Morreu porque era negro

0

A charge do genial Edidelson no Jornal do Dia de quarta-feira resume com dolorosa ironia a tragédia ocorrida no Shopping Jardins no fim de semana: um homem é espancado e estrangulado por dois seguranças enquanto o chefe deles fala ao celular: “Alô, é do IML? Temos um suspeito aqui…” O tal “suspeito” do desenho de humor é um homem negro.

No cruel mundo real, a vítima foi o motorista Leidson Reis, negro. Ele sofreu uma fratura na coluna vertebral, altura da cervical, provavelmente após estrangulamento por uma “gravata” aplicada por um dos brutamontes que o agrediram. Já foi entregue à polícia morto. E, simples assim, tudo ficou nisso. Ninguém foi detido cautelarmente, nada…

Até então, a direção do shopping não se pronunciou sobre o crime, mas o que se leu e ouviu na indireta defesa do estabelecimento é que o tal homem negro tentou insistentemente entrar numa loja que já havia cerrado as portas. Dá para se imaginar o que ocorreu: um bate-boca, um desentendimento, provavelmente troca de agressões e os seguranças, em maior número, imobilizando, talvez espancando e, por fim, aplicando o golpe fatal.

A pergunta que se faz é: se fosse um loiro de olhos claros que estivesse dando um chilique no shopping teria recebido o mesmo tratamento? Obvio que não. O distinto homem branco seria interpelado educadamente, provavelmente convidado a beber um cafezinho na gerência, onde ouviria um formal pedido de desculpas. Ou, se tivesse provocando um ato ilegal, seria simplesmente entregue à polícia, como se recomenda nesses casos.

Mas era um negro, ainda por cima com cara de pobre e esse tipo de gente não merece consideração quando se depara com uma situação extrema como aquela da noite de sábado. Aliás, pelo histórico do lugar, pode-se até dizer que a morte do negro Leidson já era anunciada.

Em agosto do ano passado, Wendel, um rapaz mulato de 20 anos, e mais dois amigos, de 19 anos, foram impiedosamente espancados quando, após se divertirem, se dirigiam ao estacionamento para pegar suas motos. Foram provavelmente confundidos com ladrões. “Eles bateram com madeira e com barra de ferro. Com vergalhão. Por sorte de meu filho, eu fui avisado e cheguei lá e consegui tirar meu filho das mãos dele. Meu filho é bem moreno e quando cheguei ainda ouvi eles xingando meu filho de veado e negro”, lembrou José Ednaldo Coelho Santos, pai do rapaz espancado, no programa Liberdade Sem Censura, da rádio Liberdade FM, na semana passada.

Segundo o pai revoltado, a sessão de tortura aconteceu dentro de uma “jaula” que haveria nos fundos do shopping. “Colocaram ele de joelho onde permaneceu assim por mais de uma hora. Depois começaram a bater nos pés dele”, narrou, no conhecido programa de rádio, acrescentando que as pistolas que os seguranças usavam eram “coisa de polícia”.

Esse evento de agosto também continua em aberto. Ninguém foi punido.

A história lembra aquele caso ocorrido em agosto de 2009, na cidade de Osasco, quando um funcionário da Universidade de São Paulo, tomado por suspeito de um crime impossível – o roubo do seu próprio carro, um EcoSport –, foi submetido a uma sessão de espancamentos com direito a socos, cabeçadas e coronhadas, por cinco seguranças do Hipermercado Carrefour. Enquanto apanhava, a mulher, um filho de cinco anos, a irmã e o cunhado faziam compras. O outro filho de dois anos dormia no carro, por isso ele não entrou no supermercado.

Januário, baiano, negro, teve o rosto bastante machucado e os dentes quebrados. “Você tem cara de que tem pelo menos três passagens. Pode falar. Não nega. Confessa que não tem problema”, teria comentado um PM, assim que chegou para atender a ocorrência. Mas a sorte dele foi a polícia ter chegado, porque só então verificaram que o carro lhe pertencia.

Os negros morrem mais
Como já se disse aqui, neste belo e miscigenado país tropical livre de tragédias naturais, 50 mil pessoas morrem vítimas de assassinato todos os anos. Mas os brancos têm morrido menos e os negros morrem em proporção cada vez maior. E a diferença só faz aumentar. Em 2002, foram assassinados 46% mais negros do que brancos. Em 2008, a porcentagem atingiu 103%. Ou seja, para cada três mortos, dois tinham a pele moreno-escura. Os números são do Mapa da Violência 2011, realizado pelo Instituto Sangari e Ministério da Justiça.

De acordo com o levantamento, entre 2002 e 2008, o número de vítimas brancas caiu de 18.852 para 14.650, o que representa uma significativa diferença negativa, da ordem de 22,3%. Já entre os negros, o número de vítimas de homicídio aumentou de 26.915 para 32.349, o que equivale a um crescimento de 20,2%. Em algumas unidades da Federação, os números lembram extermínio: na Paraíba, sabe-se lá porque, são mortos 1.083% mais negros do que brancos. Em Alagoas, 974% mais. E na Bahia, os assassinatos de negros superam em 439,8% os de brancos.

Em Sergipe, em 2008 foram mortos 417 negros, contra “apenas” 78 brancos – índice de vitimização negra de 135%. Dado para se lamentar ainda mais: oito dos nove estados nordestinos estão entre as 12 unidades da Federação onde é maior a proporção entre os assassinatos de negros e brancos jovens, de até 24 anos. Nessa faixa de idade, aqui morrem 249% mais negros do que brancos.

O coordenador do estudo, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, levanta duas hipóteses para o caso da mortandade dos negros mais especificamente. A primeira delas é que acontece com a segurança o mesmo ocorrido com a educação e a saúde: a privatização. Assim como quem possui condições financeiras vai a escolas particulares, tem plano de saúde e por isso acesso a melhores hospitais, também se protege melhor do crime quem tem mais dinheiro. As guaritas, grades, carros blindados, os filhos com celular e os seguranças privados (em geral policiais fazendo bicos) protegem da violência as classes sociais mais altas e mais brancas.

A outra razão é de responsabilidade direta do poder público. “Tudo indica que as políticas que estamos desenvolvendo desde 2002 no setor de segurança, em muitos estados, se dirigem fundamentalmente aos setores mais abastados da sociedade”, critica o sociólogo. “Se a maioria dos negros é pobre, é óbvio que não serão beneficiados.” É visível que o policiamento é sempre mais atuante e eficaz nos bairros onde moram os mais ricos.

O problema no Brasil não parece ser a escassez de investimentos, mas a sua aplicação. Os investimentos historicamente ficaram concentrados nas capitais e regiões metropolitanas. Com o crescimento das cidades do interior, os índices de violência aumentaram ali porque os municípios não estavam preparados para o problema.
Se junta à “natural” violência maior entre os pobres a ocorrência da violência policial, de que também são vítimas os negros. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) confirmou que a proporção de pretos e pardos mortos pela polícia é maior do que na população em geral. Isso parece que se aplica a seguranças de certos locais mais sofisticados.

Como disse a socióloga Luiza Bairros, ministra da Igualdade Racial, o problema começa na forma como os policiais são treinados para enxergar o negro. “A imagem utilizada para compor o criminoso é calcada na pessoa negra, mais especificamente no homem negro. O negro foi caracterizado como perigoso em estudos de criminologia e o lugar onde ele mora é visto como suspeito. É automaticamente enquadrado nas três possibilidades de construção da suspeição: lugar, características físicas e atitude. Ou seja, como o racismo institucional existe, acaba moldando o comportamento de boa parte da corporação.”

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários