pela tradição humana não terias como saber e, quando portanto estiveres preparado para receber o influxo do poder divino que flui para o teu interior, então põe todo o teu pensamento mais verdadeiro a imaginar em teu coração o Nome e Seus anjos exaltados como se eles fossem seres humanos sentados, ou em pé, à tua frente.” Assim posso chamar de amigo, Luciano Barreto, e mesmo quando ligam para dizer  “por que tanta adulação com este homem?”. Respondo apenas: aprendi a gostar de quem gosta de pessoas. E não das coisas. Luciano é este – um setentão com alma de criança. Basta ver quando seu neto o abraça, o afeto que se une aos dois pela espiritualidade e o amor.Sei que “naquela mesa está faltando ele”, mas mesmo assim, acredito piamente que Deus não dá frio que não possamos suportar. Daí que não podemos ter tudo na vida. Dinheiro, fama, família, conquistas. O que levamos? Quase nada. Apenas aos setenta, Luciano tem a maturidade de não errar mais. Ou errar menos. Afinal, um setentão como ele sabe que a vida é “madeira de dar em doido”. Por isso caminha o homem sobre a selva de Dante sabendo “que no meio do caminho desta vida, por uma selva escura caminhei”. Posso dizer de Luciano Barreto: caminhou e venceu. Que importa mais?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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