Os EUA são beligerantes e usurpadores

Por Marcos Cardoso*

O golpe contra a Venezuela não é a primeira e nem será a última intervenção cometida pelos Estados Unidos da América contra uma nação latino-americana. A lista é longa e remete ao século 19, quando os ianques tomaram de assalto metade do território do México. As razões alegadas variam, mas por trás dos ataques imperialistas à soberania alheia há sempre o interesse nas riquezas dos outros povos. Afinal, foi assim que os EUA se tornaram um império.

E não faz diferença de quem esteja à frente do brother do norte, se republicano ou democrata, se Donald Trump, Barack Obama ou um personagem da Disney, pouco importa.

A última intervenção contra um país da América do Sul tinha acontecido em 2009 e atingiu o Paraguai. Naquele ano, um documento da embaixada dos Estados Unidos em Assunção, vazado pelo site Wikileaks, previa que Fernando Lugo seria derrubado por meio de um golpe parlamentar – exatamente como aconteceu, quando o presidente eleito do Paraguai foi substituído por seu vice Federico Franco.

O então presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, não se mexeu. Quatro anos antes, imaginava-se que a posse do cerebral presidente negro, filho de queniano, de origem pobre, teria o condão de mudar a política imperialista dos Estados Unidos para a América Latina. Mas viu-se que, por uma questão de cacoete histórico, isso não aconteceu. Ainda mais que governos de esquerda se sucediam na região.

O histórico dessa relação desigual (inspirado em artigo publicado no site “America Latina em Movimiento”, de 19 de setembro de 2008) não deixa margem à dúvida quanto às intenções norte-americanas. A famosa Doutrina Monroe, divulgada em 1823, quando os países da América Latina principiavam seus movimentos de libertação, já deixava claro que o país do norte considerava toda essa região debaixo de sua esfera de influência.

Por 150 anos a diplomacia americana foi baseada na Doutrina Monroe, que reivindicava “a América para os americanos”. É a doutrina que Trump quer aberta e cinicamente resgatar.

O Dicionário de Política, de Norberto Bobbio (Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), define o imperialismo como a “expansão violenta por parte dos Estados, ou de sistemas políticos análogos, da área territorial da sua influência ou poder direto, e formas de exploração econômica em prejuízo dos Estados ou povos subjugados”. O termo originalmente está associado ao império inglês e se considera que a Alemanha, a Itália e o Japão foram imperialistas nos anos 30, 40. A mesma obra acrescenta que, depois de 1945, quando se apagou o impulso imperialista desses Estados, “o fenômeno do imperialismo continuou a manifestar-se (…) na política neocolonialista praticada principalmente pelos Estados Unidos”.

“Os imperialistas são os parasitas do patriotismo… nunca perdem de vista as oportunidades de negócios lucrativos”, já observava, no começo do século passado, o economista inglês John Atkinson Hobson, autor do clássico “Imperialismo: um estudo” (1902) e um dos primeiros a pesquisar o tema: na transformação capitalista, os mercados internos já não bastam e se tornam necessários os mercados externos para a absorção da produção, mercados que se conquistam com a conquista das colônias.

Buscando explicar a rivalidade inter-imperialista entre as grandes potências, na busca por mais mercados que conduzira à Primeira Guerra Mundial, Vladimir Lênin, na obra “Imperialismo, estágio superior do capitalismo” (1916), afirma que “o imperialismo é o estágio monopolista do capitalismo”. De acordo com a teoria marxista do imperialismo, todas as formas de violência internacional foram provocadas pelas contradições estruturais do capitalismo, que consegue fazer do Estado um instrumento cada vez mais eficaz a serviço dos seus fins.

Mas a União Soviética, socialista, também foi imperialista, assim como a Rússia ainda o tenta ser. Portanto, historicamente, como política de expansão e domínio territorial, cultural e econômico de uma nação sobre outras, ou sobre uma ou várias regiões geográficas, o imperialismo extrapola os sistemas econômicos, políticos e sociais.

Como o capital sempre venceu — ou sempre vence? — o imperialismo, ou, mais modernamente, o neocolonialismo, é associado ao contexto do capitalismo e à busca por mercados e lucro à força, a qualquer custo. Inclusive militar. Os Estados Unidos invariavelmente justificaram intervenções militares no mundo para combater revoluções ou para obter o controle de mercados com o discurso da Guerra Fria, e não em termos de objetivos imperiais. Mas a verdade é que a guerra virou um negócio para os capitalistas — americanos, sobretudo — e, hoje, grande parte da economia estadunidense está ancorada nesse “setor”.

Dois autores norte-americanos estudiosos do capitalismo monopolista, Paul Baran e Paul Sweezy, afirmavam que os Estados Unidos não teriam tido, depois da Segunda Grande Guerra, um desenvolvimento econômico tão impressionante se não tivessem destinado parte considerável do seu orçamento aos armamentos. Garantindo ocupação para grande massa da população que seria improdutiva e investindo no setor tecnológico, pois grande parte das mais importantes invenções, usadas também no setor civil, provêm da atividade de pesquisa do setor militar.

“A ação conjunta entre as elites predadoras nacionais e o estado terrorista ianque é recorrente e parece seguir sempre o mesmo método: criação de focos desestabilizadores, instrução militar, apoio financeiro e mentiras, muitas mentiras. Estas são reproduzidas à exaustão pelos grandes meios de comunicação, na eterna lógica de desinformação e de fortalecimento da ideologia dominante. Assim, com o mesmo velho método já utilizado em 1836, quando insuflou a elite da região do que hoje é o Texas a se separar do México, os Estados Unidos atentam contra a soberania dos povos sempre com o mesmo objetivo: garantir o seu domínio sobre países e as riquezas dos povos”. A opinião, fundamentada, é do historiador e pacifista estadunidense contemporâneo Howard Zinn, no livro “Uma história popular dos Estados Unidos”.

Breve cronologia das intervenções imperialistas:

1836 – Os Estados Unidos empreendem guerra contra o México com o objetivo, alcançado, de anexar o estado do Texas.

1898 – A guerra com a Espanha garante aos EUA o ganho do controle sobre as antigas colônias espanholas no Caribe — incluindo Cuba e Porto Rico — e no Pacífico.

1903 – Os americanos do norte criam um foco separatista na região que hoje é o Panamá, justamente o lugar onde estava sendo construído um canal entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Com a ajuda de cima o Panamá declarou independência da Colômbia. Os EUA terminariam as obras e ficariam com o direito de usufruir do canal por um século inteiro.

1911 – Os Estados Unidos providenciaram nova guerra com o México, alegando que em Vera Cruz haviam aprisionado alguns soldados e se recusavam a pedir desculpas. Por conta disso, atacaram a cidade, bombardearam e mataram mais de 100 mexicanos. Foi um pretexto para tirar de cena a luta trabalhista e a “ameaça” do socialismo.

1915 – Os Estados Unidos invadiram o Haiti, onde uma força da marinha desembarcou na capital Porto Príncipe, dirigiu-se às caixas fortes do “Banco Nacional do Haiti” e levou os mais de quinhentos mil dólares que ali havia. As forças estadunidenses ficaram no país até 1934, quando deixaram o povo entregue a uma das dinastias mais sanguinárias da região, a família Duvallier: Fraçois (de 1957 a 1971) e seu filho Jean-Claude até 1986.

1916 – As tropas estadunidenses invadem a República Dominicana, onde permaneceram até 1924, deixando como presidente do país outro ditador da pior estirpe: Leônidas Trujillo, mais conhecido como “o chacal do Caribe”, que ficou no poder por 31 anos.

1946 – Quando assumiu a presidência da Bolívia um jovem militar nacionalista apoiado pelas forças populares, os Estados Unidos foram criando instabilidades internas, no seu velho estilo, até que conseguiram organizar o linchamento e o assassinato do presidente. Com isso a Bolívia saiu da influência das ideias “esquerdistas”.

1954 – Também a Guatemala nacionalista, sob o comando de Jacobo Arbenz, sofreu o peso da mão dos Estados Unidos, aborrecido com o tratamento dado a sua empresa United Fruit. O país foi invadido e o presidente deposto.

1954 – Ainda no mesmo ano, os olhos se voltaram para o Brasil e, usando o mesmo jogo de intrigas e mentiras, a CIA consegue levar à bancarrota o governo de Getúlio Vargas, com o providencial suicídio do presidente.

1955 – Foi a vez de derrubar Juan Domingos Perón e entregar toda a indústria estatal argentina nas mãos privadas, provocando o desmantelamento e a desnacionalização da economia.

1961 – Os ianques tentam acabar com a revolução cubana a partir de uma invasão via Playa Girón. O exército americano, formado basicamente de mercenários, foi derrotado.

1964 – São públicas as tramoias montadas pelos Estados Unidos para depor o presidente João Goulart, no Brasil.

1965 – Os Estados Unidos invadem outra vez a República Dominicana, onde principiava emergir um levantamento revolucionário popular.

1973 – No Chile de Salvador Allende, incendiavam-se os desejos de vida digna e soberania. Atuando junto à direita, cooptando sindicalistas e lideranças sociais, os estadunidenses foram criando o caldo da contrarrevolução até culminar com um golpe de estado que colocou no poder Augusto Pinochet. Este encharcaria de sangue o país, sob as bênçãos da CIA e da Escola das Américas, que ensinava aos militares as técnicas mais sofisticadas de tortura.

1973 – Também o Uruguai sofreu a intervenção alheia e uma ditadura sanguinária se instalou.

1975 – Dois anos depois era o Peru que caia a partir de um golpe contra o presidente nacionalista Juan Velasco, que havia nacionalizado empresas estadunidenses e feito uma reforma agrária que beneficiara mais de 370 mil famílias.

Anos 80 – Os Estados Unidos estiveram por trás de todos os movimentos contrarrevolucionários da América Central, combatendo com mercenários os partidários de transformações radicais naquela região. Tirando os sandinistas que lograram vencer na Nicarágua, os demais não conseguiram. Antes do sandinismo, eram os EUA que treinavam e financiavam a ditadura de Somoza.

1981 – São as tramas secretas dos agentes da CIA que viabilizam o assassinato de Omar Torrijos no Panamá, um presidente nacionalista que logrou rever a questão do canal, viabilizando um acordo de devolução para 1999.

1982 – Os Estados Unidos ajudam, pela segunda vez na história, a Inglaterra a abocanhar as ilhas Malvinas da Argentina. A base estadunidense na ilha Ascensión, os satélites ianques no espaço, as armas, combustíveis, mísseis, e até o serviço diplomático, tudo foi colocado a serviço dos interesses ingleses.

1983 – Os Estados Unidos promovem a invasão à pequena ilha de Granada, que caminhava pela senda do socialismo.

1989 – Bush pai mandou invadir o Panamá e lá aportaram mais de 26 mil soldados. O objetivo era depor Manuel Noriega, que tinha sido um bom aliado – e agente da CIA – mas estava querendo caminhar com os próprios pés. Assim, com o argumento de que ele liderava um cartel de drogas, o exército estadunidense baixou em Ciudad Panamá e, no ataque ao bairro mais populoso da capital, El Chorrillo, mais de quatro mil civis morreram.

Anos 90 – Os EUA não se limitaram a intervir na América Latina, também estiveram presentes em “ações humanitárias” na Somália, Bósnia e Kosovo. No Afeganistão, mantiveram bem armados os exércitos do talibã para só depois considerá-los inimigos, destruindo-os na guerra pós 11 de setembro de 2001.

1995 – Os ianques invadiram mais uma vez o Haiti, com o argumento de que o governo de Bertrand Aristide era corrupto. Então, para “salvar” o povo, lá foram os marines. Estão lá até hoje, junto com tropas de outros países, entre eles o Brasil.

1999 – Entram também na Colômbia, desta vez com a bênção dos governantes locais. Sob o pretexto de combater o tráfico de drogas — os norte-americanos são os maiores consumidores de cocaína do mundo — programam o Plano Colômbia, que mantém a região sob o seu domínio militar, bem às portas da Amazônia, berço da maior biodiversidade do planeta.

2002 – Avançam sobre o Afeganistão e depois invadem o Iraque, sempre ancorados em fragorosas mentiras. E as mentiras seguem sendo as mesmas, desde o século 19.

2002 – Desde 1998, quando Hugo Chávez assume a presidência da Venezuela, os Estados Unidos vêm tentando colocar por terra todas as ideias nacionalistas que foram se conformando no andar do governo. E o poderio estadunidense é ameaçado quando Chávez começa a falar em socialismo, nacionalização do petróleo, combate à Alca e aproximação com Fidel Castro. Até que o serviço secreto inicia a mesma sorte de tramas, intrigas e formação para o golpe, que acontece em abril de 2002, mas dura pouco tempo.

2005 – Na Bolívia, vence as eleições um aymara que tinha no seu programa a proposta de nacionalizar as riquezas até então em mãos estrangeiras e dar autonomia às nações indígenas. A vitória esmagadora de Evo Morales lhe dá a condição de iniciar reformas que arrepiam o cabelo da oligarquia branca de Santa Cruz, que começa a chamar o separatismo. Tudo orquestrado pelos irmãos do norte. Não bastasse isso, Rafael Correa vence as eleições no Equador com um programa mais próximo de Hugo Chávez e Evo Morales. Era a formação do “eixo” de esquerda que deveria ser extirpado.

2009 – Em 28 de junho, o presidente Manuel Zelaya foi destituído pela Suprema Corte e exilado pelo Exército hondurenho. O ato ocorreu em função do desejo de Zelaya de realizar uma consulta popular para perguntar aos hondurenhos se queriam que, em simultâneo com as eleições a realizar em Novembro de 2009, se realizasse também uma votação no sentido de decidir a criação de uma Assembleia Constituinte que reformasse a Constituição para aprovar reeleições. O golpe de estado contou com o apoio dos EUA.

2012 – O ex-bispo Fernando Lugo foi cassado no dia 22 de junho como presidente do Paraguai após ser considerado culpado por mau desempenho de suas funções em um julgamento político no Senado. Em menos de 30 horas, Lugo foi julgado, sentenciado e seu vice-presidente, Federico Franco, assumiu a Presidência até o término do mandato, em 15 de agosto de 2013.

2025 – Alegando um suposto combate ao terrorismo e ao narcotráfico, os Estados Unidos atacaram Caracas, capital da Venezuela, e outros três estados, na madrugada deste sábado. O presidente Nicolas Maduro e a sua esposa foram sequestrados. Deverão ser julgados pela justiça dos EUA. A informação foi confirmada e comemorada pelo próprio Donald Trump, em sua rede social. Ele diz que governará a Venezuela e admite que o seu interesse é no petróleo do país que detém a maior reserva do mundo. Os governos do Brasil, da China e da Rússia condenaram o ataque.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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