Ninguém vai chorar pelos Estados Unidos

Por Marcos Cardoso*

Todo império um dia chega ao fim. Foi assim com o Império Romano, que dominou o Mediterrâneo por cinco séculos até o ano 476 d.C. Com o imperialismo britânico, que chegou a dominar 25% da Terra por mais de 400 anos até o começo do século XX. E com o império soviético, que por mais de sete décadas e até o final dos anos 80 do século XX controlava dezenas de países e influenciava outros tantos mundo afora. E ninguém chorou quando caíram ou perderam força e influência. Por que há de chorar pela queda dos Estados Unidos?

A pobreza é cada vez mais visível nas cidades dos EUA

É isso o que tanto preocupa Trump. É o que tanto preocupa os estadunidenses há mais tempo. Nunca desde que se consolidou após o fim da Guerra Hispano-Americana em 1898 e se robusteceu após o fim da Segunda Grande Guerra, o imperialismo norte-americano esteve tão ameaçado quanto agora. Já fora desafiado antes, mas nunca tão ameaçado. Embora o colapso não seja imediato, tamanha a capacidade militar e tecnológica que possui.

A análise é sustentada por diversos fatores geopolíticos, econômicos e estruturais. A ordem unipolar, consolidada após a Guerra Fria, está em declínio, dando lugar a uma configuração mundial mais multipolar ou complexa. Embora a Europa esteja sob controle dos interesses norte-americanos, o crescimento econômico e tecnológico de países como a China, além da influência da Rússia e outros atores regionais como Índia e Brasil, criou desafios à supremacia dos EUA.

O fortalecimento de alianças alternativas, notadamente os BRICS, promove a desdolarização e impõe opções ao sistema financeiro controlado pelos Estados Unidos. E a política externa norte-americana, com as pautas MAGA, de Trump, sugere uma  postura mais nacionalista e, por vezes, contenciosa com aliados tradicionais, o que esvazia alianças de longo prazo.

A economia global favorece nações em desenvolvimento, que ganham espaço na manufatura e tecnologia, inclusive militar. E a incapacidade de uma forma até tosca de ditar soluções em conflitos, como na Ucrânia e no Oriente Médio, notadamente em Gaza, reforça a ideia de um xerife mundial com interesses muito personalistas e poder limitado, sem bala na agulha. Na tentativa de lidar com o declínio, o estadunidense foca numa forma de conter a China e em uma postura mais agressiva para proteger seus interesses. A China ameaça a hegemonia estadunidense.

Daí vem a guerra, que na cultura norte-americana é solução para tudo.

Mas a guerra comercial e tecnológica evoluiu para uma disputa estrutural. Enquanto os EUA aplicam tarifas e sanções para proteger sua hegemonia, a China redireciona exportações e expande sua influência, atingindo um superávit comercial global recorde de US$ 1,19 trilhão em 2025, apesar da desaceleração no crescimento do PIB.

Enquanto os EUA focam em “bullying econômico” e restrições, Pequim consolida alianças estratégicas, impulsiona a nova Rota da Seda e avança na transição econômica, mantendo um ritmo de crescimento que desafia a supremacia americana.

“Enquanto isso, o sistema global de livre comércio e mobilização militar construído nos últimos 75 anos – o alicerce da hegemonia dos EUA – passou a ser visto por muitos americanos como um fardo em vez de uma vantagem. Mesmo antes da vitória eleitoral de Trump – baseada na promessa de derrubar os pilares da ordem mundial pós-Segunda Guerra –, a incontestável primazia americana já parecia fadada à decadência, independentemente da competência de seus governantes. E, agora que Trump está no poder, fazendo de tudo para afundar a imagem internacional dos Estados Unidos, que nova ordem mundial estará se desenhando no horizonte?”

Foi o que questionou Murtaza Hussain no Intercept Brasil em setembro de 2017, ainda no primeiro ano do primeiro governo Trump. O jornalista especializado em questões de segurança nacional e política externa, que também escreve artigos para a CNN e BBC, conclui: “O império global americano está entrando em um longo e convulsivo declínio – um processo iniciado com a calamitosa invasão do Iraque em 2003 e que agora se manifesta na presidência de Donald Trump –, e a consequência disso para os próprios EUA pode ser ainda mais preocupante.”

O ataque ao Irã, com o assassinato do seu chefe de estado, desenha-se como uma guerra a ser vencida pelos Estados Unidos. Depois de subjugar a Venezuela, outro aliado estratégico da China, agora impõe um duro golpe à influência chinesa na região. O Irã tem como principal parceiro comercial a China, assim como todos os países árabes, igualmente grandes fornecedores de petróleo para o gigante asiático, que estão sendo levados ao conflito. Mas o Irã não é a Venezuela e essa guerra pode resultar numa retumbante derrota política para Trump. E contribuir para enfraquecer ainda mais o poder imperial norte-americano.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima é opinião do autor e não representa necessariamente o pensamento do site Destaquenoticias

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