MUSIQUALIDADE

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A

 

Cantor: ZECA PAGODINHO

CD: “VIDA DA MINHA VIDA”

Gravadora: UNIVERSAL

 

Um dos maiores vendedores de discos no Brasil atualmente é Zeca Pagodinho. Sambista da mais alta cepa, ele vem construindo uma carreira bastante coerente desde que, em 1981, foi descoberto pela cantora Beth Carvalho em uma roda de samba do bloco Cacique de Ramos, na zona norte do Rio de Janeiro. O primeiro álbum solo viria a ser lançado somente cinco anos depois, mas de lá para cá o artista não parou de emplacar sucessos, vindo a ganhar vários discos de ouro e platina. Zeca definitivamente foi um dos nomes que ajudou a fazer com que o samba voltasse a ser reconhecido e cultuado por todas as faixas etárias e fatias de público. Também compositor, ele, no entanto, vem, nos últimos tempos e em seus mais recentes trabalhos, dando prioridade ao lado intérprete.

Através da gravadora Universal, chegou recentemente às lojas (já com vistas às vendas do final de ano que se aproxima) o seu mais novo CD. Intitulado “Vida da Minha Vida” e com a produção assinada pelo competente Rildo Hora, trata-se de um trabalho que dignifica a discografia de Zeca. Superior ao seu anterior disco de estúdio (“Uma Prova de Amor”, lançado em 2008), o repertório é composto por quinze faixas nas quais ele se mostra inteiramente à vontade.

Nada no trabalho foi feito pensando em reinventar a roda. Lá, todos os elementos presentes estão postos para fazer funcionar um produto que, além do desejo que se transforme em outro campeão de vendas, tem como um dos principais objetivos fazer com que Zeca continue a ser cultuado entre os aficcionados pelo gênero. Mas é bom se frisar que, em várias passagens, por exemplo, ressai a ousadia de uma produção que se permite arroubos como a utilização de belo naipe de cordas (e aqui ressalte-se que tal parênteses se faz necessário porque instrumentos como violinos, violoncelos e violas não são comuns ao universo do samba).

As canções, por seu turno, parecem ter sido escolhidas a dedo para que Zeca pudesse se apropriar delas com facilidade, muito pela proximidade de seus entornos com as coisas em que ele acredita e gosta de fazer. Se as delícias cariocas regadas a cerveja e churrasco são explicitadas em “Quem Passa Vai Parar” (de Efson, Marquinhos PQD e Carlito Cavalcanti, faixa que conta com a participação especial de Alcione), “Orgulho do Vovô” (única música presente no set list de autoria do próprio Zeca composta ao lado de Arlindo Cruz) traz a lume a alegria sincera do artista com o nascimento do primeiro neto.

A faixa-título, uma bonita parceria entre Sereno e Moacyr Luz que foi lançada originalmente no último CD deste último (“Batucando”, de 2009) e contava com a presença vocal do próprio Zeca, transforma-se em um dos grandes momentos do recém-lançado trabalho, ao lado de “Hoje Sei Que Te Amo”, criação das mais inspiradas de Nelson Rufino (que tem tudo para se transformar em hit), “Um Real de Amor” (genuíno samba de Fágner, criado com Brandão e registrado pela primeira vez no disco que ele gravou ao lado de Zeca Baleiro) e “Desacerto” (criativo tema da lavra de Toninho Geraes, Fabinho do Terreiro e Randley Carioca).

O partido alto se faz presente com a contagiante “Candeeiro de Vovó” (de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho, que conta com a adesão da Velha Guarda do Império Serrano), o clima de gafieira marca terreno com a hilária “O Puxa-Saco” (de Alamir, Roberto Lopes e Levy Vianna) e o samba mais dolente se garante com “O Som do Samba” (de Marcos Diniz, Barbeirinho do Jacarezinho e Luiz Grande). E há mais um outro convidado presente: Nelson Sargento em “Encanto da Paisagem” (de sua autoria). A bem-humorada “O Garanhão” (de Zé Roberto) já está tocando na trilha da telenovela global “Passione”, ainda que a primeira música de trabalho escolhida pela gravadora tenha sido a releitura de “Poxa”, grande sucesso de seu autor Gilson de Souza no distante ano de 1975.

O fato é que Zeca Pagodinho acertou de novo e fez de seu novo CD um dos ótimos lançamentos deste ano. Ouça e entre na onda!

 

 

N O V I D A D E S

 

· O selo Discobertas, capitaneado pelo pesquisador musical Marcelo Fróes, está repondo no mercado cinco títulos da discografia de Elza Soares. Entre eles encontra-se “Somos Todos Iguais”,

álbum originalmente lançado em 1985 pela gravadora Som Livre e até agora inédito no formato CD. Nele, Elza apresenta versão personalíssima para “Heróis da Liberdade” (de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola), perpetua “Daquele Amor, Nem Me Fale” (rara e inspirada parceria entre João Donato e Martinho da Vila) e mergulha no delicioso molho cubano da faixa-título (de sua própria autoria). Dentre os melhores momentos do repertório não se pode deixar de destacar, no entanto, o contundente registro de “Milagres” (tema menos conhecido de Cazuza e Frejat) e o histórico encontro de Elza com Caetano Veloso em “Sophisticated Lady” (de Duke Ellington traduzida por Augusto de Campos). Imperdível!

 

· Está chegando esta semana às lojas a trilha sonora da nova telenovela global “Araguaia”, apresentada às 18 horas. É a cantora goiana Maria Eugênia quem interpreta “Companheiro”, a faixa de abertura da trama. Também estão presentes no CD, entre outros, Zé Ramalho (“O Amanhã É Tão Distante”), Victor & Léo (“Rios de Amor”), Daniel (“Disparada”), Skank (“Fotos na Estante”), Kid Abelha (“Jardins da Babilônia”), Móveis Coloniais de Acaju (“O Tempo”) e Antonio Villeroy (“Felicidade”). 

 

· O quinto álbum da cantora Adriana Maciel ainda se encontra em fase de formatação, mas deverá mesmo ser dedicado ao repertório do compositor jamaicano Bob Marley, ainda que a intenção conceitual seja tentar afastá-lo da habitual praia do reggae. Quem viver, ouvirá!

 

· O cantor e compositor Leoni, hitmaker do pop rock nacional, autor de sucessos tais como “Fixação”, “Lágrimas e Chuva”, “Garotos”, “Como Eu Quero” e “Temporada de Flores”, acaba de pôr no mercado, nas versões CD e DVD, o seu mais novo projeto intitulado “A Noite Perfeita”, fruto do registro ao vivo de concorrida apresentação realizada em junho deste ano no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Ancorado por uma banda enxuta, porém competente, o artista apresenta ao público diversas canções inéditas. Os melhores momentos ficam por conta das músicas “Do Teu Lado” (parceria com Rodrigo Maranhão), “Se Não Agora, Quando?” (feita ao lado de George Israel e Luciana Fregolente) e “Igual a Qualquer Um” (criada com Eduardo Toledo). Única faixa gravada em estúdio, “Muita Calma Nessa Hora” (assinada por ele sozinho) é boa canção que já vem sendo bastante executada por várias rádios do eixo Rio-São Paulo, muito por integrar a trilha sonora do filme homônimo, uma aguardada comédia dirigida por Felipe Joffily que tem sua estreia programada nos cinemas para o dia 12 de novembro próximo.

 

· Acompanhado de Leo Amuedo (na guitarra), Jorge Helder (no baixo), Rafael Barata (na bateria) e Serginho Trombone (no trombone), o pianista Antonio Adolfo lança no Brasil o CD “Lá e Cá”, cujo título alude ao fato de ele e sua filha Carol Saboya (com quem divide os créditos do trabalho) viverem na ponte entre Brasil e Estados Unidos. Exímio músico, ele ratifica o seu talento através das doze faixas selecionadas para esse belo álbum de jazz, três delas de sua própria autoria (“Cascavel”, “Minor Chord” e “Toada Jazz”, esta em parceria com Tibério Gaspar). Carol também se mostra excelente, pondo sua voz límpida à frente dos vocais de cinco canções, dentre as quais a bonita e complexa “Sabiá” (de Tom Jobim e Chico Buarque) e a inebriante “A Night in Tunisia” (de Dizzy Gillespie, Frank Paparelli e Jon Hendricks). Mister se faz ressaltar que o álbum foi gravado em estúdio como se fosse ao vivo, alcançando, não obstante tal opção, um resultado primoroso.

 

· Durante show recentemente realizado por Caetano Veloso na casa carioca Vivo Rio foram colhidas as imagens que farão parte do próximo DVD do artista baiano. O repertório se concentrou naquele lançado por ele em seu último álbum (“Zii e Zie”), mas traz algumas novidades, como revisitas a temas antigos próprios (“A Voz do Morto” e “Irene”) e mergulhos em canções alheias (o tango “Volver”, de Carlos Gardel e Alfredo le Pera, e a instigante “Água”, de Kassin).

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br   

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