Luto por todas

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Desde que comecei a escrever para este Portal, publiquei um texto falando sobre violência contra a mulher, inocentemente, pensando que só voltaria a escrever sobre o assunto meses depois. Nesta semana, me deparei com um assunto doloroso para a maioria das mulheres que conheço: estupro.

No Brasil, a cada 8 minutos uma mulher é violentada sexualmente. O Atlas da violência de 2020, pesquisa realizada e publicada pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, aponta que houve aumento dos crimes de feminicídio e de violência sexual contra as mulheres. Além desses dados, quando pensamos nos crimes sexuais relacionados às crianças, dados do Ministério dos Direitos Humanos apontam que 73% das crianças abusadas sexualmente tiveram como agressores seus próprios pais, padrastos, ou homens relacionados à sua família.

Esses dados alarmantes e crescentes a cada ano reascende um sinal de alerta para toda a sociedade. Em pleno século XXI, com todo o acesso à informação, com a formação e fortalecimento dos Conselhos Estaduais e Municipais dos Direitos da Mulher em todo o país, da luta dos Movimentos Feministas, o que está acontecendo para que tantos homens ainda se achem donos dos corpos das mulheres e de seus direitos de existir?

Quando acompanhei e li sobre o caso Mariana Ferrer, percebi que houve violação não só do seu corpo, enquanto mulher que foi drogada e estuprada numa festa, como também a sua violação moral, enquanto uma mulher que após uma situação extremamente traumática, teve que pedir respeito apenas por ser mulher, respeito para ser ouvida, respeito para que não a violassem ainda mais.

De maneira geral, o foco na imprensa e nas redes sociais foi o termo “estupro culposo”, utilizado como forma de absolver o réu, um jovem branco e rico, de um crime cometido. A revolta não foi somente pela absolvição do estuprador, mas de todo o contexto que aponta para uma sociedade que, nitidamente, desrespeita e detesta as mulheres.

Sei que é duro ler que a sociedade brasileira odeia as mulheres, mas quando é normalizado o fato de uma mulher que é violentada, vítima, ter que provar que está falando a verdade, atestamos que algo não está certo. Quem é vítima de um crime, deveria ser acolhida, respeitada, ouvida. O que presenciamos é um massacre, em que as mulheres que denunciam esses crimes são questionadas sobre roupa, comportamento, bebida, local, seus discursos são sempre duvidáveis. Já as mulheres que não denunciam, e que, em algum momento decidem se manifestar, são também questionadas por não terem feito isso antes.

Afinal, até quando a sociedade irá violentar física e moralmente as mulheres? Sigo por aqui, em luto e na luta, por mim, e por todas as mulheres vítimas de abusos diários e recorrentes. E sigo rogando para que os homens compreendam que o machismo é tóxico para nós, e para eles também.

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