Musiqualidade

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E como de costume, esta Coluna, na primeira edição do ano novo, lista os doze melhores discos lançados no ano anterior. É claro que este tipo de coisa vai muito do gosto pessoal de quem escreve (toda lista de melhores é assim), mas procurei fazer a escolha baseando-me não apenas na qualidade técnica dos produtos, mas principalmente na oportunidade e criatividade dos artistas que os lançaram, muitos deles mostrando-se de fato inquietos e não se acomodando aos louros já colhidos. Arte é isso: reciclar-se sempre, ainda que incomodando a alguns.

No terreno da música sergipana, infelizmente tivemos (mais) um ano de marasmo. Foram poucos os lançamentos. Dentre eles, merecem destaque os novos e bons álbuns de Kleber Melo (“Herança”) e Lula Ribeiro (“Palavras Que Não Dizem Tudo”). Em 2009, no entanto, a coisa parece que vai ser bem diferente… Enquanto ficamos na torcida, vamos à dúzia dos discos nacionais que merece fazer parte de qualquer cedeteca que se preze:

 

 

OS 12 MELHORES CD’s DE 2008

 

 

 Chico César
01 – FRANCISCO FORRÓ Y FREVO – Chico César

Depois de um álbum bastante intimista (“De Uns Tempos Pra Cá”), o paraibano Chico César retornou com o pé nos festejos nordestinos, lançando um CD fora de série e recheado de canções inéditas. Produzido pelo próprio artista ao lado de BiD, em “Francisco Forró y Frevo” forrós e frevos se alternaram numa miscelânea maravilhosa que comprova ser Chico, de fato, um dos nomes mais representativos e talentosos da nossa música brasileira atual. Canções como “Comer na Mão”, “Dentro” e “Zabé” estão entre as melhores lançadas em 2008.

 

02 – O CORAÇAO DO HOMEM-BOMBA – Zeca Baleiro

Bastante produtivo, o maranhense Zeca Baleiro esqueceu a tolice limitativa de trabalhos conceituais e voltou com a saga “O Coração do Homem-Bomba”, lançado em dois volumes, através dos quais mostrou toda a sua capacidade de compor com maestria nos mais diversos gêneros musicais. “Vai de Madureira”, “Você é Má”, “Débora” e “Tacape” possuem todos os ingredientes para virem a se transformar em novos hits do repertório do inquieto artista.

 

03 – NO PAÍS DE ALICE – Rogéria Holtz

Ainda pouco conhecida do público em geral, a paranaense Rogéria Holtz lançou um estupendo disco, o segundo de sua carreira, através do qual homenageou a obra da conterrânea poetisa Alice Ruiz. “No País de Alice”, com produção assinada por Celso Fonseca, trouxe ótimas canções criadas em parceria com gente como Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção e Zé Miguel Wisnik. A voz bela e segura de Rogéria conferiu tintas definitivas a temas como “Se Tudo Pode Acontecer”, “Milágrimas” e “Sei dos Caminhos”.

 

04 – PONTO ENREDO – Pedro Luís e a Parede (PLAP)

Fazendo uma música moderna, sem cair em clichês modernosos, e ao mesmo tempo sabendo beber em fontes seguras, a banda PLAP encontrou a coesão buscada em trabalhos anteriores no ótimo “Ponto Enredo”. Com participações afetuosas de Roberta Sá em “Luz da Nobreza”, Zeca Pagodinho em “Ela Tem a Beleza Que Nunca Sonhei”, e Lenine em “4 Horizontes” (todas elas boas canções), o grupo, que baseia seu trabalho em forte camada percussiva, alcançou os melhores momentos do novo disco com a faixa-título e com a contundente “Santo Samba”.

 

05 – BANDA LARGA CORDEL – Gilberto Gil

Depois de um período afastado da música por conta da assunção ao cargo de Ministro da Cultura, Gilberto Gil voltou à ativa com um disco de inéditas que mostrou que o seu lado compositor continua plenamente fértil. Músicas como “Despedida de Solteira”, “Olho Mágico” e “Não Tenho Medo da Morte” são provas irrefutáveis disso. Já sua voz está a apresentar fortes sinais de cansaço, nem de longe lembrando aquele que, outrora, foi um dos nossos melhores cantores…

 

Simone e Zélia Duncan
06 – AMIGO É CASA – Simone e Zélia Duncan

É muito difícil que uma união entre artistas de gerações diferentes consiga um resultado tão bacana quanto “Amigo é Casa”, projeto que pôs no mesmo palco as ótimas cantoras Simone e Zélia Duncan. A feliz coincidência se estendeu até à região tonal em que ambas cantam pois, conforme se pode ouvir no belo trabalho, elas interpretaram juntas (e confortavelmente) a maioria das faixas que compuseram o repertório. Uma sintonia perfeita que resultou em grandes momentos como “Alguém Cantando”, “Grávida”, “Petúnia Resedá” e “Ralador”.

 

07 – É TEMPO DE AMAR – Zé Renato

No ano em que se comemorou o cinqüentenário da Bossa Nova, o ex Boca Livre Zé Renato andou na contramão e, arriscando-se no cancioneiro de um outro marcante movimento musical brasileiro, a Jovem Guarda, conseguiu realçar canções surradas, transformando-as em faixas de qualidade inquestionável. Em “É
Tempo de Amar”, Zé mostrou porque é um dos melhores cantores brasileiros e, ancorado em bons arranjos assinados por Dé Palmeira, resgatou hits como “Coração de Papel”, “Nossa Canção” e “Custe o Que Custar”. 

 

08 – HOJE DE NOITE – Moinho

Produzido a quatro mãos pelos competentes e antenados Berna Ceppas e Kassin, o trabalho de estréia do grupo Moinho (formado pela cantora e atriz Emanuelle Araújo, pelo violonista e guitarrista Toni Costa e pela percussionista Lan Lan) surpreendeu pela qualidade de um repertório alegre onde pontificaram canções inéditas de Moraes Moreira, Nando Reis e Ana Carolina. O CD “Hoje de Noite” resultou pra lá de agradável e teve ainda o êxito de emplacar um grande sucesso, a contagiante “Esnoba”.

 

09 – MARÉ – Adriana Calcanhotto

Depois de um vitorioso projeto voltado para o público infantil, no qual se deu a luxo de assinar com um heterônimo (Adriana Partimpim), a gaúcha Adriana Calcanhotto retornou à música adulta com o CD “Maré” (o segundo de uma trilogia em que, segundo diz, remeter-se-á a temas ligados à água). Sempre boa compositora, neste trabalho a artista preferiu priorizar, com sua voz pequena e límpida, canções de colegas geralmente recorrentes em sua obra. Dentre os melhores momentos estão as faixas “Três”, “Porto Alegre” e “Mulher Sem Razão”.

 

10 – NOVA ESTAÇÃO – Wanderléa

Após um considerável período de hibernação, a Ternurinha resolveu, enfim, acordar e terminou, já no finalzinho do ano, lançando um CD que a resgatou ao patamar das grandes intérpretes nacionais. Embora sem conter canções inéditas, o fato é que “Nova Estação” deu uma oportuna lufada à sua carreira, mostrando ao público um ecletismo até então pouco conhecido. Faixas como “Samba da Preguiça”, “Mil Perdões”, “Choro Chorão” e “Mais Que a Paixão” estão entre as mais agradáveis do trabalho.

 

 Mart’nália
11 – MADRUGADA – Mart’nália

A filha mais famosa de Martinho da Vila já mostrou, há tempos, a que veio. Intérprete talhada para o samba, Mart’nália é sempre uma verdadeira festa. Cantora de timbre rouco e bonito, ela vem, nos últimos anos, diversificando sua arte, sem jamais se afastar daquilo que nasceu sabendo fazer. “Madrugada” surgiu apresentado como o lado noturno de seu disco anterior, o ensolarado “Menino do Rio”, mas terminou soando mesmo como uma complementação. Grandes momentos ficaram por conta das faixas “Alívio”, “Ela é Minha Cara” e “Sai Dessa”.

 

12 – TERCEIRO MUNDO FESTIVO – Wado

Catarinense radicado em Alagoas, o cantor e compositor Wado chegou ao seu quarto CD mostrando um assombroso amadurecimento musical. Suas canções (que, na maioria das vezes, antes apresentavam caráter experimental) vêm ganhando contornos definidos, conforme se pode constatar ao se ouvir, por exemplo, as recentes e deliciosas “Fortalece Aí” e “Teta”, as quais, envoltas em programações eletrônicas, só fazem ressaltar a qualidade de um artista com personalidade própria e dono de uma voz com timbre bonito e exótico.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

 

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