MEMÓRIAS DE UM EX-FUMANTE

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          Para José Rosemberg, falecido em 2005 e Pedro Mirra.


Passei exatos 28 anos de minha vida ligado ao cigarro. Comecei com 15 e larguei com 43 anos de idade. Fumava muito, em média 20 cigarros por dia, mas nas farras de final de semana esse número subia exageradamente. Fumava em todo lugar, sem restrição. Cigarro era uma festa. Fumei Hollywood, Minister e Carlton. Nas piores crises financeiras, até Continental sem filtro, tão forte que doía o peito. Quando a grana ficava ainda mais curta, era “a retalho” mesmo, na bodega da esquina ou pegava a “biana” dos amigos. Fumava escondido, depois assumido, em casa, no quarto, na sala, em todo lugar. Meus pais, engraçado, nunca fumaram, mas meus dois irmãos, Marcos e Magali, ambos mais “velhos”, fumavam bem. Disse, certa vez, que herdei deles muitas virtudes mas também alguns maus hábitos, que ao contrário e felizmente foram bem poucos, entre o eles o de fumar. Marcos largou primeiro. Magali já não fuma há muito tempo.

Naquela época dos anos 60, quase todo adolescente fumava, era afirmativo, charmoso. Rapaz que fumava era mais “cabeça”, moderno, independente. Antes de casar com Cristina, namorei com ela 4 anos. Também fumava. Fumávamos os dois, juntos numa cumplicidade total,  fumávamos e namorávamos muito.

Depois que casamos, nos formamos médicos e permanecemos fumando, dois doutores, dois fumantes. Nasceram nossos filhos e cresceram nessa tragédia. Por isso criaram forte ojeriza ao cigarro. Menos mal… Reclamavam muito, mas não dávamos ouvidos. O mais velho, Lucinho, aprovado no vestibular de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, passou a residir na “Boa Terra”. Certa vez, para matar a saudade, fomos passar um final de semana com ele no apartamento que morava na ladeira da Barra, bem em frente ao Iate Clube e com vista deslumbrante da magnífica Baía de Todos os Santos. Notamos a falta de cinzeiros. Ele não tinha cinzeiros em casa. Onde estão os cinzeiros dessa casa? No seu aniversário, disse que seu maior presente seria nos ver livres do vício. Foi um sinal.

Estava no meu segundo mandato à frente da Sociedade Médica de Sergipe. Corria o ano de 1997. O Secretário-Geral era o preparado médico cancerologista e também grande amigo William Soares, pessoa entusiasmada com tudo que faz. Cada dia que eu chegava na SOMESE para os despachos habituais percebia uma novidade. Primeiro nas áreas externas. Dias depois na sala da secretaria, mais tarde na de reuniões. A placa foi tomando todas as dependências. Dizia assim: “É proibido fumar neste recinto”. Incomodado, indaguei quem havia autorizado colocar aquelas placas. Havia sido William. Tudo bem, está certo, aceitei um pouco contrariado. Mas colocar a placa também na sala da presidência no mínimo era uma desaforo, logo na minha sala, não acreditei. Achei que ele havia extrapolado todos os níveis da hierarquia. Que ficasse promovendo aqueles encontros com a comunidade, combatendo o fumo, era muito bom, mas me proibir de fumar na minha sala, era demais!  Afinal, quem manda aqui, perguntei brincando. “Manda aqui o bom senso e a razão”, retrucou bem humorado o companheiro. É, não dava mais para suportar a pressão da família, dos filhos, dos colegas e principalmente dele, do Secretário-Geral. Uma decisão começava a ser articulada na minha cabeça.

Dias antes tivéramos uma grande tristeza, ao tomar conhecimento do falecimento do colega pediatra Djalma Pereira, o Djalminha como era mais conhecido. Com apenas 37 anos de idade, Djalminha trabalhava demais, de forma alucinada, saindo de um plantão e entrando em outro, sempre fumando e fumando muito. Teve morte súbita. Isso muito nos abalou. Passei a ter dores no pescoço, fui a Saulo Maia, leal companheiro e pessoa de estirpe, médico pneumologista e amigo, companheiro de lutas da SOMESE, fazer um check-up. Estava tudo bem comigo, mas ele apelou com insistência para que eu deixasse de fumar. O cerco se fechava.

Em 1997, deixamos de fumar, eu e Cristina, no mesmo dia e hora. Tomamos a decisão em conjunto no momento que nos preparávamos para mais uma noite de sono. Ela provocou primeiro: “ – vamos parar”? Espertamente respondi:  – fumarei o último cigarro ( tinha apenas um na carteira.) Ela disse: “- pois não fumarei nem o último – e jogou o maço cheio de cigarros na lata do lixo. Está louca, pensei…

Fomos dormir e amanhecemos com o mesmo propósito. Teria sido um sonho?

Antes porém, aconteceu um fato pitoresco. William havia criado a Comissão de Combate ao Fumo da SOMESE e para a sua instalação oficial convidou duas autoridades no assunto: Pedro Mirra e José Rosemberg, ambos de renome internacional. Eles gentilmente aceitaram o convite e vieram a Sergipe com o patrocínio da Associação Médica Brasileira. Naquele mês de agosto estava programada uma caminhada de mobilização contra o fumo, promovido pela Secretaria de Saúde, saindo da Praça Inácio Barbosa com chegada na Praia de Atalaia, na orla, nas imediações do Hotel Beira Mar. Era um trajeto muito longo, principalmente para os nossos ilustres visitantes, ambos com idade avançada. E aquele dia em especial havia amanhecido com um calor insuportável.

Combinamos com a equipe organizadora. Daríamos a largada na comissão de frente para as fotos oficiais e alguns metros adiante sairíamos discretamente. Tive a (infeliz) idéia de propor um passeio no meu carro pela cidade. Afinal a caminhada teria um percurso longo e a chegada não aconteceria em menos de 2 horas. Até então não havia confessado aos dois paladinos do combate ao fumo que o seu motorista anfitrião, médico, presidente da associação médica local, criador da Comissão de Combate de Fumo da SOMESE, era um viciado. Faltava-me coragem.

Rodamos pela cidade passando pelos pontos pitorescos. Meus hóspedes naquele veículo pareciam um pouco incomodados, trocavam olhares desconfiados, justo as duas maiores autoridades brasileiras no assunto, ferrenhos combatentes do fumo, assessores do Ministério da Saúde, da OPAS e da OMS, como explicar para eles aquele insuportável odor residual que impregnava o ambiente restrito do veículo?

Por quase duas horas, ficamos a transitar sem ter mais o que mostrar até uma estratégica parada para a tradicional “água de coco”. Naquela altura, não suportava mais a abstinência ao fumo. Mas o que fazer? Aproveitei para dar uma escapadinha ao banheiro mais próximo e ufa! um cigarrinho ligeiro, apenas duas ou três tragadas rápidas. Não imaginava que o olfato desses farejadores de tabaco fosse tão aguçado. Logo que entrei no carro eles se entreolharam num misto de decepção e espanto e rápido disparei: – como pode alguém fumar num banheiro fechado. É uma falta de respeito com os outros. Eles acenaram positivamente com a cabeça, concordando desconfiados.

Conforme combinado, nos integramos ao grupo para a chegada triunfal da caminhada sob o flash dos fotógrafos. Estava a missão cumprida, eles voltaram para São Paulo sem saber sobre o meu antigo vício. Anos depois, Rosemberg e Mirra regressaram a Sergipe e já me viram ostentando um certificado de ex-fumante, idéia também do meu Secretário Geral, que guardo com muito orgulho nos meus arquivos.   

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