Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Cantor: MARTINHO DA VILA

CD: “POETA DA CIDADE – MARTINHO CANTA NOEL”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

No ano em que se comemora o centenário de nascimento de Noel Rosa, um dos maiores compositores da história da nossa MPB, artista que influenciou nomes como Chico Buarque e Paulinho da Viola, nada mais oportuno que se rendam merecidas homenagens a ele. A primeira de uma provável extensa fila acaba de chegar às lojas: trata-se do CD “Poeta da Cidade – Martinho Canta Noel”, um lançamento da gravadora Biscoito Fino que apresenta o mergulho de Martinho da Vila em belas canções criadas por Noel.

Nascido e criado no bairro carioca de Vila Isabel, Noel foi um compositor contumaz (deixou mais de duzentas composições, mesmo tendo morrido com apenas 26 anos). É dele a autoria de clássicos do nosso cancioneiro, os quais vêm perpassando as gerações e ganhando sucessivas regravações, a exemplo de “Palpite Infeliz”, “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim”, “Pastorinhas”, “Gago Apaixonado”, “O Orvalho Vem Caindo” e “Com Que Roupa?”. Abandonou o curso de Medicina para abraçar a boemia e, por conseguinte, a música, sua maior paixão. Integrou o Bando dos Tangarás, ao lado de João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito e teve suas primeiras composições gravadas por ele mesmo em 1930. Suas criativas letras são o retrato da época em que viveu. Inteligente e perspicaz, abordava temas que passavam de um amor nem sempre idílico para uma realidade nua e crua, mas sempre com bom humor. Mário Reis, Francisco Alves e principalmente Aracy de Almeida foram alguns dos intérpretes mais notórios de seus sambas. Tornou-se famosa a sua querela com o sambista Wilson Batista, daí resultando várias músicas, tanto de uma parte quanto de outra.

Martinho da Vila, por sua vez, apesar de ter nascido no interior do Estado do Rio de Janeiro, fez-se sambista também em Vila Isabel (portanto, perfeitamente justificado o sobrenome que adotou). Famoso por diversos sambas, a exemplo de “O Pequeno Burguês”, “Casa de Bamba”, “Iaiá do Cais Dourado”, Disritmia”, “Canta, Canta, Minha Gente” e “Ex-amor”, ele vem lançando, nos últimos anos, álbuns com uma regularidade invejável. Sempre foi um bom vendedor de discos e fornecedor de sucessos para várias intérpretes, dentre as quais Alcione, Beth Carvalho e Simone.

O CD recém-lançado, dessa forma, une as artes desses dois grandes artistas. Embalado por um belíssimo trabalho gráfico (na capa, os perfis dos dois sambistas  se entrelaçam por conta da excelente sacada do uso de verniz transparente que, aliás, também se faz presente no encarte por detrás das letras, vendo-se aí desenhos do famoso caricaturista Nássara) e com a produção assinada pelo competente Rildo Hora (que trabalhou anteriormente com Martinho em várias outras oportunidades, mas não o faz desde 2002), o projeto conta, em dez das quatorze faixas, com as participações especiais das cantoras Analimar Vantapane, Maira Freitas, Mart’nália, Aline Calixto, Ana Costa e Patricia Hora (as três primeiras são filhas de Martinho). Por conta disso, a ideia inicial era que o álbum se intitulasse “Martinho Canta Noel com Elas” (o que, aliás, seria muito justo).

Ancoradas por eficientes arranjos, elas de fato ajudam Martinho (com voz ainda em forma e sempre mostrando sua divisão única ao cantar) a dar vida a canções como “Três Apitos”, “Último Desejo”, “O X do Problema”, “Coisas Nossas” e “Rapaz Folgado”. Todas se saem bem dentro do (conhecido) universo do samba e fica realmente difícil explicitar destaques.

Martinho, sagaz, abre e fecha o CD com “Filosofia” e “Cidade Mulher” (duas das quatro faixas que canta sozinho; as outras são as pouco conhecidas “E Não Brinca Não” e “Seja Breve”) que versam sobre a arte em geral e o amor ao Rio. Nada mais adequado para cristalizar a intenção de que Noel Rosa não foi apenas o “Poeta da Vila”, mas, além que isso, se perpetuou como o “Poeta da Cidade”. Corra e ouça!

 

 

N O V I D A D E S

 

· A rigor, “De Cartola e de Tamanco”, o novo e bonito CD da cantora Sáloa Farah, poderia ser catalogado como um disco de sambas. Mas a ótima cantora de voz extremamente grave consegue extrapolar limites ao reunir com talento as canções que compõem as quatorze faixas do álbum. Lançado através da gravadora Albatroz e produzido pelo compositor Paulo César Feital (parceiro, dentre outros, de Jota Maranhão, João Nogueira, Carlinhos Vergueiro e Guinga), um fã ardoroso de Sáloa, o trabalho realmente se impõe pela categoria da intérprete, irrepreensível em momentos como “Vela no Breu” (pérola pouco conhecida de Paulinho da Viola e Sérgio Natureza, de cuja letra se extraiu o título do CD), “Seja Breve” (de Noel Rosa) e “Artigo de Luxo” (de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro). Mas ela também se mostra uma compositora inspirada, constatação sedimentada ao se ouvir o medley que reúne os partidos altos “Doce de Amora”, “Cadê Ioiô” e “Mulata da Lavradio” (assinados por ela, Pedro Moreno e César Veneno) e a contundente “Deus Me Livre” (composta ao lado do já citado Feital). Este, aliás, comparece como convidado do samba-exaltação “Camisa Suada” (dele e Altay Velloso, seu colaborador mais constante). Outra participação especial é a de Diogo Nogueira que surge em “Injuriado”, delicioso tema de Chico Buarque. Outros destaques ficam por conta de “Melhor Assim” (de Cláudio Jorge e Nei Lopes) e “Massemba” (de Roberto Mendes e Capinam), canções que também integram os repertórios de Teresa Cristina e Maria Bethânia, respectivamente. Enfim, um álbum que vale super a pena conhecer!

 

· A gravadora Biscoito Fino acaba de reeditar o álbum “Na Madrugada”, gravado originalmente na segunda metade dos anos sessenta, e que reuniu os talentos então emergentes de Paulinho da Viola e Elton Medeiros. Entre as várias pérolas apresentadas, destaques para “O Sol Nascerá”, “Mascarada”, “Arvoredo” e “14 Anos”.

 

· A excelente cantora Fabiana Cozza entregou a Paulão 7 Cordas a tarefa de produzir o terceiro CD de sua vitoriosa carreira, o qual já está sendo gravado. Estará disponível até o final deste ano.

 

· A homenageada da edição de 2010 do Prêmio da Música Brasileira será a sambista Dona Ivone Lara. A cerimônia acontecerá em agosto próximo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Muito justa a lembrança à talentosa artista, autora de sucessos inesquecíveis como “Sonho Meu”, “Alguém Me Avisou” e “Alvorecer”.

 

· A cantora mineira Carolina Lima (que fez parte da banda Squadra e participou do The Silvas, projeto paralelo do produtor Liminha e dos músicos Dé Palmeira e João Barone) estreia no mercado fonográfico com o CD “Panamericana”, um lançamento da gravadora Sony Music. Produzido pela própria artista e composto por dez faixas autorais, a maioria delas criadas ao lado do parceiro César Maurício, o disco tem pegada pop, com sonoridade calcada no folk rock dos anos setenta e arranjos que contam com banjos, violinos, acordeons, gaitas e até mesmo uma tuba. Carolina canta bem, mas como compositora soa repetitiva. Os destaques ficam por conta das faixas “Te Desfaço” (que conta com a insuspeita participação de Miéle nos vocais) e “Sua Canção” (composta com Nando Reis).

 

· O cantor e compositor paraibano de forró Chico Salles está lançando seu quinto CD que chega às lojas através da gravadora Som Livre. Intitulado “O Bicho Pega” e com a produção assinada por José Milton, o novo disco traz as participações especiais de Fágner (em “Forró do Apagão”, de Maciel Melo) e de Alfredo Del-Penho (em “A Cumeeira de Aroeira Lá da Casa-Grande”, de Jessier Quirino). Os melhores momentos ficam por conta de “Masculina” (composta por Chico ao lado de Edu Krieger), “Como Alcançar uma Estrela” (de Miltinho Edilberto) e “Forró do Sapateiro” (de Petrúcio Amorim). Além da seara nordestina (que prepondera no trabalho), Chico mergulha também no terreno do samba (em “Não Vá Fazer” e “Pedala, Seleção”).

 

· A banda mineira Pato Fu já se encontra em estúdio registrando as canções que farão parte de seu próximo CD, o qual chegará às lojas no segundo semestre e vem sendo anunciado como um “projeto especial”.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br   

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