Luiz Americano, um sergipano na história da MPB

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Há 59 anos, no dia 29 de março de 1960, morria no Rio de Janeiro o músico Luiz Americano Rego. Nascido em Itabaiana, ele tinha 60 anos e foi, além de compositor, um dos mais virtuosos clarinetistas e saxofonistas brasileiros.

Ele fez sucesso como compositor, intérprete e foi um solista de destaque e muito solicitado, gravando com os mais prestigiados cantores e orquestras da época. Atuou no teatro musicado e participou como músico de estúdio das orquestras da Rádio Mayrink Veiga, entre os anos 1930-1950, e da Rádio Nacional, até a sua morte. Ainda na década de 20 foi músico da Rádio Sociedade, a primeira do Brasil.

Segundo o “Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira”, o pai de Luiz Americano era mestre de banda em Aracaju e foi com ele que começou a estudar música aos 13 anos. Em 1918 foi servir ao Exército e entrou para a banda do seu quartel na capital sergipana. Serviu também em Maceió e, em 1921, foi transferido para o 3º Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro.

Depois que saiu do Exército, permaneceu no Rio e passou a atuar como instrumentista em diferentes orquestras e acompanhando algumas gravações realizadas na Odeon, onde gravou seu primeiro disco em 1927, interpretando ao saxofone a valsa “Leda” e o choro “Sentimento”, ambos de sua autoria.

Em 1928, foi para a Argentina, atuando na orquestra do baterista norte-americano Gordon Stretton. Trabalhou também com a orquestra do argentino Adolfo Carabelli. E atuou com Pixinguinha, Donga e João da Bahiana no Cabaré Assírio. Em 1929, gravou, ao clarinete, o choro “Dindinha” e, ao saxofone, o choro “Lysses”, de sua autoria.

Regressou ao Rio de Janeiro em 1930, quando formou um conjunto de danças denominado American Jazz Orquestra, que durou dois anos.  Em 1931, gravou na RCA Victor, de sua autoria, o choro “Numa serenata” e a valsa “Lágrimas de virgem”, que foi uma das músicas de destaque do ano.

Em 1932, passou a integrar o Grupo da Velha Guarda atuando ao lado de Pixinguinha, Donga, entre outros. Logo integrou o grupo Diabos do Céu, formado por oito músicos também regidos por Pixinguinha. No mesmo ano, gravou no saxofone o choro “Eu te quero bem” e no clarinete, a valsa “Melodia de um olhar”, ambos de sua autoria.

Nessa época, realizou gravações para a Odeon mostrando um repertório próprio no qual se destacam o choro “É do que há” e a outra vez a valsa “Lágrimas de virgem”. Esta lhe rendeu em direitos autorais o suficiente para comprar a casa em que residiu no bairro de Brás de Pina.

Em 1933, Sérgio Brito colocou letra na valsa “Ao luar”, que foi gravada na Odeon pelo cantor Castro Barbosa. Em 1934, gravou de sua autoria o choro “De passagem pela Arábia” e a valsa “Léa”. No mesmo ano, gravou do maestro Radamés Gnattali o choro “Serenata no Joá” e a valsa “Vilma”.

Em 1936, foi contratado como músico da Rádio Transmissora do Rio de Janeiro. No mesmo ano acompanhou a cantora Carmen Miranda no filme “Alô, Alô, Brasil”. Em 1938, a “Pequena Notável” o convidaria para ir com ela aos Estados Unidos, mas ele que já era conhecido como o homem da “clarineta de ouro” preferiu continuar no Rio.

Em 1937, integrou o Trio Carioca, com Radamés Gnattali ao piano e Luciano Perrone na bateria, numa inusitada experiência musical para a época. A idéia do grupo surgiu de Mister Evans, diretor da gravadora RCA Victor, inspirado no sucesso mundial do trio do clarinetista Benny Goodman.  O Trio Carioca gravou apenas um disco com os choros “Cabuloso” e “Recordando”, de Radamés Gnattali.

No mesmo ano gravou de Luperce Miranda o choro “Alma do norte” e participou como instrumentista da gravação da marcha “Mamãe eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva. Gravou também com o Trio de Saxofones, criado por ele, a valsa “Irmã branca”, de Lauro Paiva, e o choro “Eu te quero bem”, de sua autoria.

Em 1938, gravou, também de sua autoria, a rumba “Meu Brasil” e o choro “O pandeiro do João da Bahiana”, uma homenagem ao pandeirista pioneiro do samba carioca e, de Vicente Paiva, a valsa “Como é bom viver” e o choro “Um chorinho na Urca”.

Em 1940, fez parte do grupo de músicos escolhidos por Pixinguinha, a pedido do maestro Heitor Villa-Lobos, para realizar apresentações e gravações com o maestro britânico Leopold Stokowski, que visitava o Brasil. No mesmo ano gravou ao saxofone a valsa “Vertigem”, de Donga.

Participou de programas na Rádio Record, em São Paulo, e gravou com a Bandinha do Guedes na gravadora Colúmbia. Também foi da Rádio Globo.

Luiz Americano foi o solista na introdução do fox “Renúncia”, sucesso que projetou o cantor Nélson Gonçalves, em 1942. Também acompanhou Silvio Caldas, Francisco Alves e Cartola. E, além de Pixinguinha, sempre esteve muito próximo de Jacob do Bandolim.

Em 1944, ele acompanhou com seu conjunto a cantora Aracy de Almeida na gravação dos sambas “O galo onde canta janta”, de Roberto Cunha e Isidoro de Freitas, e “Na parede da igrejinha”, de Ary Barroso. No ano seguinte, também com seu conjunto, acompanhou Aracy de Almeida na gravação dos sambas “Ele disse adeus”, de Marino Pinto e Claudionor Cruz, e “João Cegonha”, de Rubens Soares e David Nasser.

Em 1948, gravou na Continental, de sua autoria, o choro fandango “A clarineta do Garapa” e o choro polca “Um baile na Covanca”. No ano seguinte gravou com Raul de Barros e Sua Orquestra, de sua autoria, os choros “Estes são outros quinhentos” e “Não está com tudo”.

Ele não parava de ser solicitado e, no mesmo ano, fez parte do elenco e como músico do filme “E o mundo se diverte”, ao lado de Grande Otelo e Oscarito.

Em 1953, foi contratado pela gravadora Todamérica, onde estreou com os choros “Saxofone, por que choras?”, de Ratinho, e “É do que há”, de sua autoria, e as valsas “Aurora”, de Zequinha de Abreu, e “Lágrimas de virgem”, de sua autoria. Lançou pela RCA Victor os LPs “Chora, saxofone” e “Luiz Americano e seu conjunto”.

Luiz Americano morreu provavelmente de cirrose, segundo noticiou o jornal “O Globo” na época, no Hospital do Radialista, onde ficara internado por mais de dois meses. Deixou viúva Erika Rego e três filhos, Leda, Lysses e Iolanda, frutos do primeiro casamento com Dulcineia. Foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Cemitério do Caju), zona norte do Rio.

Ainda no começo dos anos 1960, a RCA lhe prestou homenagem editando elepê com seus maiores sucessos. Em 2001, foi homenageado pelo selo Intercdrecords com o CD “Luiz Americano – Saxofone, por que choras?”, com 14 das suas principais interpretações.

Ary Barroso, em entrevista para a “Revista da Música Popular”, em 1954, citou Luiz Americano como um dos mais importantes músicos da música popular brasileira.

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