Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantora: BEBEL GILBERTO

CD: “ALL IN ONE”

Gravadora: VERVE/UNIVERSAL

 

Mesmo que, de fato, pareça roçar o lugar comum, não dá para iniciar a análise do novo CD de Bebel Gilberto, o quarto de sua carreira, sem deixar de registrar que a cantora vem de uma família bastante musical: filha do maior nome da eternamente cultuada Bossa Nova, João Gilberto, com a também cantora Miúcha, uma das irmãs de Chico Buarque, Bebel conviveu com as artes desde cedo. Natural, assim que ela enveredasse pela área musical, o que fez primeiramente, nos anos oitenta, ao lado dos parceiros Cazuza e Dé Palmeira (é deles a autoria das canções “Preciso Dizer Que Te Amo”, “Mais Feliz” e “Mulher Sem Razão”, gravadas com êxito por Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso, respectivamente). Em seguida, mudou-se para o exterior e é lá que vem conquistando um público considerável, desde que lançou, em 2000, o elogiado álbum “Tanto Tempo”.

Acaba de chegar às lojas, numa parceria entre a gravadora Verve (da qual Bebel é contratada) com a Universal brasileira, o CD “All In Love”, composto por doze faixas (três delas cantadas em inglês) e que já vem impulsionado pela inclusão da canção “Chica Chica Boom Chic” (de Harry Warren e Mack Gordon), grande sucesso de Carmen Miranda, na trilha sonora da telenovela global “Viver a Vida” (é o tema da personagem interpretada por Camila Morgado). Para quem ouve apenas esta faixa surge a impressão de que o novo trabalho tem um clima alegre e festivo. Não é o que se constata quando se ouve ele por inteiro. De fato, a regravação da música citada é um dos pontos altos do disco com seu delicioso arranjo que mixa loops com baticum afro-baiano e instrumental típico do samba, contagiando todos desde a primeira audição. A maior parte do restante do repertório, no entanto, vem emoldurada por um clima lounge que caracteriza a obra de Bebel, de resto sempre recheada com boas doses de programações eletrônicas e diversos efeitos sonoros.

Cantora de voz pequena, ela é seguidora da escola de seu pai: safa-se com algum charme por conta da forma inteligentemente sussurrante que imprime ao seu canto, mas até por conta disso fica difícil não constatar um resultado que beira o monocórdio.

Gravado entre Salvador (BA), Rio de Janeiro, Nova Iorque e Port Antonio (Jamaica), o repertório resgata canções assinadas por Bob Marley (“Sun In Shining”) e Stevie Wonder (“The Real Thing”). Bebel ainda apresente sua (boa) versão para “Bim Bom”, canção de autoria do papai famoso, a qual conta com a intervenção de Daniel Jobim no piano e nos vocais. Mas é de Carlinhos Brown a presença mais constante nos créditos, já que ele aparece como músico, produtor e compositor. É dele, inclusive, ao lado de Paulo Levita, a autoria de “Nossa Senhora”, um dos melhores momentos do álbum. Outro destaque é a delicada “Forever”, única das seis faixas de autoria de Bebel (compositora mediana) que ela assina sozinha (as outras cinco são parcerias com o mencionado Brown, Thomas Bartlett, Cézar Mendes, Masa Shimizu e Didi Gutman).

Não se trata de um disco arrebatador, mas dá para mostrar que Bebel Gilberto segue firme no objetivo de construir uma carreira musical convincente…

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: CLÁUDIA CUNHA

CD: “RESPONDE À RODA”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Paraense, a cantora Cláudia Cunha mudou-se para a Bahia em 1996 e foi em Salvador que, no ano passado, deu início às gravações de seu primeiro CD, o qual chegou recentemente às lojas através da gravadora Biscoito Fino. Produzido pelo músico e compositor mineiro Sérgio Santos e composto por treze faixas, o álbum se intitula “Responde à Roda” e apresenta uma cantora totalmente pronta: de voz afinada e com ótimo alcance, é dessas que não imita ninguém e sabe o que está interpretando. Com um timbre claro, agudo e muito bonito, ela passa sensibilidade e verdade nas medidas certas. Além dessas qualidades, um outro ponto que merece ser destacado diz respeito ao repertório escolhido. É que fica clara a ousadia da artista quando selecionou a maioria das canções dentre compositores iniciantes ou ainda pouco conhecidos. Até os temas assinados por gente que já goza de reconhecido prestígio na nossa MPB fugiram do óbvio, passando à margem da mesmice de batidas regravações.

O CD é aberto com um belo e inédito ponto de capoeira composto pelo baixista Rodolfo Stroeter. Trata-se de “Din Don” que destaca a percussão precisa levada a cabo por Ramiro Musotto. Instrumentistas de ponta, aliás, estão presentes aos borbotões e fazem a festa. É o caso, por exemplo, de Toninho Ferragutti e seu acordeão que ponteia com destreza “Baião Dividido”, parceria de Cláudia com Rafael Dumont, e de Léa Freire que, com sua flauta mágica, confere um charme todo especial à deliciosa sambossa “Pra Você Gostar de Mim”, um dos destaques do disco, canção de Joyce e Zé Renato. Este, inclusive, faz nela uma apropriada participação especial. Outro compositor presente é Roberto Mendes, convidado da faixa “Seu Moço”, composta por ele ao lado de Hermínio Bello de Carvalho, um samba-de-roda a la Dorival Caymmi. As influências musicais baianas – frise-se – se fazem bem mais presentes que as do Norte natal. Dá para se constatar isso seja através da ciranda de roda que dá título ao trabalho, seja através das batidas que remetem ao candomblé, presentes tanto em “Aioká”, de Alcyvando Luz e Carlos Coqueijo, como na africana “Ganga-Zumbi”, parceria do já citado produtor Sérgio Santos com Paulo César Pinheiro. Há ainda uma outra parceria dos dois, “Putirum”, esta, sim, com reminiscências paraenses. E se o momento de suavidade extrema fica com a faixa “Mar do Norte”, de Ivan Bastos e Gil Vicente Tavares, a qual surge emoldurada por um arranjo que condensa piano, cello e baixo acústico, a influência rítmica do Nordeste transparece nas células de maracatu explicitadas em “No Girar de Alice”, cuja autoria Cláudia assina sozinha e foi feita para sua filha.

Mas os grandes momentos do CD são mesmo as revisitas de “Auto-Retrato”, obra-prima de Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro, registrada em clima camerístico apenas com o piano de André Mehmari, e de “Quando Eu Era Sem Ninguém”, graciosa e contagiante criação do exótico Tom Zé, abrilhantada pelo sax soprano de Nailor Proveta. Não dá, contudo, como deixar de citar o arranjo sublime que Luciano Salvador Bahia bolou para “Cabe um Tanto”, inspirada canção romântica de autoria da emergente Manuela Rodrigues.

É, portanto, bastante alvissareira a estreia fonográfica de Cláudia Cunha. Corra e ouça!

 

 

N O V I D A D E S

 

 

·                     Lu Horta, cantora de voz delicada e agradável, lança seu segundo CD. Intitulado “Paraíso Eu”, o novo trabalho mostra uma dúzia de canções das quais se destacam “Instante” (parceria da própria Lu com Moisés Santana, convidado especial da faixa), “Tempo Vento” (de Arnaldo Antunes) e “Sapatos em Copacabana” (de Vítor Ramil).

 

·                     O álbum de estreia do grupo carioca Dughettu, liderado pelo vocalista Marcello Silva, apresentador do programa de TV “Conexões Urbanas”, começa a ser formatado e terá a produção assinada por Plínio Profeta. Dentre os convidados especiais já garantiram presença Mart”nália, Elisa Lucinda, Gabriel Moura e Gerson King Combo.

 

·                     Targino Gondim, o autor de “Esperando na Janela”, lança “Simplesmente Assim”, o seu segundo DVD que conta com a participação especialíssima de Elba Ramalho em “Deixe Estar” (parceria de Gondim com Tenilson Del Rey e Gersinho) e “Boato Ribeirinho” (de Nilton Freitas, Wilson Freitas e Wilson Duarte).

 

·                     O violonista Lula Galvão lança seu primeiro CD solo. Intitulado “Bossa da Minha Terra” e editado pela gravadora Biscoito Fino, o trabalho conta com Rosa Passos como convidada da faixa “Lígia”, pérola de autoria de Tom Jobim.

 

·                     Fã incondicional dos Beatles, o pesquisador musical Marcelo Fróes acaba de lançar pelo seu selo Discobertas o projeto “Beatles’69”, composto por três discos que apresentam registros inéditos de canções mais que conhecidas, mas que agora ressurgem nas vozes de nomes como Maria Gadú, Ivan Lins, Kleiton & Kledir, Jota Quest e Zé Ramalho, dentre vários outros.

 

·                     Marcelo Yuka produz o CD que o trio carioca Djangos põe em breve no mercado. Do repertório fará parte a regravação de “Comportamento Geral”, célebre criação de Gonzaguinha. Dentre os convidados estarão Amora Pêra (integrante do quarteto Chicas), Lazão e o rapper João Xavi.

 

·                     Mallu Magalhães já se encontra em estúdio, gravando seu segundo CD, agora sob a produção de Kassin. Um lançamento tão precoce quanto a artista que desta vez promete um maior número de canções cantadas em português.

 

·                     “Catalogue Reissoneé” é o título da coletânea do grupo português Clã que aporta no mercado nacional trazendo a participação especial de Arnaldo Antunes no registro ao vivo de “Consumado”, parceria dele com Carlinhos Brown e Marisa Monte.

 

·                     Um disco de milongas é o próximo projeto que o gaúcho Vitor Ramil já finaliza em estúdio de Buenos Aires. São doze faixas (dez delas inéditas) que contemplam melodias criadas pelo artista sobre poemas do brasileiro João da Cunha Vargas e do argentino Jorge Luis Borges. O violonista Carlos Moscardini e o cantor Caetano Veloso são os convidados especiais.

 

·                     O novo DVD de Zeca Baleiro, resultante da turnê do show “O Coração do Homem-Bomba” será registrado em duas etapas. Uma já foi gravada durante apresentação realizada recentemente em Belo Horizonte; a outra será feita em estúdio numa espécie de jam session que envolverá apenas o artista e os músicos de sua banda.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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