Musiqualidade

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R E S E N H A     1

 

Cantora: VIRGÍNIA ROSA

CD: “BAITA NEGÃO”

Selo: SESC – SP

 

Virgínia Rosa, uma das grandes cantoras da nossa música atual e que infelizmente ainda não conseguiu alcançar a projeção a cujo talento faz jus, acaba de lançar o seu quarto CD, uma oportuna homenagem à obra do compositor Monsueto.

Intitulado “Baita Negão” e realizado pelo Sesc de São Paulo (com patrocínio da Petrobrás e apoio do MinC), trata-se de um dos melhores lançamentos deste ano e, embora não venha sendo veiculado comercialmente em larga escala (pode ser encontrado através do site daquela unidade), merece ser conhecido por todos os que admiram a música popular de qualidade.

Virgínia, uma bela morena de traços fortes, é paulista. Filha de mineiros e bisneta de índia, estudou canto lírico, mas não se deixou contaminar por alguns vícios característicos do aprendizado erudito. Dona de uma voz ao mesmo tempo meiga e poderosa, com um timbre claro e muito bonito, possui extensão considerável e uma pronúncia irrepreensível. É do tipo de artista que se preocupa com os detalhes, o que a termina diferenciando da média que atualmente pulula por aí e, como intérprete, injeta sentimento no que canta, mergulhando de cabeça no universo de cada canção apresentada.

Começou artisticamente em meados da década de oitenta como vocalista da banda Mexe com Tudo, a qual (como o próprio nome já entrega) tinha como proposta cantar os ritmos brasileiros e fazer dançar. A carreira solo demorou um pouco a deslanchar, motivo pelo qual o ótimo disco de estréia só foi lançado em 1997 (“Batuque”, que lhe valeu a indicação de cantora-revelação daquele ano e fez despertar a atenção da crítica especializada para o seu trabalho).

Em 2001, no entanto, pôs no mercado, de forma precipitada, o seu segundo trabalho, registro ao vivo de um show em que reunia várias músicas consagradas. Com produção rasa, o mesmo se transformou em um equívoco, o que de certa forma atrapalhou um pouco o deslanchar de uma artista de talento incontestável. Mas eis que, em 2006, Virgínia dá a volta por cima e lança o excelente “Samba a Dois”, reintegrando o caminho da qualidade e renovando o interesse pela sua arte.

O recém-lançado CD vem, portanto, coroar essa fase. Ousada, a cantora convidou vários competentes amigos (estão entre eles: Celso Fonseca, Jair Oliveira, Swami Jr., Douglas Alonso e Dino Barioni) para produzirem as canções. Assim, cada uma das faixas terminou recebendo a assinatura de um produtor diferente, mas o que poderia soar uma confusão tremenda, terminou resultando em um CD fantástico.

São onze faixas que condensam dezesseis canções de autoria de Monsueto (algumas ao lado de parceiros), grande compositor que imortalizou pérolas como, por exemplo, “Me Deixa em Paz” e “Mora na Filosofia”, as quais ficaram famosas nas vozes de Milton Nascimento (com Alaíde Costa) e Caetano Veloso, respectivamente, ambas presentes no repertório do disco ora resenhado.

Sambista que transitava por todas as escolas de samba sem ser diretamente vinculado a nenhuma, Monsueto nasceu no Morro do Pinto e atuou também no cinema e na televisão, tendo se destacado ainda na pintura.

Virgínia soube pinçar ótimas canções dele para compor o álbum, algumas de construção simples (como a animada “Sambamba” e a conhecida “Lamento da Lavadeira”), extremamente valorizadas pela versatilidade da intérprete e pelos inspirados arranjos. Dentre os melhores momentos estão as faixas “A Fonte Secou” (em que Virgínia brinca saborosamente com as divisões), “Mané João” (com interseção do Quinteto em Branco e Preto) e “Faz Escuro Mas Eu Canto” (inspirada melodia em poema de Thiago de Mello), além do delicioso pout-pourri final no qual a artista arrasa, deitando e rolando sobre os metais azeitados da Banda Mantiqueira. Há, ainda, a participação especial de Martinho da Vila na bem-humorada “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo”. Muito legal. Corra e ouça! 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: VIRGÍNIA RODRIGUES

CD: “RECOMEÇO”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

É sintomático que o nome do quarto e novo CD da cantora baiana Virgínia Rodrigues seja “Recomeço”, uma vez que denota que a própria artista parece perceber que se faz a hora de voltar a ter o seu talento devidamente reconhecido nas terras brazilis. Intérprete de poderosos recursos vocais, ela traz em seu canto referências populares e líricas do que ouviu na infância e na juventude. Descoberta pelo conterrâneo Caetano Veloso, foi lançada com estardalhaço no mercado fonográfico (em 1997) com o belo CD “Sol Negro”. De lá para cá, lançou mais dois trabalhos temáticos (“Nós”, em 2000, no qual homenageou, sob sua ótica quase operística – ela cantou durante anos, em igrejas católicas e protestantes -, os blocos afro de Salvador, e “Mares Profundos”, em 2003, no qual apostou em releituras de parcerias entre Baden Powell e Vinicius de Moraes), mas viu seu nome praticamente sumir da mídia especializada, muito também por ter direcionado sua carreira para o circuito alternativo internacional.

Depois de ter realizado, recentemente, brilhante recital em solo sergipano, quando dividiu o palco com Jota Velloso no nosso Teatro Tobias Barreto e embriagou os presentes com sua voz abençoada em interpretações arrebatadores (em especial nas canções “Alguém Cantando”, de Caetano, e “Amor, Meu Grande Amor”, de Ângela Ro Ro, ambas inexplicavelmente ausentes no repertório do recém-lançado disco), Virgínia surge com um trabalho singelo que pinça várias pérolas do nosso cancioneiro e no qual se faz acompanhar, em todas as faixas, somente pelo soberbo piano de Cristóvão Bastos, também o responsável pelos arranjos e pela produção do álbum.

É nestes pontos que reside a origem dos dois senões que carecem ser trazidos a lume. Virgínia é cantora que tem o dom de dar uma visão toda própria às canções que escolhe para cantar, aproximando-as do erudito, e negar esta evidência seria de uma tolice absurda, mas está mais que na hora de uma intérprete do seu quilate dar vez (e voz) a novos compositores e a canções inéditas. Toda a sua discografia até então vem sendo construída com regravações e esse caminho, embora tido por alguns como o mais fácil e garantido, termina afastando-a das novas gerações que precisam conhecer o seu talento e, de certa forma, podando-a de vôos mais altos. O outro ponto diz respeito a apresentar um CD inteiro acompanhada somente por um único instrumento. Por mais díspares que sejam as canções (o que, aqui, definitivamente não é o caso), um trabalho assim termina soando monocórdio. Muitos desses projetos são lançados ou por uma contenção de custos ou visando a ressaltar os atributos vocais do artista. Embora em tempos bicudos como os atuais, não parece se justificar a primeira alternativa, pois a Biscoito Fino (gravadora que pôs o CD no mercado) costuma se esmerar em suas produções. E a segunda opção também não se consolida, uma vez que Virgínia não carece mais comprovar sua potente voz de mezzo-soprano, seu rigor estilístico e sua respiração perfeita.

Entre releituras mais óbvias (“Todo o Sentimento”, do já citado Cristóvão Bastos ao lado de Chico Buarque, “Beatriz”, outra de Chico, agora em parceria com Edu Lobo, e “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran), o CD tem os méritos de resgatar “Eu Te Amo, Amor”, bela canção pouco conhecida de Francis Hime e Vinicius de Moraes, e de jogar luzes sobre duas ótimas músicas que nunca alcançaram o merecido reconhecimento: “Triste Baía da Guanabara” (de Novelli e Cacaso) e “Porto de Araújo” (de Guinga e Paulo César Pinheiro). Outros bons momentos ficam por conta de “Alma” (de Sueli Costa e Abel Silva) e “Por Toda a Minha Vida” (de Tom Jobim e Vinicius).

Virgínia Rodrigues – é fato – deveria recomeçar ousando bem mais (ela pode muito), mas o fez preferindo mergulhar em águas conhecidas…

 

 

N O V I D A D E S

 

·                     Com um título diferente daquele inicialmente divulgado, acaba de chegar às lojas, através da gravadora Warner, “Favela Brasil”, o novo CD do sambista Leandro Sapucahy. Ele, que vem se notabilizando também como ótimo produtor (assinou com maestria o último CD de Maria Rita), optou pelo registro ao vivo de show realizado em maio deste ano na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Bom cantor, o artista só peca pela insistência em supervalorizar o viés das favelas, dando ao trabalho um ar excessivamente pseudopolitizado. Diversificar os temas abordados iria lhe fazer muito bem. O CD conta com as participações especiais de Arlindo Cruz, Leci Brandão e Seu Jorge (este presente na única faixa gravada em estúdio). Os melhores momentos ficam por conta das canções “Numa Cidade Muito Longe Daqui”, “Só Faltou Você” e “Tamu Junto”.

 

·                     Já se encontra disponível o CD intitulado “Bonita” da cantora paulistana Márcia Lopes, um lançamento da gravadora Lua Music. Arranjado pelos competentes Swami Jr. e Mário Manga, o álbum traz, no repertório, regravações de belas canções como: “E o Mundo Não se Acabou” (de Assis Valente), “Joana Francesa” (de Chico Buarque) e “Sábado em Copacabana” (de Dorival Caymmi).

 

·                     Em 1991, a cantora baiana Rosa Passos lançou o segundo título de sua discografia. Intitulado “Curare” (canção de Bororó que abria o repertório de releituras de grandes canções brasileiras), esse trabalho acaba de ser reeditado pela gravadora Deckdisc e apresenta uma cantora de voz doce e pequena que, de há muito, já demonstrava pleno domínio técnico. Músicas como “Dindi” (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), “Folha Morta” (de Ary Barroso) e “Sim ou Não” (de Djavan) ganham novas nuances emolduradas por cordas orquestradas pelo maestro Waltel Blanco.

 

·                     Aline Calixto é cantora mineira que vem se destacando no cenário carioca, mais especificamente no boêmio bairro da Lapa, cantando samba. Tanto que a gravadora Warner saiu na frente e já a contratou com vistas ao lançamento de um CD que chegará às lojas no começo de 2009, trazendo no repertório canções inéditas de feras como Monarco, Wilson Moreira e Nelson Sargento.

 

·                     O cantor João Pinheiro lançou em 2007, com considerável êxito, o seu CD de estréia no qual embalava a música de Sade em formato brasileiro. Agora, encontra-se finalizando os trabalhos de gravação de seu segundo CD (que será lançado pelo selo Sala de Som e traz a assinatura de André Agra na produção), o qual contém a participação de diversos convidados e cujo repertório será centrado no samba e na bossa. Dentre os artistas já confirmados estão: Beth Carvalho, Edu Krieger, Eliana Printes, Fênix, Ana Costa, Rubi e Fred Martins.

 

·                     A cantora Mariana Aydar e o músico Duani (do grupo Forróçacana) serão os responsáveis pelo filme que vai registrar os pontos mais interessantes da vida e da carreira de Dominguinhos e cujas imagens já estão sendo captadas no Rio de Janeiro e em Pernambuco. Quem viver, verá…

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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