Musiqualidade

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E N T R E V I S T A

Marta Mari
“Aqui jaz Marta Mari. Comeu e bebeu tudo o que quis. Gozou a vida e foi feliz”. Este é o epitáfio que a jornalista e compositora Marta Mari gostaria de ver eternizado em sua lápide. Por aí já dá para sacar que estamos diante de uma pessoa no mínimo diferente. E lógico que para o bom sentido! Lúcida, direta e inteligente ao extremo, Marta ainda por cima é dona de um bom humor contagiante. Criadora de letras sensacionais, ela, embora por enquanto não goze do reconhecimento que o seu talento merece, está entre os melhores desta nossa terra dos cajueiros dos papagaios. Vamos, então, à nossa entrevista:

1 – Quem é Marta Mari?
MM – Uma esfinge. Uma jornalista latino-americana, sem dinheiro no banco, mas com muitos amigos e parentes, importantíssimos para mim, já que os amo tanto.

2 – Como você vê o momento atual da música brasileira? E em especial da música sergipana?
MM – A música popular brasileira acabou logo depois da ditadura. Tivemos raras e honrosas exceções que apareceram nas últimas duas décadas e salvaram a Pátria da mediocridade. Continuo achando Elis Regina a maior cantora do país. Continuo achando Chico Buarque o maior compositor vivo do país e continuo achando Maria Bethânia e Ney Matogrosso os maiores intérpretes do país. Portanto, para mim, pouca coisa mudou. É claro que temos outros artistas maravilhosos. Mas esses já fazem parte de uma outra galeria. O problema é que, no meio de uma galera boa, tem também muito bandido se dando bem. Quando um artista faz arte pensando em dinheiro, deixa transparecer na obra tal intenção, e o povo sente isso. Acho que a música popular brasileira precisa se reinventar, de verdade. Já quanto à música sergipana, creio que algo de muito interessante está se formando. Pela primeira vez, vejo uns ajudando os outros. Artistas de talento, esta terra tem vários. O que sempre faltou foi a união do meio e o profissionalismo da produção. Mas isso está mudando. A galera está se superando e muitos bons discos produzidos aqui estão tecnicamente perfeitos para serem lançados em qualquer lugar do mundo. Por tudo isso, sinto bons ventos para a música sergipana.

3 – O que você acha que falta para que um artista sergipano emplaque a nível nacional? E por que isso se faz tão difícil?
MM – Faltam a devida produção e o profissionalismo que o mercado exige e, com certeza, um pouco mais de velocidade por parte deles próprios.

4 – Quando você pretende lançar um CD de forma comercial? A receptividade ao seu CD “Sem Garantia”, lançado no circuito alternativo, não lhe incentivou a entrar em estúdio para um registro definitivo?
MM – O “Sem Garantia” na verdade foi um produto artesanal para que os amigos parassem de me encher o saco. Acho que passei uns dez anos para me assumir como compositora. Agora assumo: sou compositora, sim! Mas não me sinto cantora e nem sou intérprete. Odeio cantar em público. Odeio gravação de música em estúdio. Odeio ensaio. Mas adoro compor e isto me basta. O que eu gostaria mesmo é que mais intérpretes batessem em minha porta, escolhessem minhas músicas para gravar e me poupassem do ofício de cantar.

5 – De onde tira inspiração para construir suas letras, sempre tão bem sacadas e criativas? Prefere compor sozinha ou com parceiros?
MM – Não sei explicar isso muito bem, mas geralmente começa com algo que me chamou a atenção. E isso pode ser um homem, uma mulher, uma árvore, um animal, uma situação, uma piada, qualquer coisa. Só sei que é delicioso quando pinta o estalo. Aí, eu fico completamente obsessiva até terminar a música, o que pode durar 15 minutos ou um dia inteiro. Quanto aos parceiros musicais, tenho alguns e gosto bastante dos frutos dessas relações. Mas, na maioria das vezes, costumo compor sozinha.

6 – Como consegue conciliar o seu trabalho de jornalista com o de criadora de canções? E o que mais lhe instiga?
MM – Eu acho que já nasci jornalista. A música chegou aos 17 anos quando compus a minha primeira canção e me diverti muito. De lá pra cá, não consegui parar mais. O jornalismo é o meu amor. A música, a minha paixão. O jornalismo é o meu sacerdócio. A música, o mais delicioso hobby. Não saberia viver com apenas um deles. Peço todos os dias permissão para morrer escrevendo, compondo ou fazendo sexo. São certamente as três melhores coisas da vida.

N O V I D A D E S

Enfim, chegou às lojas o esperado CD de Jards Macalé no qual o compositor homenageia o poeta e agitador cultural Waly Salomão! Todas as onze faixas são parcerias entre os dois e Waly está presente declamando a letra de “Olho de Lince”. O disco, que é um lançamento da gravadora Biscoito Fino, conta com diversas participações especiais, tais como: Luiz Melodia, Frejat, o grupo As Gatas, a banda Vulgue Tostói e Adriana Calcanhotto que brilha, magistral, na regravação de “Anjo Exterminado”, canção que já fez sucesso na voz de Maria Bethânia. A baiana de Santo Amaro da Purificação, aliás, é a responsável por outro dos melhores momentos do álbum, a canção “Berceuse Crioulle”. Outros destaques ficam por conta de “Dona do Castelo” e de “Ponto de Luz”. Macalé comprova o seu talento, alicerçado pelos versos inteligentes de Waly, ao alternar melodias convincentes (“Vapor Barato” e “Revendo Amigos”) com outras mais exóticas (“Senhor dos Sábados” e “Negra Melodia”). Vale a pena!

 

Em breve chegará às lojas o novo trabalho da cantora Simone. Trata-se de um registro ao vivo de show realizado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, no qual a cantora contou com significantes participações especiais. Zélia Duncan divide os vocais em “Não Vá Ainda” e em “A Idade do Céu” (versão de Moska para tema homônimo do uruguaio Jorge Drexler). Já Ivan Lins se fez presente em “Vitoriosa” e em “Dandara” e Milton Nascimento, por sua vez, emprestou a sua voz para os registros de “Encontros e Despedidas” e de “Cigarra”.

 

O documentário “Vinicius”, do cineasta Miguel Faria Jr., só chegará aos cinemas em novembro próximo, mas antes disso já estará nas lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o CD referente à trilha da película. Contendo 25 faixas (tem gente que vai morrer com isso!), o disco vai reunir a nata da MPB para reverenciar a obra do Poetinha. Estão lá, dentre outros, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Adriana Calcanhotto, Mônica Salmaso e Mart’nália.

 

No seu próximo CD, Roberto Carlos evocará o estilo country na maioria das faixas. O Rei, que não perde um só capítulo da enjoativa telenovela “América”, já gravou quase todas as canções, algumas no gênero sertanejo romântico, e confirmou o convite feito a Dominguinhos para tocar o seu iluminado acordeom em uma das músicas. Em tempo: apenas duas das canções serão inéditas.

 

Depois de lançar, no ano passado, um ótimo CD, Alcione (uma das vozes mais abençoadas do Brasil) não conseguiu manter o pique no seu recém-lançado trabalho (“Uma Nova Paixão”, pela gravadora Indie Records). Como vem sendo costume há algum tempo, a Marrom constrói seus álbuns alterando sambas e baladas românticas. E o novo trabalho não foge à regra. O problema é que inexistem efetivos bons sambas, assim como baladas que realmente peguem pela emoção. Se, além da mediana “Meu Ébano” (já incluída na trilha sonora de “América”), a gravadora não conseguir emplacar alguma outra canção em alguma nova novela, provavelmente será difícil a obtenção de algum sucesso radiofônico mais robusto. Os poucos destaques ficam por conta da inteligente letra de “O Samba Vai Balançar”, da inspirada releitura do clássico “Sentimental Demais” e da emocionada e auto-biográfica faixa “Obrigada”.

 

O baiano Moraes Moreira vai lançar este mês pela pequena gravadora Rob Digital o seu mais novo CD intitulado “De Repente”. O talentoso artista (que, nos anos oitenta, era freqüentador assíduo das paradas de sucesso) vem sendo injustiçadamente esquecido nos últimos anos já que se trata de um compositor de mão cheia e merecia ter sua vasta e consistente obra mais valorizada. No novo disco, há uma homenagem a Marcelo D2 (em “Baião D2”), uma tentativa de misturar rap e frevo (em “Povo Brasileiro”) e uma visão bem-humorada do caos político nacional (em “Rap da República”). O álbum conta com as participações especiais do filho Davi Moraes e da ex-nora, a cantora Ivete Sangalo.

 

Rubens Lisboa é compositor e cantor

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