Mulheres

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Já passou o Dia Internacional das Mulheres, eu sei, mas queria ainda falar de mulheres. Falar como quem senta em roda com outras mulheres e conversa. Sagrada roda, sagradas fêmeas. Li muitas coisas lindas no último dia 8 sobre lutas, sobre a incontestável força feminina, sobre nunca desistir, filhos, voto, parto, amamentação, corpo, punhos erguidos, direitos conquistados e a conquistar. Inabalável certeza de que tantos braços femininos – e masculinos também, claro! – erguidos juntos nos trouxeram até aqui. E nos levarão a um lugar muito melhor.

E, sentada nessa roda imaginária, rodeada de tantas mulheres que me precederam e que, nascidas ou a nascer, me sucederão, quero continuar a falar dessas coisas lindas, só que com umas outras palavras que me chegaram aos ouvidos em outras rodas. Uma colcha de retalhos tecida a muitas mãos, em muitas, muitas horas de conversas, com muitas, muitas mulheres diferentes. Nessa colcha cabem todas as histórias, todas as mulheres.

Era uma vez, ou talvez duas vezes, uma avó, com mais de 70 anos, por certo. Todos os dias, tomava café da manhã com jornais, lia tudo e enviava cartas à redação para opinar sobre a atuação política de prefeitos e vereadores. Não era muito afeita a e-mails, mas gostava muito de uma discussão política. “Assim se constrói uma cidade melhor”, ensinava, “quando a gente reclama e argumenta, aponta os erros e exige mudanças”. Mandava também carta aos vereadores. Acho que deve ter mandado carta ao prefeito, por certo. Tinha uma ótima memória para exigências municipais, embora fosse capaz de trocar os nomes dos filhos e perder os óculos algumas vezes por dia. Em todas as eleições, fazia questão de ir votar: “muitas mulheres lutaram pra que eu pudesse fazer isso hoje. Claro que vou, até para poder reclamar mais com eles nos próximos anos!”.

Uma vez me contaram, e quem contou pode confirmar, a história de uma mulher, menina linda de sorriso fácil e gestos mansos. Grávida pela primeira vez, mãe e filha prontas para nascer, esperavam encontrar um lugarzinho em que houvesse amor e segurança para o momento sagrado de parir. Encontraram umas paredes frias de hospital, caras muito carrancudas e pouco amorosas. Para não sofrer muito esse conto de fadas, talvez elas não tenham ouvido gritos para calar a dor, ficar quieta, e por certo não receberam remédios sem saber o que lhes injetavam nem a mamãe teve a vagina rasgada desnecessariamente por um bisturi na hora do parto. Não passaram por isso, assegura quem a mim narrou essa história. Nasceu uma linda princesa de olhos muito vivos, e uma mamãe muito amorosa nasceu junto. Não sei se vocês sabem, mas me contou quem contou essa história, que toda menina quando nasce, ganha a proteção de mágicas anciãs e belas fadas, que guardam a felicidade da recém-nascida. E, no parto, acontece o encontro das guardiãs da mãe, com as guardiãs da filha, uma festa dos seres encantados. Pois que, nesse parto, essas tantas fadas e anciãs resolveram que era tempo daquela mãe ajudar outras mães. Guiaram-na para que encontrasse outras muitas mulheres, futuras mães, recém-mães, com histórias de primeiros e até segundos partos muito violentos e cheios dessas coisas tão medievais e muitos, muitos procedimentos desnecessários. E também muitas mamães ainda por parir, assustadíssimas de que essa fosse também sua história, assustadíssimas de ser mãe, de ter dois corações batendo no mesmo corpo, de um outro corpo crescendo ali no ventre, assustadas pela vida pedindo passagem. Muitas dessas mulheres, coitadas, tinham até se perdido de suas próprias guardiãs mágicas. Foi, então, que as fadas e anciãs da mamãe e da princesa dessa história decidiram transformar essa mãe numa guardiã encantada. Mãos leves e abraços fartos, ela aceitou amorosamente um turbilhão de mudanças que a vida lhe trouxe para poder se tornar, por fim, uma guardiã de mães e filhas e filhos. Tantas mudanças que não cabem aqui, mas que incluíram até um segundo parto, desta vez em casa, muito naturalmente rodeado de todo o amor e de todas as guardiãs e guardiões (era um menino!) possíveis. Hoje, essa guardiã encantada senta em muitas rodas com muitas outras mulheres, contando histórias, contando sua própria história, ajudando outras mulheres a parir sem medo, ensinando caminhos como toda anciã faz. E essa história, quem me contou afirma, termina com a mamãe de barriga crescida outra vez, esperando mais uma princesa para compor o reinado de encatamentos.

Conto três histórias que a mim foram contadas, porque três é um número sagrado. Três marias sustentam o céu, três irmãs tecem todos os destinos do mundo. Essas são histórias sobre mulheres, mas a última conta a história de um homem. É que um dia, sem mais nem pra que, despertou nele uma certeza, confessada a medo para a namorada: sou machista. Disse com lágrimas nos olhos – porque até os machistas choram – e ficou calado esperando uma sentença. Ela, calada, sem saber o que fazer daquilo. Ele destrambelhou a explicar-se, apontando toda uma genealogia de homens machistas e donos de muitas verdades e mulheres assustadas, violentadas, caladas de quem descendia. Confessou pecados, pecador consciente. Nos anos a seguir, ouvidos e coração abertos para as mulheres ao seu redor, descobriu pecados que não sabia ainda que eram pecados. Confessou-os todos em buscam de expiação: umas palavras tortas gritadas na rua para mulheres desconhecidas, beijos roubados à força em carnavais, umas exigências de menos pelos, menos barriga, mais peitos, mais roupa para namorada, mãe, irmãs, amigas. Quem me conta afirma, muitos anos passaram em longo aprendizado de como desfazer um padrão familiar tão velho e enraizado. E ainda hoje aprende, e levanta o punho junto da nova companheira para pedir por mais direitos, menos amarras.

São três histórias só nessa roda. Mas poderiam ser muitas mais. Guardo pra outras rodas histórias de uma parteira que trouxe mais de cinco mil crianças ao mundo, de uma mulher muito forte que dançou uma luta de muitos anos por seu povo, de uma outra que se construiu mulher depois de muitos anos sendo homem, de uma outra iniciática que reaproximou muitas meninas e mulheres de seus próprios corpos, de seus ciclos sagrados. Guardo muitas histórias que ouvi em rodas e que contarei em outras rodas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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