Musiqualidade

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Cantora: CLARA MORENO

CD: “MISS BALANÇO”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

A cantora Clara Moreno ainda é pouco conhecida em terras brasileiras, embora tenha lançado alguns bons álbuns por aqui. Com uma discografia eclética que já passeou por sonoridades eletrônicas e acústicas, sua tendência a namorar o samba jazz balançado, no entanto, tornou-se nítida desde a estreia fonográfica. Filha da também cantora (e fértil compositora) Joyce, Clara vem desenvolvendo, nos últimos anos, uma carreira ascendente na Europa e mais especificamente no Japão. Morena exótica e dona de um rosto anguloso, ela acaba de pôr nas lojas, através da gravadora Biscoito Fino, seu mais novo álbum. Trata-se de “Miss Balanço”, um trabalho temático produzido por Rodrigo Costa que recorre ao tradicional ritmo catalogado como sambalanço e que reúne, em suas quatorze faixas, temas (em sua maioria) pouco conhecidos do grande público.

E é talvez aí que reside o grande mérito do projeto, já que, passando ao largo de regravações de canções batidas, termina por jogar novas luzes em músicas interessantes que merecem de fato ser conhecidas pelas gerações atuais. Na verdade, esse disco já havia sido lançado no exterior no ano passado quando, bem recebido pela crítica, ratificou o talento e a ginga de Clara. Sob o prisma escolhido para dar liga ao álbum, muito justo que o compositor mais gravado seja Orlandivo, conhecido por criar canções cheias de suingue. Ele, inclusive, aparece no disco, como convidado especial, na contagiante faixa “Tamanco no Samba” (parceria com Helton Menezes). Clara, esperta, soube pinçar algumas outras das melhores criações do artista, de forma que também se fazem presentes, no repertório do CD, “Brincando de Samba”, “Mestiço” e “Vai Devagarinho” (parcerias de Orlandivo com Celso Morilo, Ypiranga e Roberto Jorge, respectivamente). Todas elas apresentam construções melódicas que evocam o pessoal da chamada “Turma da Pilantragem”, na qual se encaixam nomes como os de Wilson Simonal e Jorge Ben Jor, por exemplo. O primeiro aparece nos créditos com a canção “Jeito Bom de Sofrer” (parceria com Jorge Luiz), um dos momentos mais calmos do álbum. Já da lavra de Ben Jor são revisitadas a pouco conhecida “Uala Uala-la” (que fez parte de seu primeiro disco, lançado em 1963) e o clássico “Bebete Vãobora” (que traz a participação vocal do cantor Skowa).

Clara se entrega com graça e malemolência aos ótimos arranjos que receberam a adesão de músicos de ponta, tais como: Tiago Costa (no piano), Jorge Helder (no baixo), Guello (na percussão) e Tutty Moreno (na bateria). Seu timbre vocal não é daqueles que se destacam de imediato, mas ela sabe se adequar com destreza ao que cada canção lhe pede, o que é um mérito e tanto. A divisão soa correta e se faz destacar em passagens como a bonita “Que Besteira” (parceria de Gilberto Gil e João Donato, que conta com a participação deste ao piano) e a esfuziante “Deixa a Nega Gingar” (de Luiz Cláudio). De um disco lançado no já distante 1967 e que registrou o histórico encontro de Elza Soares e Miltinho (aliás, uma dupla sambalanço puro), Clara resgatou a divertida “Pourquoi?” (de Jair de Castro e Caco Velho), transformando-a em um dos melhores momentos do disco, ao lado da bossa “Mais Valia Não Chorar” (de Normando e Ronaldo Bôscoli). Completam o repertório a apropriada releitura para o carioquíssimo “Balanço Zona Sul” (de Tito Madi) e a bem-vinda “Samba de Nego” (uma das grandes criações de Roberto Corrêa e Sylvio Son).

Mergulhando em um balanço delicioso, Clara Moreno assume o papel de Miss ao retomar uma tradição musical brasileira nascida na década de cinquenta, mas que termina por resultar bem atual. Seu novo CD é para ser recebido e ouvido com alegria!

 

 

N O V I D A D E S

 

·  “Carmen Miranda Hoje” é o título da coletânea que a gravadora Biscoito Fino acaba de lançar. São doze gravações da cantora remixadas pelo produtor Henrique Cazes, o qual emprestou às mesmas toda a qualidade técnica atualmente disponível e acrescentou uma base de cordas (violão de 7, cavaquinho e violão tenor), detalhes de sopros e uma generosa percussão aos registros originais da década de trinta. O produto traz como bônus duas faixas virtuais: o vídeo de “Querido Adão” e uma entrevista com Ruy Castro, autor da mais famosa biografia sobre a Pequena Notável.

 

· Rildo Hora foi o nome escolhido para produzir o próximo CD do sambista Dudu Nobre. O trabalho deverá priorizar um repertório formado por canções inéditas. Outro cantor que escolheu o experiente Rildo para produzir seu mais novo CD foi Zeca Pagodinho. Ambos os trabalhos deverão estar disponíveis até o final deste ano.

 

· O pernambucano Geraldo Maia lança o CD “Lundum”, mais um dos projetos aprovados na safra do Projeto Pixinguinha do ano passado. Produzido por ele ao lado dos músicos que o acompanham e que compõem o grupo O Fio da Meada, o álbum é composto por quatorze faixas, sendo nove delas criadas pelo próprio artista, a maioria ao lado de parceiros. Trata-se, sem dúvida, de seu melhor trabalho. A base é o samba, mas um samba misturado e formatado no Nordeste brasileiro. Dentre as melhores faixas estão “Navenida/Chamada” (de Geraldo e Juliano Holanda), “Helioiticicando” (de Geraldo e Marco Polo), “Só Sei Que Vivendo Morro” (de Maciel Melo e Dimas Batista) e “Amor Paregórico” (de Maurício Cavalcanti e Marcelo Varela), mas nada supera a beleza de “Deixa Soar” (outra canção resultante da parceria entre Geraldo e o já citado Juliano), a qual conta com a participação especial de Paes nos vocais. A outra convidada do disco é a cantora Mônica Feijó (em “Santa Luzia”).

 

· O cantor e compositor Thiago Amud (que já tem criações gravadas por Milton Nascimento, Mariana Baltar e o grupo Garganta Profunda) estreia no mercado fonográfico com o CD intitulado “Sacradança”, um trabalho temático composto por dez canções autorais que surgem adornadas por contornos épicos e que chega ao mercado através do selo Delira Música. As letras extensas e as melodias que não seguem o convencional podem dificultar uma aceitação imediata do disco produzido pelo próprio artista que tem como ponto alto os arranjos muito bem elaborados. Thiago canta legal com um timbre bastante agradável e conta com as participações especiais de Guinga (voz na valsa “Irreconhecível”), Gabriel Grossi (gaita em “Aquela Ingrata”) e Armando Lobo (voz em “Gnose Song” e “Sal Insípido”). As faixas que mais se destacam são o samba troncho “Inteira, Despedaçada”, o frevo antigo “Enquanto Existe Carnaval” e a marcha-rock “A Marcha dos Desacontecimentos”.    

 

· O dramaturgo Eduardo Bakr escreveu um musical inspirado na obra musical de Ivan Lins que será estrelado pelo ator Tadeu Aguiar. Ivan compôs a inédita música-tema do espetáculo e não vê a hora de conferir o resultado nos palcos, o que, no entanto, somente acontecerá em 2011.

 

· Sylvia Patricia é artista baiana que tenta, há tempos, um lugar ao Sol. Compositora eminentemente pop, ela está lançando, através da gravadora Lua Music, mais um CD, desta vez produzido por ela ao lado do baixista Fernando Nunes. “Andante” é o título do seu sexto disco, resultado das experiências adquiridas durante várias viagens pela Espanha, Portugal, Estados Unidos e Tailândia ao longo do ano passado. Com voz pequena mas agradável e bem colocada, a cantora apresenta onze canções, a maioria delas composta por ela própria. Os melhores momentos ficam por conta das inéditas “As Contas”, “Haja Yoga” e “Lady Pank” e da regravação de “Resistiré”, tema do filme “Ata-me”, de Pedro Almodóvar.

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br   

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