Mimeógrafos, Kardex e Profissões

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                                                                                                               “O defeito da ficção é a sua

      proximidade com a realidade”

Leonardo da Vinci

 

Imagine que, ainda há menos de vinte anos, toda a produção literária e jornalística saíam das boas e velhas máquinas de escrever, livros, jornais, revistas… Tudo era produzido no tic-tac das Remington, Olivetti, IBM e Facit, de tipos ou esferas, manuais ou eletrônicas.

Havia cursos de datilografia para ensinar como teclar os “a s d f g” e “ç l k j h”, na ordem e cada letra com um dedo próprio.

Existia, como ainda existem, pessoas que sequer olhavam para o teclado de tão automatizadas. Se acaso olhassem, errariam. Datilografavam laudas e laudas, sem sequer olhara para o teclado.

Lembro dos secretários de audiências, compenetrados em entender o linguajar jurídico, anotar o que era dito, sem erro e sem defeito.

Parece que foi um dia desses que apareceu uma maquininha chamada “computador” e nela um programinha revolucionário chamado “carta certa”. Lembra? 

Imagine, também, que há 30 ou 40 anos, até as décadas de sessenta/setenta, todo cheque que emitíamos era anotado, a lápis, numa ficha kardex (lembram do fichário kardex?), e depois, remetido para a compensação. Era um trabalho que envolvia muita gente: um fazia, outro checava, e tudo manualmente, na base do lápis, caneta e borracha.

Não tínhamos o celular, a internet, a televisão era limitada a poucos. Os telefones eram somente fixos, e uma linha custava pequena fortuna. A espera pela sua instalação, então, era de até mais de cinco anos.

Os automóveis também tinham preços proibitivos e, além de tudo, não existia cinto de segurança, direção hidráulica, air bags, vidro elétrico, ar condicionado… E, mesmo assim, eram usados por até quarenta ou cinqüenta anos. Carro zero era uma raridade, somente os muito ricos conseguiam comprar os Jeeps, Rurais, C-10, Veraneios, F-1000, Opalas, Del Reis, Corcéis, Brasilias, Variants, TLs e Chevetes.

Fábrica de Automóveis no Brasil, somente três: Volkswagen, Ford e Chevrolet que, na década de setenta, encamparam DKV-Vemag, Gordini, Willys e outras.

A abertura do mercado, consolidada pelo então Presidente Collor de Melo no início da década de noventa, foi o que realmente oportunizou a melhoria das coisas no Brasil. Com ela, para cá vieram entre muitas outras: a Peugeot, Citroën, Renault, Honda, Toyota, Nissan, Hiundai, Kia…

Essa evolução nos jogou para um lado e para o outro, fazendo com que o universo profissional também experimentasse mutações tão constantes que o emprego que ontem estava garantido, pois havia vários bons e competentes profissionais desempenhando com muita eficiência aquele ofício, não existem mais: as rodas velozes das inovações passaram por cima. Houve uma mudança tão grande na tecnologia que dava suporte a algumas profissões que o que desapareceu não foi somente o posto de trabalho, mas a própria atividade evaporou, desapareceu, não existe mais.

Vamos relembrar, com nostalgia, algumas ocupações que sumiram ou estão sumindo? Não é necessário irmos muito longe, no tempo, para fazermos esta constatação: basta que voltemos um pouquinho. Não vamos falar de fabricantes de rodas de carruagem, nem de concertadores de canetas-tinteiro, nem limpadores de trilhos de bonde ou chaminés, nem de acendedores de lampião, tropeiros, aguadeiros amoladores e afiadores, consertadores de relógios e de guarda-chuvas… Falemos de modistas, calistas, barbeiros, calceteiros. Ou de: alfaiates, tipógrafo, sapateiros, engraxates, datilógrafos, telefonistas… Profissões que até pouco tempo davam emprego e renda a muita gente.

Tenho um primo que em tempos idos, foi um exímio técnico das máquinas de escrever FACIT, recebeu até prêmio de profissional do ano na década de setenta. Até o início da década passada, quando o vi, pela última vez, ele insistia que estas modernidades eram coisas passageiras que breve voltaríamos a usar as velhas máquinas de “dactilografia”, e os mimeógrafos a álcool e que estes tais computadores não eram confiável… Sinceramente, não sei o que ele concerta hoje.

Não amigo, não existe mais espaço para esse tipo de interpretação do desenvolvimento. O mercado de trabalho está se comprimindo entre o tempo e a modernidade e a “moda” que vem está ficando e sendo ela própria superada a cada dia por outra mais nova e mais útil.

Os insatisfeitos com a evolução, como aquele meu primo, e algumas organizações ainda existentes, que resistem ao novo, não querendo aprender, se submeter ou acompanhar o passo largo da tecnologia, ficarão, certamente, presos na própria teia que tecem.

Profissões como caixa de supermercado, frentista de posto de combustível, balconistas, lavador de automóveis, tendem a gradativamente desaparecer…

Por exemplo: vi, há alguns dias, na televisão que o já quarentão código de barras, aquele que está presente em todas as mercadorias vendidas no mundo, está com os dias contados, eis que aparece, agora, uma tecnologia que, com larga vantagem, substituirá aquele que para muitos, eu inclusive, representava a coisa mais prática e moderna que existia.

Fico pensando que se não existissem aqueles leitores magnéticos, o que seria de nós, digitando aquela infinidade de algarismos em cada mercadoria que adquiríssemos ou conta que pagamos.

Pois é, apareceu coisa melhor, mais prática e mais segura. A nova descoberta só amplia a compreensão do grande cientista, inventor artista, arquiteto e engenheiro, renascentista Leonardo Da Vinci, quando declarou, ainda no século XV: “o defeito da ficção é a sua proximidade com a realidade”.

O novo sistema que ora está sendo implantado traz tanta vantagem que imaginamos ser ficção de desenho animado.

Exemplo? Como fazemos, quando vamos ao Supermercado fazer as nossas compras semanais?

Pegamos os produtos um a um e, um a um, colocamos, primeiro dentro de um saquinho plástico e depois dentro do carrinho. Aí, quando escolhemos e colhemos todos os gêneros de que necessitamos, dirigimos-nos rumo a uma bateria de caixas, ficamos para cima e para baixo procurando uma que esteja mais disponível.

Achei? Ah, vou ficar aqui, tem pouca gente… Só que aquela senhora que estava passando as compras trouxe um produto sem o tal código de barras: chama-se a mocinha dos patins ou o gerente para ir verificar qual é o preço e o código e, demora, demora, demora e demora.

Daqui a pouco, ele aparece e, mesmo falando ao telefone, empurra o produto para a moça do caixa. Esta reinicia o trabalho de digitalizar o que poderia ter feito enquanto não vinha o preço daquele produto. Não, somente agora recomeça e, não havendo mais nenhum probleminha, a fila anda…

Esperamos mais, esperamos, esperamos, até que chega a nossa vez. Aí tiramos, uma a uma, toda a mercadoria que a operadora do caixa vai passando, também uma a uma. Você ou uma pessoa do supermercado coloca tudo aquilo, também, um a um, dentro das sacolas de plástico e de outras sacolas maiores e devolve tudo novamente para dentro do carrinho.

Com o novo sistema, vamos pegar o carrinho, as benditas sacolinhas, colocar as mercadorias dentro e, de passagem pelo caixa, caixa? Não, pelo “portal” onde um leitor magnético registra tudo, mesmo já acondicionadas, nenhuma passará sem ser contabilizada. A máquina lhe fornece o valor de cada uma, com nome, referência e preço e já devidamente somado. Resta ao cliente somente introduzir o cartãozinho no local indicado, digitar uma senha e sair tranqüilo para o carro e colocar, uma a uma, todas as sacolinhas dentro do porta- malas do seu veículo – quer dizer ainda não inventaram algo que resolvesse esta tarefa. Detalhe: tudo isso sem a necessidade de caixa, empacotador, gerente desatencioso com telefone pendurado na orelha, menina de patins. Nada

“Êpa! Então isto vai desempregar muita gente”. Vai, infelizmente vai. Com certeza gerará grandes debates e reações.

“Vixe! Isso vai dar um bolo!”

Eu sei, mas, cá pra nós, num tem jeito não. É a modernidade. É a evolução. É a tecnologia. Vamos nos preparar para fazer outras coisas. Tem muito que ser feito, para aqueles que estão atentos aos novos tempos, ao mercado e à evolução. PENSE NISSO

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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