Luiz Eduardo Costa e o crime da Rua de Campos.

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Quando o jornalista Luiz Eduardo Costa escreveu no Jornal do Dia uma série de artigos sobre o crime da Rua de Campos, eu não consegui acompanhar a publicação em sua totalidade. Agora, fruto de um encontro fortuito com o escritor, consegui ler a totalidade do seu trabalho numa única sentada.

 

São 36 capítulos cheios de dados, conclusões e interpretações, evidenciando um trabalho minucioso de pesquisa de documentos e livros, entremeados de depoimentos dos que conviveram mais de perto com o tema, seja como partícipes dos fatos, seja mediante testemunhos incompletos de feitos “dantescos” mas observados, por bem assistidos e melhor interpretados. E que permanecem tão incompletos quão insuficientemente explicitados, porque desvestidos não foram ainda do pouco ora apurado.

 

Porque o tempo segue inconcluso, havendo ainda espaço para se mascarar a cena e contaminar o tema, como se fora um enredo de cinema, às avessas, mal feito ou feito às pressas. Só para dizer, que na impossibilidade de concluir que o crime não compensa, é sempre possível, rapidamente solucionar um problema, apurar, julgar e punir, em perfeita sanidade, matando-se logo o culpado por ter já o crime confessado.

 

Valendo tudo, tudo valendo a pena, aplaudindo inclusive o braço armado estatal quando exercendo uma crueldade inquisitorial, digna da crueldade medieval, “silenciava” o que confessava, na pancada e no cacete sem compressa, tudo arrimado por geral aparato judicial, legal e republicano, como se valesse e prevalecesse no bestiário sergipano daquele tempo, um endosso quase total, geral e inequívoco, de modo a coonestar que o crime sempre pode compensar desde que a alma do infeliz seja pequena.

 

Na verdade a alma sergipana se apequenara sobremodo, naqueles tempos de ódios e impunidades, e o crime da Rua de Campos serviria de desfecho, uma espécie de chave de cobre azinhavrado a concluir momentos de barbárie e violência, jamais apurados e nunca esquecidos.

 

E o trabalho de Luiz Eduardo resgata, com equilíbrio, sensatez e seriedade, um tema que está a suscitar pesquisas e discussões, afinal talvez não se conheça um crime de maior repercussão local, desde o assassinato de Fausto Cardoso em 1906, aí seguindo as momentosas incursões revolucionárias de Maynard Gomes, de 1924 e 1926, liderando as insatisfações tenentistas, e o nosso 13 de Julho.

 

Acontecido no mesmo céu e quase na mesma luz, o cenário do crime do médico Carlos Firpo não descortina um tempo dos sonhos românticos, nutrido no sangue generoso, heróico e libertário vertido por Fausto, nem a quadra de luta e de glória do movimento tenentista. Ali não se tenta sublevar as classes oprimidas para a construção de uma pátria mais justa, mais fraterna e mais repartida.

 

No cenário do crime da Rua de Campos há uma degradação de idéias e de sonhos. Os móveis podiam ser os mesmos, as edificações sem maiores mudanças, mas os homens se apequenaram e se fizeram bem miúdos. E como pigmeus morais, se tornaram vergonhosos e permanecem envergonhados, encenando personagens trágicos, quanto cômicos, desprovidos de grandeza, por degradantes no agir, demonstrando que já não vigia em Sergipe, um procênio de luzes e esperança.

 

Pelo contrário, os idos de 1958 se caracterizariam por um retorno aos ruídos abissais por deletérios, dos vitupérios inquisitoriais, de crimes institucionais. Parecia que uma bula demoníaca erigira um extrato original do Santo Ofício ou do vandalismo medieval, e de tantos outros ofícios nunca santos, mas em maldade descomunal, em alvedrios de arrepios, de desvios e de desbrios, em calafrios de maldade, minudência de monstruosidade, incidência que a humanidade já pensava carcomida e roída, afinal era o tempo do pós-guerra e do descortino do Holocausto, mas que no encausto daquele tempo, permanecera como monstruosa mancha, tisnando permanentemente no âmago desses homens, que no mando ou na execução, quando não falseavam ou materializavam, contemplavam e assistiam com dolosa omissão e culposa indiferença, em muita ciência e contemplação.

 

Sim, porque houve momento para tudo. Momento de ficção, invejando Agatha Christie e Conan Doyle, com bigode, mas sem a pança de Hercule Poirot, inquiridores e investigadores de sagacidade e premonição superiores a Dr. Watson e a Sherlock Holmes, sem lupa e sem cachimbo, com direito até a um alemão não teutão, mas glutão e espancador, detetives burlescos e rocambolescos a invejar Yrving Le Roy e Shell Scott, Tin Tin, Dupont e Dupond, os desenhos da revista X9, entremeados por ocultação de cadáver, em meio ao léu e à escuridão, e até as memórias sensuais de Giselle, a espiã nua que abalou Paris.

 

Tudo, porque, safados e caluniadores contumazes, junto a muitos incapazes e outros muito capazes de tudo, ousaram até desenhar como libertina a esposa do assassinado, D. Milena Mandarino, uma mulher até então reverenciada e bem educada, e bastante respeitada na sociedade de então, e que assim sempre permaneceu em retidão e em caráter.

 

E o relato de Luiz Eduardo Costa não tira nem acrescenta, narrando os fatos, agora municiado de provas e documentos, num estudo rigoroso e pormenorizado. História eivada de muitas estórias, que relembro auscultando também o meu passado, afinal bem mais jovem que ele, eu também vivera intensamente aqueles tempos, ouvindo muitos relatos políticos da minha circundância e lendo os inúmeros jornais assinados em minha residência.

 

Porque naquele tempo, em fato raro àquela época, e que ainda em mim persiste, recebia-se na minha residência, por assinatura, todos os jornais locais, começando pelo Diário de Sergipe do PSD, o partido da oposição, o Correio de Aracaju da UDN, o partido do Governador Leandro Maciel, A Cruzada, o semanário da Diocese, O Nordeste do PTB e do Deputado Francisco Macedo, o Sergipe Jornal do Dr. Paulo Costa e a Gazeta, então Socialista de Orlando Dantas.

 

Por outro lado, e porque não se falava de uma melhor ocupação, o rádio virara a única diversão, com os seus relatos ouvidos por homens, mulheres e meninos, seja na estatal PRJ-6Rádio Difusora, a mais moderada com a voz terna de Santos Santana, seja nos exageros da ZY-20 – Rádio Liberdade com Silva Lima e o seu “Informativo Cinzano” das 12h25min destacado por trinado Wagneriano: “No ar o informativo Cinzano, com as primeiras notícias da tarde de hoje e as última da manhã que passou” e com Santos Mendonça no seu famoso programa “Calendário”, programa político, entremeado por variedades e curiosidades, de provérbios e santos do dia, que se iniciava às vinte horas, após o término de “A voz do Brasil”, que naquele período até exibia audiência integral em todos os receptores sergipanos.

 

E o crime da Rua de Campos ocupara todos os rádios e jornais daquela época. O assassinado, logo se soube, fora o médico Carlos Firpo, homem de muitos méritos e bons conceitos, diretor do Hospital Santa Isabel, morto com requintes de crueldade e covardia, justamente quando dormia no recesso de seu lar, sendo esfaqueado no abdome, sendo-lhe expostas as vísceras em incontrolável hemorragia.

 

A cidade acordara em polvorosa. O assassinato ocorrera na madrugada do dia 29 de abril de 1958, uma terça-feira, e logo a notícia se espalhou tendo eu tomado conhecimento quando encontrei alguns colegas em demanda do Educandário Brasília, colégio das professoras Helena Barreto, Alaíde e Lourdinha Oliveira, onde eu concluía o curso primário.

 

Quando eu soube dos fatos, o tema me parecera distante, afinal eu não conhecia o assassinado, que alguns pronunciavam Dr. Firpo e outros Dr. Filtro.

 

Mas, a notícia vagarosamente decantou e foi filtrada. O médico, esfaqueado covardemente, fora Prefeito de Aracaju num tempo passado e manifestara alguma pretensão política, filiado que era à União Democrática Nacional (UDN) que governava o estado, conjugando realização e perseguição. Realidades discutidas amplamente na minha casa, sempre cheia de correligionários e políticos, afinal meu pai, Cabral Machado, era neste tempo um Deputado Estadual de muita importância, discursando diariamente na Assembléia Legislativa, como líder da oposição e do Partido Social Democrático (PSD), fustigando com eloqüência, elegância e cultura os desmandos violentos perpetrados pelos liderados do então Governador, Leandro Maynard Maciel.

 

No relato de Luiz Eduardo, pode-se perceber muitos destes ensaios de violência e de desmando, como o assassinato impune de Campos na Barra dos Coqueiros, a perseguição aos Cearás (Baltazar, Zezé, Fenelon, Adolfo e Percílio) em Ribeirópolis, o cerco a Pititó e a destruição da Usina Várzea Grande pertencente a seu pai o industrial, Pedro Ribeiro, o abrigo dos perseguidos no município de Serra Negra na Bahia, feudo do Cel. João Maria e do General Liberato Carvalho, enfim diversos nomes a traduzir e sofrer violências e perseguições políticas.

 

Mas, a despeito de tanta violência, o crime da Rua de Campos não se inseria no contexto político de polarização RABO BRANCO X CARA PRETA, como assim se tratavam pessedistas e udenistas.

 

Sobre o tema o escritor Ariosvaldo Figueiredo, citando o “Sergipe Progressista” de João Sales de Campos, assim escreveu: “o rocambolesco e brutal crime deixou perplexa a ordeira e pacata gente sergipana”.

 

E a pacata gente sergipana é bem citada no texto de Luiz Eduardo, desde o grito de dor do ferido até os erros desferidos no processo e na sua apuração.

 

O ferido, dizem os depoimentos desencontrados, homem forte e destemido agarrara-se com o sicário esfaqueador que fraquejara e quase não conseguira lograr tento ao cruel intento, fugindo atabalhoadamente pela Rua de Campos, em demanda do rio Sergipe, sendo testemunhado por vizinhos do médico, acordados por seus gritos e de seus familiares.

 

Entre os primeiros a socorrer, estavam o médico Aloísio Andrade e o comerciante Antônio Barreto Fontes, por vizinhos e amigos mais próximos. 

 

Tentam socorrer, mas o caso envolve presteza de atendimento, requer ajuda cirúrgica e urgente, não é trabalho para clinico ou cardiologista.

 

“Barreto, chame Machado, peça que ele cuide das minhas filhas, diga a Milena que eu gosto muito dela.”, repete angustiado o ferido.

 

Machado era o médico José Machado de Souza, então Vice-Governador do Estado, seu grande amigo, dedicado pediatra e humanista de escol. 

 

Chame Canuto”, dirá depois, reconhecendo a necessidade da presteza operatória do cirurgião Canuto Garcia Moreno, que se apressara junto ao anestesista Fernando Sampaio para realizar a cirurgia.

 

Mas, o chamado e o socorro se faziam difíceis; os fios do telefone tinham sido cortados pelos matadores, o SAMDU – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência não fora tempestivamente avisado e no sufoco da agonia, ninguém se lembrara, que na própria garagem da casa do ferido estava guardada uma ambulância.

 

O fato é que não houve salvação para o médico Carlos Firpo, que faleceu exangue aos 49 anos de idade, às 03h20min segundo relato citado do joalheiro Antônio Fontes um dos primeiros a socorrê-lo. Não houvera tempo de “estancar a hemorragia, costurar os intestinos rasgados e recuperar um rim atingidos pela faca do assassino.”

 

O enterro do médico, segundo Luiz Eduardo, fora carregado no ombro pelos amigos transladando o féretro da Rua de Campos para o cemitério Santa Isabel.

 

Nas minhas lembranças infantís de residente à Rua de Pacatuba 192, vi o cortejo passar no velho carro fúnebre de véus violáceos e penachos arroxeadas, resquício de beleza lúgubre da belle epoque, uma espécie de carro alegórico operístico, bastante extravagante e de profundo mau gosto, que Aracaju naquele tempo exibia.

 

Neste tempo Aracaju chamava a atenção por estas três relíquias: A primeira era o “santo cabelão”, a resistente imagem do Senhor dos Passados, abrigada ainda hoje no altar lateral da Igreja São Salvador, que muito triste e bem mais medonha, transmite o sofrimento de Jesus carregando a cruz nas “procissões do encontro”. A segunda, o cadilac de Jusse Faro,carregando o governador de plantão nos desfiles de Sete de Setembro e a terceira era este carro fúnebre de funesta memória.

 

Pois bem! Em minhas memórias, vejo este carro funerário trazendo o caixão do Dr. Carlos Firpo que enguiçando frente a minha casa, ali se imobilizou, apagando o fogo e necessitando ser empurrado por falha de ignição, tendo eu ouvido de um circunstante, que isso se devia à presença do matador assistindo a passagem do cortejo.

 

Como conseqüência da dor a cidade parara, as escolas liberaram os alunos, as emissoras de rádio tocaram exclusivamente músicas clássicas e o cortejo fora seguido por mais de uma centena de automóveis, um recorde logo esquecido, igual às falas dos oradores à beira do túmulo.

 

Mas, se havia muita comoção, surgiam logo as primeiras suspeitas. Fora um crime político?! Fora uma morte por vingança? Alguma motivação relacionada com herança! Teria sido um crime passional?! Cherchez la femme! – peroravam doutos e canalhas, para ampliação do mistério em burburinho.

 

E o desfecho se deu rápido, misturando tudo sem elucidar quase nada. Pelos relatos agora bem reavivados tinham sido dois os matadores. Eles tinham sido vistos assistindo a passagem do ataúde em demanda do Cemitério Santa Isabel.

 

Testemunhas ouviram o espanto dos dois forasteiros ao constatar o sofrimento do povão que carpia o excelente conceito do médico assassinado. Tinham matado um homem importante, muito bom e caridoso, um homem destinado só a minorar o sofrimentos dos pobres e a recuperar as suas vidas. E o remorso e o medo começaram a assolar os matadores.

 

Os assassinos não são daqui, saber-se-á depois. São de fora, são sertanejos de Itapicurú D’Água, em Jeremoabo, lá pras bandas do Raso da Catarina, não muito distante da usina recém construída de Paulo Afonso na Bahia.

 

Estão hospedados na pensão de Dona Estela, saber-se-á também, na Rua Itabaianinha entre Santa Rosa e Florentino Menezes, e queriam viajar logo, retornar para casa com urgência, porque a curiosidade e o jeito de ambos já estão despertando suspeitas, sendo quase descobertos por Manoel Pereira de Figueiredo, Diretor do Departamento de Trânsito e de seu motorista, o guarda civil José Bispo dos Santos.

 

Para fugir, alugam um carro de praça, como assim se chamavam os táxis de então. O contratado é Daniel, motorista sediado na Praça Serigy para levá-los ao desertão baiano em viagem noturna.

 

Firmado o acordo do pagamento, Daniel abastece o automóvel, um Ford 1942, chapa 11-50 de cor preta, no posto de Berro Grosso na proximidade do cemitério Santa Isabel, segundo relato detalhado de Luiz Eduardo.

 

A viagem fora tranqüila, tendo Daniel desconfiado porque, rotineiramente, seus passageiros se comportavam de uma maneira muito esquisita, demonstrando algum temor, sobretudo na passagem do Posto Fiscal, quando o carro tivera que aguardar a liberação policial da corrente, que permanecia erguida interrompendo o fluxo da estrada.

 

Nada, porém, iria interromper a viagem, mesmo a vigilância do Posto Fiscal feita pelo Sargento Celso e pelo Cabo Mirabeau, ambos conhecidos do motorista Daniel que identificara os seus passageiros como comerciantes em Paulo Afonso.

 

Mas, a viagem cansativa e as conversas mal trocadas, com a preocupação de novos cercos policiais, tudo evidenciava uma suspeita crescente em Daniel que dirigia sem parar, chegando a Carira, depois das nove horas da noite, prosseguindo agora em sobressalto em plena noite clara de lua cheia, cenário desértico da Malhada Nova de então.

 

Em alguns momentos, dirá depois o motorista, pensara em pedir socorro a alguém. Mas, quem lhe socorreria?!

 

Finalmente o carro atingiu o Posto Fiscal de Jeremoabo onde Daniel encontrou um seu conhecido, o soldado Adalberto, que também conhecia os passageiros e com eles travou animada conversa.

E a viagem terminaria já bem mais calma, por volta da meia noite, quando chegaram ao povoado de Itapicurú D’Água, desprovido de iluminação elétrica.

 

Ali Daniel recusaria o pernoite, na única casada caiada do arruado, tendo o chofer acompanhado de longe os passageiros que ali adentravam.

 

Neste ponto da narrativa, vale destacar que o relato detalhista do jornalista toma formas beletristas de poeta, descrevendo o alívio do motorista, com a vida conservada e a carteira abastecida com os três mil e quinhentos cruzeiros do pagamento da corrida, ouvindo no exato tempo daquela hora “o canto sincopado e estridente de um bando de acauãs festejando a noite de luar esbranquiçada, luminosamente espalhando-se sobre a vastidão das caatingas”.

 

Para o poeta Aidenor Aires, nascido em Riachão das Neves – Bahia, membro da Academia Goiana de Letras e Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, o canto da acauã “Com sua voz de litanias e incelenças dá à tarde um tom de aflorada infância. Canta seu verso de prístina memória, que aos ouvidos dos avós soava como badaladas de réquiem. ‘Vai à cova!… Vai à cova!… Vai à cova! ’ Seu responsório não invoca mais as mortes humanas, que disto se encarrega o trânsito, as balas, as jovens e anciãs enfermidades. Sem necessidade de ajuda os desalentados viventes vão se deixando levar sem resistência. Mas a acauã, no entardecer, não desata inutilmente sua voz de quase invisível ventre, de fugaz instrumento de penas. Recorda um tempo pueril de matas, campinas, rios e córregos”.

 

E prossegue o poeta para quem a acauã captura “por retalhos ou relâmpagos de tempo, a memória da extinta floresta, os ecos dos ermos e uma remanescente infância.” E os homens alheados em suas certezas breves, com a alma encarcerada no concreto, no asfalto e na ganância recolhem nesta “interferência lírica” um arrepio de prístinos presságios.

 

“Que busca a acuada acauã no onomatopaico canto: “Vai à cova!… Vai à cova!… Vai à cova!..”?

 

Estaria o pássaro querendo “despertar os homens,… acordar os meninos asfixiados pela pressa, os compromissos e as gravatas,…”? Estaria a semear “no bochorno da tarde evocação de afetos, memento de que ainda gozamos mistérios”?

 

Seria um convite ao passado, ao “infantil temor agasalhável em cobertores e zelos maternais,…  infância que (só ela) pode resgatar o mundo”?

 

Sim, porque só os bardos compreendem o alarido solitário da acauã, afinal os vates também cantam sozinhos e “vão ao lado dos homens com suas liras rotas, suas amadas pálidas cantando para despertar as manhãs, a lembrança das amadas ceifadas pelo olvido e a morte.”

 

Iguais à acauã, os poetas “obedecem às estações, perscrutam vozes que se armam no silêncio, e crêem nas noites e nas alvoradas.”

 

Para Luiz Eduardo Costa, porém, o chilreio da acauã naquela madrugada, calara fundo na alma do motorista Daniel, abafando-lhe o sono e dirimindo o seu cansaço. Era preciso retornar a Aracaju, partilhar sua experiência de transportar homens tão misteriosos e circunspetos. Seriam eles os matadores do Dr. Carlos Firpo? Perguntava-se com as acauãs a repetir: “Vai à cova!… Vai à cova!… Vai à cova!”

 

Passando de volta pelo Posto Fiscal de Jeremoabo, e recuperando os seus documentos que ali tinham sido retidos, toma conhecimento pelo guarda Adalberto, que os seus passageiros eram pessoas bem conhecidas naquela região.

 

O mais alto, o troncudo e enfarruscado era Euclides Timóteo, “indivíduo de péssima fama, matador, pistoleiro de aluguel”, muito protegido na área, “que há menos de um mês assassinara um soldado em Paulo Afonso”, sem que nada lhe acontecesse.

 

Quanto ao outro, o matuto baixinho, de compleição franzina, gestos tolos e mãos calosas, tratava-se de Pereirinha, “trabalhador marteleiro da CHESF”, indivíduo gozando de bons antecedentes e tendo fama de pacato.

 

Estava então solucionada toda a charada; os dois apressados viajantes tinham algum envolvimento com a morte do médico Carlos Firpo. Era preciso retornar rápido, contar logo a estória e livrar-se de uma possível acusação de conluio.

 

E a notícia correu bem mais rápida do que se esperava. O motorista, que cansado resolvera dormir em Frei Paulo na casa de uma irmã ali residente, é acordado pela madrugada por uma caravana de jipeiros, comandados por Antônio Mendonça, filho do deputado e baluarte udenista, Euclides Paes Mendonça de Itabaiana, que vindo de São Paulo, soubera dos fatos, justamente quando cruzara o Posto Fiscal de Jeremoabo.

 

A notícia foi logo recebida em Aracaju, tendo o motorista contado o feito na Secretaria de Segurança Pública, naquele tempo chamada Chefatura de Polícia, na Rua Duque de Caxias, na presença do Deputado Filadelfo Dória, do Governador Leandro Maciel, dos Secretários de Estado Antônio Machado, da Segurança Pública, e Heribaldo Vieira, da Justiça, do Coronel Aviador Afonso Ferreira, amigos do assassinado, e de tantos outros.

 

O governador imediatamente solicita providências. Uma força tarefa policial é logo formada com a missão de prender e seqüestrar os suspeitos, numa providência secreta e incógnita em invasão territorial e jurisdicional ao Estado da Bahia, operação realizada com sucesso e sem traumas, comandada pelo então delegado, José Nolasco de Carvalho, um jovem nascido em Jeremoabo, que já prenunciava uma longa carreira de vitórias, culminando com a desembargadoria, sempre respeitado e muito considerado, por moderação, equilíbrio e eficiência.

 

Poder-se-á dizer que houve uma invasão territorial e jurisdicional da polícia sergipana às terras da Bahia. Poderia ser diferente, se um dos suspeitos era um indivíduo com amplo amparo da polícia baiana?

 

Assim, numa atuação semelhante àquela depois imitada pelo Mossad, o serviço de inteligência israelense, quando do seqüestro e captura do carrasco nazista Adolf Eichmann, em solo tangueiro, a guarda de Sergipe, sem milongas, nem delongas, invadiu o solo irmão, e menos forasteiro, e sem tisnar o sobrecenho, nem gerar conflito e protestos como o fizera a inteligência judia na Argentina, a polícia sergipana lograra melhor sucesso.

 

Sim, porque os agentes do Mossad tinham uma estrutura sofisticada envolvendo grande rede de investigação, enquanto a especializada sergipana usaria um jeep apenas, conduzido por um civil, o motorista Daniel, era comandada por um jovem delegado, o Dr. Nolasco de Carvalho, e consistia do Major Ananias, do Tenente Batista e do Sargento Feitosa; cinco homens sem maior especialização investigativa, apertados num jeep, percorrendo estradas incômodas de piçarra.

 

Mas, o sucesso foi total. Dois dias após o assassinato do Dr. Firpo, e sem a necessidade de realizar desforço ou violência, a polícia sergipana retorna a Aracaju, trazendo os suspeitos do assassínio, agora devidamente identificados; Euclides Timóteo de Lima e José Pereira dos Santos, o Pereirinha, perfazendo sete homens apinhados no mesmo jeep.

 

Se a estória terminasse aqui, só existiriam louvores a rememorar, no entanto, em pleno estado de Direito, com todas as instituições funcionando livre e republicanamente, foram banidos a impessoalidade do labor estatal e o livre inquérito jurisdicional, e Sergipe testemunhou cenas terríveis, comparáveis às investigações realizadas pela Tcheka e pela Gestapo recém-temporâneas, ou pelos DOPS e DOI-COI que ressurgiriam uma década depois, e até os recentes noticiários de abusos de tortura do Ex-Presidente Bush em Abu Ghraib e na prisão de Guantánamo.

 

Mas, se há fatos deletérios, depravados e desalmados, há também feitos engraçados que Luiz Eduardo relembra a exaustão. O secretário de Segurança Pública Antônio Machado, por circunstância de surdez, fora afastado do comando do inquérito, substituído pelo Secretário da Justiça, Heribaldo Vieira, um “peregrino lírico” segundo sua destacada obra poética, publicada e bem referida. Dizia-se que Vieira tinha o ouvido bem afinado e melhor captaria o “canto” dos meliantes.

 

Por outro lado uma multidão, e os nomes são citados aos montes pelo jornalista, um bocado de gente assistiu os inquéritos, conduzidos na estrada erma que em direção à Atalaia, atingia a Cerâmica Santa Cruz, porque a cidade, igual a hoje, era limitada pelo Rio Sergipe, mas acabava na Chica Chaves, no Oratório de Bebé e no fundo da Igreja São José, e o resto era um descampado de brancas areias, lodosas lagoas e viveiros de mariscos, acrescidos de marinha que por muito tempo ainda permaneceriam sem aterramento ou edificação.

 

De modo que os inquéritos foram conduzidos à noite, em terras ermas, onde os “cantos” podiam ser trinados em vibrato de pulmões e diafragma, a pleno grito de choro e sem socorro.

 

Uma “cena dantesca”, dirá um dos muitos circunstantes, que tudo assistira sobre os fachos de luz dos faróis dos automóveis, iluminando a arena e a perversidade de toda a cena. Depoimentos assim tomados não careciam de tabelião ou escrivão, afinal quem o poderia transcrever a plena escuridão?

 

Afinal desvendou-se tudo. O matador fora Pereirinha, o tolo matuto que nada sabia e ali só entrara para ganhar um troco, mas ao esfaquear o médico sem defesa ou piedade, matara um homem que jamais odiara ou conhecera.

 

Quanto a Euclides Timóteo, este sabia tudo. Sabia quem mandara, e a circunstância do acerto do crime. Mas, o depoente sabia muito mais. Ele houvera prestado seus bons serviços de matador a muita gente.

 

Há quem diga, inclusive, que entre a assistência da tortura, o preso descobrira um seu conhecido, pessoa que num tempo anterior teria utilizado os seus préstimos. Mas agora, este novo dado o tornaria perigoso e imprestável. Era preciso “calar este menestrel” que poderia “cantar” demais.

 

E assim Timóteo morreu de pancada, na cilha e na trilha, no local que passaria a ser chamada de “Estrada Timoteana”, hoje perdida e esquecida, mas ainda facilmente localizada.

 

A chefia do aparato policial dirá que o custodiado falecera de cueca numa cela da chefatura por “ataque cardíaco”. Laudo equivalente ao “suicídio por enforcamento” do jornalista Wladimir Herzog, ou seja, há sempre um bom laudo para justificar o injustificável.

 

E aí eu lembro da célebre frase que Bertolt Brecht colocou no seu Galileu Galilei: “A soma dos ângulos de um triângulo não pode ser alterada segundo o interesse da cúria”. E é o mesmo Galileu que pontifica: “Quem não sabe a verdade é estúpido, é só. Mas quem sabe e diz que é mentira, é criminoso!” E o laudo restaria assim; “ataque cardíaco”, sem maior rigor de um exame necrológico.

 

A própria autoridade estatal dirá: “foi o corpo de Timóteo sigilosamente retirado do cubículo e mandado sepultar no Cemitério da Cruz Vermelha”, a fim de que não fosse prejudicado o processo investigativo.

 

Dirá ainda mais adiante: “O corpo de Euclides Timóteo foi retirado FURTIVAMENTE da Secretaria de Segurança.”

 

Seria este furtivamente documental uma reedição dos protestos da Anás e Caifás reclamando o corpo de um novo ressuscitado, ou teria o cadáver se esgueirado pela grade da jaula e saído ileso só vestido de cueca?!

 

Que nada! O cadáver de Timóteo fora enterrado como o de um indigente de nome Manoel dos Santos.

 

Ora, se a testemunha Timóteo não mais vivia para confirmar e assinar a sua confissão, que se tome o depoimento de quem o ouvira até a morte. E assim, em testemunhos rigorosamente iguais, eis o crime elucidado; fora um crime passional, encomendado pelo Coronel Aviador Afonso Ferreira Lima loucamente enamorado pela esposa do morto a Sra. Milena Mandarino Firpo, que no conceito popular fora transformada de esposa virtuosa, na mais degradante “Madalena, sobre a qual choveram pedras.”

 

E a estória virou um escândalo, ampliado sucessivamente no Informativo Cinzano de Silva Lima e no programa Calendário de Santos Mendonça, com depoimentos tomados a força e na pancada de Maria Conceição, a cozinheira, Eunice, a copeira, Paulo Rosa o jardineiro, e Gilena, uma afilhada, serviçais e residentes da residência dos Firpo, como Milena sendo linchada moralmente, sendo-lhe depois arrancadas confissões escabrosas, com assinaturas desprovidas de autenticidade, envolvimento de muitas pessoas ilibadas, e até denúncias de depoimentos sob efeito de drogas entorpecentes; os tais “soros da verdade”.

 

Dos chamados “soros da verdade”, hoje passados cinqüenta anos em avanço e tecnologia, o noticiário divulga uma série de torturas cometidas pelos americanos em Abu Ghraib e em Guantánamo. São martírios medievais, utilizadas a evidenciar que não há ainda “soros da verdade” confiáveis.

 

Na verdade, nunca houvera soro, nem a confissão de Milena fora verdadeira. Restara, contestando o todo declarado, um depoimento cuja assinatura não resiste a uma tola apreciação grafotécnica.

 

E Luiz Eduardo o prova, quer utilizando um laudo pericial do especialista grafotécnico Antônio Newton de Oliveira Porto bem como anexando para análise geral e irrestrita dos leitores, cópias das assinaturas de Milena Mandarino Firpo, onde se evidencia uma falsificação grosseira justamente naquele documento em que há uma descrição desabrida de sua paixão amorosa pelo Coronel Aviador Afonsinho.

 

O resto todo mundo já sabe: O promotor Aloísio Barbosa Porto pede a prisão preventiva de todos os que estavam dentro de casa no dia do crime, a esposa do morto, Milena Mandarino Firpo, junto com seu pai, Nicola Mandarino, Gilena Santana, uma empregada e o Coronel Aviador Afonso Ferreira Lima, o Afonsinho.

 

O juiz Serapião de Aguiar Torres, acolhendo parcialmente o pedido determina a prisão de Milena, do Coronel Afonsinho, liberando Nicola Mandarino e Gilena Santos.

 

Iniciada a fase processual, o Lyons Club contrata o advogado Achiles Lima para funcionar na acusação, depois será contratado também o grande causídico Sobral Pinto, destacado defensor de Luiz Carlos Prestes no período Vargas.

 

Na defesa de Milena funcionaria um outro grande luminar do Direito, Evandro Lins e Silva, enquanto defendendo Nicola atuou a grande advogada sergipana Maria Rita de Andrade.

 

Quando o processo começou a ser debatido, o auxiliar de acusação Achiles Lima começou a constatar falhas gravíssimas passíveis de anular toda instrução policial.

 

O mesmo constatou o grande advogado Sobral Pinto, ficando a acusação desprovida de maior embasamento para a condenação dos acusados que permaneceram presos, Milena e Pereirinha na penitenciária de Aracaju e Afonsinho na base aérea do Recife.

 

Destaque-se também a atuação da Sra. Edna Bento Faria Lima, esposa do Coronel Afonsinho, que toma a defesa do seu esposo, rejeitando a denúncia de adultério, conquistando a sociedade aracajuana pela sua coragem e inteligência, fustigando os maledicentes que se recolhiam acabrunhados.

 

Daí para frente, a sociedade sergipana, pelos seus jornais e figuras destacadas como o Bispo Dom Távora advertiam “sobre a impropriedade dos julgamentos antecipados”.

 

Milena começa a receber a visita de algumas amigas e de senhoras da sociedade, destacando-se as Professoras Bernadete e Mariá Galrão Leite, diretoras do Colégio do Salvador, que nunca abandonaram a amiga feita prisioneira, nem acreditaram na sua culpabilidade, amparando as alunas, Juju e Gracinha, filhas do casal Carlos Firpo e Milena.

 

E, só para caracterizar os exageros dos ânimos daquela época, é preciso destacar um fato não narrado por Luiz Eduardo Costa, mas que conheço por testemunho familiar de fidelidade e amizade. Trata-se Albertina Campos Nascimento, falecida em 2006 que era tia de minha esposa Tereza Cristina e grande amiga de Milena por toda a vida. Albertina, nunca abandonara a amiga naqueles anos tristes; indiferente às chacotas e humilhações, Albertina levava diariamente a alimentação de Milena, então custodiada na Penitenciária, evitando que se consumasse o que se propalava na cidade; que a presa seria envenenada.

 

Mas, é preciso encerrar o relato que já vai longo. Aqui está só um pequeno extrato do trabalho de Luiz Eduardo, que um dia será publicado, muito lido e comentado.

 

Preciso, porém, transcrever um trecho da lavra de dois desembargadores, quando do julgamento do recurso de pronúncia dos acusados, um a favor e outro contra.

 

No voto vencedor, aceitando a denúncia de Milena transcreve-se como um agravante: “Ter ainda esta acusada presenteado o chauffer José Airton com a roupa pertencente ao Dr. Carlos Firpo poucos dias depois da sua morte, numa demonstração a mais do desprezo que votava ao marido”.

 

No voto vencido, pronunciado pelo Desembargador Hunaldo Santaflor Cardoso, os novos tempos levantavam o véu de bruma e de treva: “Somente diante do clima de repúdio e de revolta da opinião pública em geral, se explica que as pessoas indigitadas de co-autoria intelectual unindo-se lendas e mistificações, que como castelo de cartas, não resiste ao mais leve sopro da verdade, quando se lhe examina a contradita que lhe opõem expressivos e esclarecedores elementos contidos nos autos , sua absoluta improcedência e a sua inelutável inconsistência. Se assim ocorre, não se poderá condescender como clamor da indignação geral ante a enormidade do monstruoso crime, aceitando as demasias, as incongruências e aos atentados às formas protetoras das garantias individuais que, em delírio, foram solenemente praticados em todo o decorrer do processo. Na conturbada atmosfera que empolgou a todos os espíritos, não foi difícil chegar a conclusões precipitadas e falsas. No caso sub judice o juiz a quo não fez o indispensável confronto, e daí sua sentença de pronúncia quanto aos presumidos autores intelectuais, ter caráter manifestamente unilateral. Não se fundamenta na prova contraditória produzida em juízo, mas em simples presunções.

 

A porta estava aberta para o recurso ao Supremo Tribunal Federal, tendo o ministro Nelson Hungria em julgamento de Hábeas Corpus do Coronel Aviador Afonso Ferreira Lima estendido a Milena Mandarino, decretado a liberdade dos dois, no dia 14 de setembro de 1960, reconhecendo que não se podia arrimar um processo judicial “em depoimentos prestados nos desvãos de delegacia policial e não reproduzidos em Juízo nem declarações de beleguins policiais apontados como assassinos de um dos réus pseudo-confidentes”.

 

Hoje, passados mais de cinqüenta anos dos fatos, em boa hora Luiz Eduardo Costa desenterra os feitos para que a história o analise sem ódios.

 

Não se trata de desenterrar a bela Inês de Castro pelo seu amado Dom Pedro I, o cru.

 

Não se trata do revanchismo triste aos carrascos insepultos, porque a história precisa ser sempre lembrada para não ser repetida, afinal se muitos erros aconteceram em 1958, deva-se sobretudo a intemperança dos homens que na pressa de agarrar os culpados, utilizaram mecanismos incompatíveis com o respeito à dignidade humana.

 

Igual à tortura dos prisioneiros de George Bush que no afã de se prevenir contra os ataques terroristas, erigiram a mortificação como método sacralizado, por necessário.

 

Nos tempos atuais, o noticiário já afirma, que o Presidente Obama recuou da sua política de divulgação da tortura realizada contra os prisioneiros terroristas. Tal divulgação iria constatar que a tortura evitara outros ataques iguais ao de onze de setembro, que foram descobertos e evitados.

 

É verdade! A tortura tem os seus encantos! Há muita gente boa que a defenda no interesse geral e coletivo.

 

Uma coisa perigosíssima, afinal qual é o limite do interesse geral e coletivo num clima de pânico incontrolável?

 

A sociedade sergipana reagira racionalmente às primeiras notícias do crime da Rua de Campos?

 

Não estaria aí um ponto a dirimir muitos erros?

 

Eis aí uma questão colocada, não para o olvido e a indiferença, mas para o perdão da falta de nós todos.

 

Para finalizar, volto ao poetar de Aidinor Aires e ao responsório onomatopaico da acauã: “Vai à cova!… Vai à cova!… Vai à cova!..” porque ninguém vai mais a cova de Carlos Firpo, desaparecida no tempo e no espaço, igual a tantos seus circunstantes, como Euclides Timóteo, que morrendo de pancada virou o indigente Manoel dos Santos, todos na indiferença da litania acauã.

 

Mas o livro de Luiz Eduardo Costa, não agradando a tantos, segue como os “Poetas acauãs (que) vão repetindo na surdez dos homens encolhidos um sussurrar de alívio para as dores da desesperança, um entoar de cantos para exorcizar a morte e cobrir de alvíssaras o flamejar da vida que, afoita, nos mira na esquina da próxima manhã. A bênção, acauã”.

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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