MUSIQUALIDADE

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R E S E N H A

 

Cantor: LUIZ TATIT

CD: “SEM DESTINO”

Gravadora: DABLIÚ DISCOS

 

Conhecido como integrante da chamada “vanguarda paulista”, Luiz Tatit foi um dos mentores do Grupo Rumo, criado em 1974 e que teve como objetivo expandir as fronteiras da composição, arranjo e interpretação na música brasileira. Bacharel em composição pela USP e expert no terreno da linguística e semiótica, tendo publicado diversas teses e dissertações, ele estreou de maneira solo no mercado fonográfico em 1997. Com criações suas gravadas por nomes como Zélia Duncan, Ney Matogrosso, Vânia Bastos, Leila Pinheiro e Daúde, entre outros, Tatit é do tipo de compositor que possui uma marca própria, sendo suas obras reconhecidas de imediato.

Através da gravadora Dabliú Discos, acaba de chegar às lojas o seu mais novo CD intitulado “Sem Destino”, o quinto da carreira. Produzido por Alexandre Fontanetti, trata-se de um disco inteiramente autoral composto por treze faixas, algumas delas assinadas com parceiros. Basicamente calcado em harmoniosos violões executados pelo próprio artista e por seu filho Jonas Tatit, o disco tem sua delicada sonoridade adornada por eventuais inserções de instrumentos como sanfona, viola, cello e violino, o que termina por lhe conferir um charme todo especial.

Inventor de um estilo de cantar falado, Tatit é especialmente inspirado nas letras originais que escreve. Seus temas podem ser vários, mas costumeiramente são abordados com inteligência e irreverência em doses certas. Um bom exemplo disso é a (quem sabe?) autobiográfica “Por Que Nós?”, parceria com o guitarrista Marcelo Jeneci (nome emergente da nossa MPB e que ainda este ano deverá estar lançando o seu álbum de estreia como cantor), em que os questionamentos vários são construídos através de palavras proparoxítonas escolhidas com esmero. Outra interessante parceria é “Nando e Nanda”, feita ao lado de Dante Ozzetti, canção que narra, com versos curtos e de forma implícita, a empatia que surge entre duas pessoas quando nada para isso contribui a não ser o destino. Com o já citado rebento, Tatit apresenta “Quem Gostou de Mim”, escrita em 2007 especialmente para integrar a trilha do espetáculo de dança “Querida Senhorita O”, de Juliana Moraes, e que na atual versão surge com a intervenção vocal da segura Juçara Marçal.

E, embora não seja Tatit um intérprete de recursos vocais fora do comum, ele sabe dar às suas canções uma visão bem legal. É o que se denota através de “Almas Gêmeas”, música que recentemente ganhou bonito registro no mais recente trabalho da cantora Ana Costa (e que ali contou com a participação especial de Moska). Há ainda parcerias inéditas com a poetisa Alice Ruiz (“Sem Palavras”) e com o saudoso Itamar Assumpção (“Quem Sabe”), mas se faz mister registrar que nenhuma delas roça a genialidade de “Relembrando Nazareth”, peça de Capiba que recebeu formidável letra de Tatit (na qual títulos de algumas obras de Ernesto Nazareth são inseridos) e conta com a irrepreensível participação especial de Ná Ozzetti (presente também, embora de maneira mais sutil, em “De Favor”).

Dentre as canções que Tatit assina sozinho, não dá para deixar de destacar dois dos melhores momentos do CD: a faixa-título (que, desde já, se credencia a ser içada ao rol de ‘antológica’) e a deliciosa “A Volta do Sabiá” (a qual, em suas entrelinhas, dialoga com a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias). E há também espaço para um bem-humorado questionamento sobre os rumos da produção musical moderna através das personagens Jucimara e Jaqueline em “Quando a Canção Acabar”, resgatando a antiga fábula da cigarra e da formiga.

Luiz Tatit é cronista de enorme talento. Sua música pode ter certa dificuldade em chegar ao grande público, muito pela opção por um fino acabamento, mas decerto que merece ser conhecida por todos os que realmente possuem bom gosto musical. Ao esboçar sem medo uma libertação sonora através de conceitos exóticos e de propostas múltiplas, ele se apresenta como um cidadão perfeitamente engajado em seu tempo. Muito massa!

 

 

N O V I D A D E S

 

· Do Pará chega uma boa novidade: o CD “Banquete”, do compositor e violonista Felipe Cordeiro. São quatorze faixas assinadas pelo artista ao lado de parceiros e interpretadas por diversos conterrâneos, tais como: Arthur Nogueira, Olivar Barreto, Andrea Pinheiro, Floriano e Patrícia Bastos. Entre os melhores momentos, além da canção-título, estão as faixas “Essa Cidade” (com Karina Ninni, uma bela voz que lembra o timbre e o fraseado de Elis Regina), “Um!” (com Angélica Costa) e “Emaranhado” (com Alba Maria). Vital Lima é parceiro e intérprete da bonita “Mar Memória”.

 

· A gravadora Sala de Som Records está pondo nas lojas o segundo CD do jovem Yassir Chediak (carioca, mas criado em Minas Gerais), anunciando-o como um “violeiro moderno”. Na verdade, produzido por André Agra, o álbum “A Viola e o Mar” mostra um artista que parece já ter escolhido o seu caminho (o da música regional de tradição), mas que ainda carece de experiência, o que somente a estrada poderá lhe conferir. Yassir não faz feio no quesito cantor, embora não seja possuidor de um timbre que empolgue de primeira. Na seara da criação, ele assina a maioria das onze faixas que compõem o repertório, alcançando os melhores momentos em “Chora Morena” (que conta com a participação especial de Geraldo Azevedo) e “Na Força do Patuá”. Há parcerias com Jorge Mautner (“Leva Eu Morena”) e Braz Chediak (“Flor da Noite”), além de regravações para os clássicos “Correnteza” (de Tom Jobim e Luiz Bonfá) e “Anunciação” (de Alceu Valença).

 

· Tita Lima é cantora, compositora e filha de Liminha, o famoso produtor musical que ajudou a consolidar as carreiras de, entre outros, Gilberto Gil, Vanessa da Mata e Paralamas do Sucesso. Através do selo Label A., a artista acaba de lançar o CD “Possibilidades” que, produzido por ela, é composto por onze faixas, seis delas compostas pela própria ao lado de parceiros. Uma das exceções é a revisita ao belo tema “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” (de Lô e Marcio Borges) que se transforma em um dos melhores momentos do álbum ao lado das interessantes “Ciranda” e “Só o Começo”. Tita não possui grande extensão vocal, mas consegue fazer direitinho a lição de casa até porque seu som transita suave por grooves contemporâneos que não exigem grandes arroubos interpretativos. Na verdade, nada de muito original, uma vez que essa vem sendo a cartilha da moda. No entanto, ela mostra possuir personalidade e pode, sim, vir a se transformar futuramente em uma grata surpresa. Em “Maria, Tô Pra Voltar”, Tita conta com apropriada participação especial, nos vocais, de Carlos Pontual.

 

· Lançado originalmente em 1982, “Segredo do Meu Coração”, o segundo disco da cantora Olivia Hime, acaba de ser reeditado, desta feita através da gravadora Biscoito Fino. Grandes momentos do bom trabalho produzido por Dori Caymmi e pelo maridão Francis Hime ficam por conta de “Zabelê” (de Gilberto Gil e Torquato Neto), “Estrela Guia” (de Pery e Fogaça) e “Canção da Noiva” (de Dorival Caymmi).

 

· Aposta da gravadora Som Livre para este ano, a mineira (de BH) Lu Alone acaba de fazer chegar ao mercado o seu homônimo CD de estreia. Das treze faixas, apenas “Sugar Sugar”, em azeitada regravação, não é de autoria da garota que, dentro do estilo adotado (um rock com pegada pra lá de firme e mensagens diretas), faz de fato bonito. Lu, que também é pianista, canta muito bem e suas composições têm grandes chances radiofônicas. Destaque para as faixas “Girls Can Rock”, “Change The World” e “Falling”.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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